Fundos cambiais: como funcionam e quando vale a pena investir
Esses ativos possibilitam exposição a moedas internacionais e funcionam como instrumentos de hedge
Em meio às projeções recentes de alta do dólar, a procura por ativos atrelados à moeda americana pode representar uma opção para aqueles que buscam diversificação e alguma segurança diante de um cenário macroeconômico cada vez mais instável. Nessa conjuntura, os fundos cambiais aparecem como uma das principais opções para o investidor. Eles são uma modalidade de fundo de investimento diretamente ligada a ativos atrelados ao câmbio, seja ao dólar ou a outra moeda estrangeira, os chamados fundos cambiais.
Conforme as regras definidas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), para ser considerado cambial, um fundo de investimento precisa manter, no mínimo, 80% de sua carteira em ativos atrelados direta ou indiretamente a uma moeda estrangeira. Os outros 20% geralmente são destinados à renda fixa e a títulos mais conservadores.
Os fundos cambiais são considerados adequados para investidores que almejam exposição a moedas internacionais e buscam maior proteção contra a volatilidade associada às taxas de câmbio.
Apesar de serem mais procurados em momentos de incerteza e maior volatilidade no mercado, os fundos cambiais possuem um papel muito mais abrangente dentro do portfólio, servindo não somente como proteção contra as oscilações cambiais, mas também como instrumento de diversificação da carteira.
Fundos cambiais em tempos de incerteza
Antes de investir, é importante que o investidor conheça um paradoxo dos fundos cambiais: embora possam representar uma proteção contra as oscilações cambiais e uma eventual desvalorização do real, eles são, ao mesmo tempo, uma opção sujeita à volatilidade, cujos retornos podem ser afetados pelas flutuações nas cotações das moedas.
Isso porque as flutuações cambiais são fortemente impactadas por uma série de eventos pouco previsíveis, como disrupções no comércio internacional e dados macroeconômicos negativos de um país, a exemplo de indicadores de emprego, alterações nas taxas de juros, aumento da inflação ou desaceleração econômica acima do esperado pelo mercado.
Nessa equação, é preciso considerar ainda as taxas de administração cobradas, que podem reduzir a rentabilidade, além das variações cambiais das moedas às quais o fundo está atrelado.
Investir com base em uma projeção de alta do dólar também não é a melhor estratégia, especialmente diante da possibilidade de mudanças nas expectativas, já que o câmbio é influenciado por diversos fatores.
“É importante lembrar que prever o câmbio é muito difícil, mesmo para profissionais. O dólar é influenciado por fatores como juros no Brasil e nos Estados Unidos, inflação, situação fiscal, crescimento econômico, fluxo de capital estrangeiro e cenário político”, avalia Rhaiza Paixão, especialista em investimentos e MBA em Finanças pela B7 Business School.
“Por isso, o ideal é não investir em fundo cambial apenas apostando em uma alta do dólar, mas avaliar se a exposição à moeda estrangeira faz sentido dentro da estratégia como um todo.”
Diversificação como força motriz
O investimento em fundos cambiais, além de proporcionar maior exposição a moedas internacionais, oferece a possibilidade de diversificação internacional da carteira de investimentos.
Isso porque, ao adquirir cotas de um fundo cambial, o investidor está, na prática, investindo em uma carteira de ativos atrelados a uma moeda estrangeira, o que pode incluir, por exemplo, títulos soberanos e contratos de câmbio.
A exposição a moedas estrangeiras faz com que os fundos cambiais também exerçam um papel importante como instrumentos de hedge, com o objetivo de proteger o investidor contra eventuais desvalorizações do real.
“Ao ter uma parcela da carteira exposta ao câmbio, o investidor pode reduzir a dependência de ativos ligados exclusivamente à economia brasileira e ampliar as fontes de diversificação do portfólio”, afirma Soraia Barros, gerente-executiva de Fundos de Investimento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
O uso dessa classe de investimentos como instrumento de hedge também pode ser adequado para aqueles que buscam preservar o poder de compra em moeda estrangeira, o que é importante para planos que envolvam viagens internacionais e aquisição de patrimônio no exterior.
“Imagine um investidor com praticamente todo o patrimônio em reais, como, por exemplo, imóveis no Brasil, renda fixa brasileira, ações, previdência e salário em reais. Mesmo com vários investimentos diferentes, existe uma concentração importante no mesmo país e na mesma moeda”, destaca Paixão.
“Ter uma parcela exposta ao dólar pode funcionar como uma espécie de contrapeso. Em alguns momentos de maior instabilidade no Brasil, o dólar pode se valorizar e ajudar a amenizar as perdas de outras posições da carteira”, acrescenta.
Fundos cambiais ou comprar dólar?
Por conta de suas características e da dificuldade de prever com precisão os movimentos do câmbio, a recomendação de investimento em fundos cambiais tende a estar mais associada a uma estratégia de longo prazo do que à tentativa de aproveitar momentos pontuais de oscilação do dólar e de outras moedas.
A possibilidade de diversificação por meio da exposição a uma moeda estrangeira e a função de hedge também são elementos que diferenciam os fundos cambiais de outros tipos de investimentos associados a essas moedas, como os Exchange Traded Funds (ETFs) ou mesmo a compra direta de dólar.
Um ETF, por exemplo, não necessariamente terá sua cotação elevada quando o dólar subir, pois seu desempenho também depende dos riscos e das oscilações dos ativos que compõem sua carteira. Já os fundos cambiais, por terem uma carteira com maior concentração em ativos vinculados à moeda estrangeira de referência, tendem a acompanhar mais diretamente a variação cambial, embora isso não elimine os riscos nem garanta proteção integral ao investidor.
A compra direta de dólar é outra opção para quem deseja se proteger contra oscilações cambiais. Contudo, essa alternativa pode ser menos vantajosa para o investidor que busca maior rentabilidade.
“A compra de dólar é a exposição direta à moeda. Se for dólar em espécie, porém, existem custos de compra e venda, spread cambial e questões de segurança. Para investimento, normalmente existem alternativas mais eficientes do que simplesmente guardar moeda física”, explica Rhaiza Paixão.
Para investir em fundos cambiais, por meio de plataformas de investimento, é necessário ter uma conta em uma instituição financeira ou corretora que distribua esses produtos. Na B3, o investidor pode consultar informações sobre os ativos negociados em bolsa, incluindo o histórico de desempenho, as taxas de administração e os regulamentos dos fundos.
Não existe um perfil único para investir em fundos cambiais. No entanto, por estarem sujeitos à volatilidade e a riscos de mercado, eles exigem que o investidor avalie sua tolerância a perdas e seu horizonte de investimento. A exposição cambial pode ser útil tanto para investidores que buscam diversificação quanto para aqueles que desejam reduzir a dependência de ativos denominados em reais, desde que seja compatível com seus objetivos financeiros.