Mercado já precifica manutenção dos juros em 13,75%? Saiba o que esperar do Copom
As Opções de Copom negociadas na bolsa brasileira indicam probabilidade implícita de 72,50% da Selic em 13,75% ao ano
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência do Brasil, o risco fiscal no radar dos investidores e as incertezas diante da política econômica que será adotada no novo governo, levaram a mudanças nas projeções da taxa básica de juros. Se antes o mercado esperava um corte na Selic de 0,25 ponto percentual na reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) nesta quarta-feira (4), agora a maioria dos agentes de mercado é a manutenção dos juros.
No dia 03 de novembro, as Opções de Copom negociadas na bolsa brasileira indicam probabilidade implícita de 72,50% da Selic em 13,75% ao ano. Enquanto 26% esperam um corte de 0,25 pp levando a taxa de juros para 13,50% ao ano.
O próprio boletim Focus do Banco Central também elevou suas projeções para a Selic no final de 2026, de 13,25% para 13,50%. Enquanto em 2027, a expectativa para a taxa de juros saltou de 11,75% para 12,50%. Vale lembrar que o Copom ainda terá uma última reunião este ano, nos dias 8 e 9 de dezembro.
O que esperar do próximo Copom
Segundo especialistas consultados pelo Bora Investir, a preocupação fiscal diante de mais um governo Lula e o cenário internacional, deixaram de certa forma insustentável um novo corte de juros nesta quarta-feira (4).
Matheus Villela, analista da gestora de patrimônio Aware Investments, cita que existe no mercado uma incerteza relevante sobre a sustentabilidade das contas públicas no próximo mandato.
“O mercado aguarda a definição do comando da Fazenda e com o câmbio pressionado torna-se mais desafiador para o Banco Central conduzir a inflação para dentro da meta”, afirma Villela.
Segundo o analista, o comunicado do Copom será mais relevante do que a decisão em si, porque uma sinalização mais firme do Comitê pode reduzir o prêmio de risco, mas um corte de juros neste momento poderia ser interpretado como leniência (uma postura mais suave), o que acabaria pressionando ainda mais os juros de longo prazo e o câmbio.
Para Alex André, economista e head de corporate access da MZ Group, o mercado de fato ficou cauteloso com a reeleição de Lula, contudo fatores externos também corroboram a visão de manutenção de juros. Ele cita o petróleo ainda em um patamar elevado, acima de US$ 100 o barril Brent, contribui para um espalhamento da inflação.
Além disso, André cita o dólar alto, acima de R$ 5,40, impulsionado por incertezas fiscais. “Petróleo para cima e dólar em alta contribuem para a manutenção dos juros e até elevação. A defasagem do preço dos combustíveis pode fazer com que a Petrobras subsidie o preço gerando inflação”, avalia o economista.
André não descarta ainda que ocorra uma elevação de juros nas próximas reuniões caso a inflação e a instabilidade fiscal do governo continue.
Há espaço para mais cortes?
Diego Hernandez, economista e fundador da Ativo Investimentos, acredita que o ciclo de afrouxamento monetário chegou ao fim e não enxerga mais cortes de juros em 2026. Para ele, as expectativas de inflação já estavam desancoradas com o dólar próximo de R$ 5,40 e forte volatilidade diante da expectativa da nova equipe econômica do governo, conciliando com fatores climáticos e ambiente internacional ainda incerto. “Isso torna a inflação cada vez menos previsível, reduzindo a margem de corte de juros”, destaca.
Entre os efeitos dessa manutenção dos juros em 13,75%, Hernandez cita a formação de expectativas e preços no mercado, diante do que se espera da nova equipe econômica e as propostas relacionadas ao controle fiscal.
“O mercado futuro já tem embutido um prêmio alto nessas expectativas, perceptível no preço dos financiamentos, por exemplo, tudo isso faz mais preço do que o próprio movimento da taxa atual”, comenta o economista da Ativo Investimentos.
Já Luis Felipe Vital, chefe de estratégia macro e dívida pública da Warren Rena, afirma que a projeção de juros da instituição foi ajustada, passando de corte de 0,25 ponto percentual para manutenção. Para ele, novos cortes feitos pelo Copom na mesma proporção só serão retomados em janeiro de 2027, mas estarão sujeitos à evolução dos indicadores econômicos e dos preços de mercado.
“Destaca-se a preocupação com o risco de desancoragem adicional das expectativas em meio à crescente incerteza e à percepção de risco pelo mercado”, avalia Vital.
Realidade pode ser diferente
Na contramão, há quem acredite que a expectativa de manutenção de juros é uma reação desproporcional e exagero do mercado financeiro. É o que defende André Galhardo, economista-chefe da consultoria Análise Econômica.
Para Galhardo, ainda há espaço para um corte residual de 0,25 ponto percentual na reunião desta quarta-feira (4). Segundo o economista, o Banco Central tem amparo técnico para fazer mais um ajuste, porque embora a inflação esteja acima do teto da meta, não se trata de uma inflação fora de controle.
“Boa parte do aumento dos preços tem vindo de um choque de oferta, muito em função do aumento dos preços de energia, em particular dos combustíveis”, aponta.
Galhardo também destaca dados da atividade econômica, que endossam desaceleração, apesar do desemprego nas mínimas históricas. Ele também cita os números da indústria que considera ruins e o comportamento do mercado varejista bastante fraco. “Mesmo o setor de serviços, que está bem perto do nível máximo histórico, está há cerca de quatro meses sem crescimento”, pontua.
Para Galhardo, há muitos sinais de desaceleração da atividade econômica que afastam uma retomada. “Portanto, embora o estresse pós eleições esteja apontando uma manutenção da Selic, os sinais de desaceleração econômica abrem caminho para que o Banco Central faça um corte residual com a taxa de juros chegando a 13,50% ao ano”, defende.
Impacto nos investimentos
Em relação aos investimentos, Vilella ainda considera a renda fixa atrativa, com o pós-fixado como a base das carteiras, oferecendo juro elevado e baixa volatilidade.
Para investidores de longo prazo, destaca que títulos atrelados à inflação podem oferecer taxas atrativas para construir posição de forma gradual. Já em relação a prefixados longos, a dica é ter cautela até que haja cautela sobre a política fiscal.
“Na renda variável, recomendo seletividade, evitando companhias mais alavancadas, que são mais sensíveis ao ambiente de juros elevados. Além disso, considero essencial manter exposição a moeda forte e o dólar cumpre esse papel de proteção da carteira em um cenário de maior volatilidade doméstica”, pontua.