O papel crescente do ESG dentro do mercado financeiro
Conceito ganha força nas instituições financeiras, mas percepção limitada ainda é uma barreira para uma melhor aplicação nos investimentos
Em um mundo cada vez mais preocupado com o desenvolvimento sustentável, em que o próprio conceito de desenvolvimento já não pode mais ser dissociado da evolução em temas cruciais ligados a questões de meio ambiente, sociedade e crescimento econômico inclusivo, pilares reforçados pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, o conceito de ESG (Ambiental, Social e Governança, na sigla em inglês) ganha cada vez mais força no mercado financeiro.
Conforme um estudo recente divulgado pelo Morgan Stanley, feito com base em 900 perspectivas de investidores da América do Norte, Europa e Ásia, ao menos 8 em cada 10 “players” do mercado almejam aumentar a alocação de capital em ativos sustentáveis.
De modo geral, a instituição estima um crescimento dessa vertente de finanças e investimentos sustentáveis nos próximos anos, ao destacar novas oportunidades de crescimento e o impacto cada vez mais real de riscos ambientais e sociais.
No cenário nacional, a tendência de uma preocupação maior com os critérios ESG é atestada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). A mais recente edição do Relatório de Sustentabilidade no Mercado de Capitais revela que a sustentabilidade segue sendo um tópico de importância elevada para as instituições, com a maioria dos entrevistados (68%) mencionando que o tema deverá ganhar ainda mais importância nos próximos meses.
Em contrapartida, ainda existem alguns gargalos relacionados principalmente à percepção das instituições financeiras quanto a essa temática. A pesquisa da Anbima mostra, por exemplo, que ainda existe uma limitação no conceito geral do tema ESG.
Mais de um terço das instituições (38%) ainda possuem uma visão de sustentabilidade apenas como sinônimo de questões ambientais, desconsiderando as partes relacionadas aos negócios. Apenas 11% dos entrevistados declararam integrar as práticas ESG como um pilar fundamental de suas respectivas estratégias de negócios.
Influência na tomada de decisões
O principal erro ao reduzir o ESG à temática ambiental é a possibilidade de avaliações mais rasas e imprecisas referentes à tomada de decisões, à ponderação de risco e à alocação de capital. Isso porque essa prática entra nos negócios essencialmente como uma ótica de risco para identificar possíveis questões envolvendo governança de empresas, gestão de portfólio e mesmo práticas como o “greenwashing”.
“ESG entra na análise de risco. Uma empresa com passivo ambiental, governança frágil ou conflito trabalhista carrega um risco que muitas vezes ainda não aparece no balanço. Isso afeta o preço que se aceita pagar. É como o nível de alavancagem de um negócio”, explica Marcel Lima, sócio da Valor Investimentos.
João Pontedeiro, Principal de mercado de capitais da VOX Capital, destaca que a influência dos critérios ESG para a compra e venda de ativos passa, primeiro, por um filtro de avaliação do modelo de negócios, em particular em relação ao impacto ambiental/social do produto ou serviço comercializado por determinada empresa.
“Investimos em empresas cujo produto ou serviço contribui para resolver um problema social ou ambiental real, e há setores que não financiamos”, afirma Pontedeiro.
“As práticas ESG entram em seguida, como lente de risco. Governança, passivos ambientais e trabalhistas e histórico de controvérsias pesam no “rating” e no monitoramento. Uma empresa que acumula controvérsias passa a ser acompanhada mais de perto. Se o histórico passa desse limite, ela deixa de ser elegível.”
Entre sustentabilidade e risco
Um outro consenso frequentemente abordado é o de que a escolha mais sustentável nem sempre é aquela que gerará um maior retorno para o investidor, estando geralmente associada à alocação de capitais em investimentos e empreendimentos novos no mercado ou a modelos de negócios mais inovadores, que desviam das tendências de mercado.
A análise do Morgan Stanley destaca que mais “players” têm expectativas de um retorno maior na comparação com 2024 e 2025. O estudo mostra ainda que cerca de dois terços dos entrevistados afirmam que a sustentabilidade é um fator importante na mitigação de riscos no portfólio.
Nesse aspecto, os especialistas destacam que a análise ESG tende a melhorar o processo de análise de riscos nos investimentos, mas afirmam que a avaliação, especialmente feita por agências de “rating”, pode variar conforme critérios específicos de cada empresa ou setor.
“Na teoria, melhora. Uma empresa que resolve um problema real tende a ser mais resiliente, e uma empresa com boas práticas ESG também. Na prática, o mercado ainda não precifica bem essas variáveis”, ressalta Pontedeiro.
Lima, por sua vez, menciona o estudo “Aggregate Confusion”, conduzido por pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT), para explicar as divergências nos critérios de avaliação de empresas em diferentes classificações, além de mencionar que um bom equilíbrio entre negócios sustentáveis, rentabilidade e liquidez deve necessariamente passar por um comprometimento real do mercado com a agenda ESG.
“Ainda existem questões sensíveis como os casos de excesso de concentração nos mesmos papéis ‘verdes’: o ativo fica caro e o retorno futuro diminui, e o “greenwashing”, quando a empresa vende uma imagem que os números não sustentam.”
“O equilíbrio só se sustenta se fizer parte da estratégia de negócio, e não do departamento de marketing. Ele passa por três escolhas: prioridades (nenhuma empresa precisa resolver todos os temas ao mesmo tempo); retorno sobre o capital (ação sustentável pode ser usada para reduzir custo); e visão de longo prazo (projeto de transição é de longo prazo, então não deve ser bancado com o caixa do dia a dia)”, acrescenta Lima.
Marcos regulatórios e transição energética
Agora, o mercado espera por novas perspectivas, em parte pelo potencial do Brasil como um agente protagonista do movimento de transição energética, especialmente após a implementação da Lei nº 15.042/2024, que instituiu um sistema que regula o mercado de carbono brasileiro, com a intenção de mitigar emissões e estabelecer um mercado de “cap and trade”.
“Essa legislação criou o mercado regulado de carbono, e a emissão passa a ter custo. Quem emite muito e não tem plano de transição vai sentir no custo de capital. Do outro lado, o país tem vantagem em energia renovável, biocombustíveis e minerais da transição, e isso pode virar prêmio de valor”, diz Lima.
Ao mesmo tempo, o especialista menciona que o avanço tem ocorrido de forma irregular, como a questão do fim da obrigatoriedade da divulgação de relatórios de sustentabilidade pelas companhias no padrão internacional adotado pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), algo que foi revisto pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que instituiu um regime “voluntário” de divulgação das informações.
Pontedeiro destaca que, no setor de crédito, a principal mudança deverá ocorrer por meio da Resolução Previc 26/2025, que institui exigências mais claras quanto à adoção dos critérios ESG ao se considerar o empréstimo de dinheiro.
“Essa resolução, em vigor desde janeiro, regulamenta a Resolução CMN 5.202/2025 e leva a dupla materialidade aos fundos de pensão. Cada fundação passa a avaliar como os fatores ESG afetam o valor dos seus investimentos e como esses investimentos afetam o meio ambiente e a sociedade”, conclui.