Câmbio

Dólar, Iene e Real: O que está por trás da desvalorização de uma moeda

A trajetória do iene ajuda a explicar como juros, inflação, contas públicas, fluxo de capitais e confiança podem determinar o valor de uma moeda

Em meses recentes, o iene, moeda oficial do Japão, atingiu a menor cotação em 40 anos, tendo chegado a um patamar próximo de 160 ienes por dólar, o que gerou alertas sobre uma eventual intervenção cambial para sustentar a moeda japonesa.

A trajetória descendente da moeda vem de longa data. Após um período de alta entre a década de 1990 e o início dos anos 2010, quando chegou próximo da marca de 70 ienes por dólar, a moeda perdeu força diante de um contexto macroeconômico altamente complexo.

Entretanto, mesmo diante de um momento delicado e altamente volátil, por que algumas moedas conseguem manter certa resiliência enquanto outras, como o iene, veem sua cotação desmoronar?

A trajetória da queda de uma moeda

Existem alguns fatores que ajudam a explicar o porquê de algumas moedas enfrentarem forte desvalorização no câmbio. No caso do iene, esse movimento é amplamente atribuído aos baixos juros praticados pelo Banco do Japão por décadas, num movimento anticíclico que almejava estimular a atividade econômica do país, que enfrentava um período prolongado de baixo crescimento.

A moeda conseguiu preservar seu valor até meados de 2011, em parte graças aos superávits da balança comercial japonesa e à confiança do mercado na resiliência econômica do Japão em momentos de crise, o que ajuda a explicar a alta do iene durante a crise de 2008, por exemplo.

A mudança de paradigma se deu, primeiro, devido ao fim da sequência de superávits. Em 2011, o país registrou um déficit comercial de 2,49 trilhões de ienes (o equivalente a US$ 32 bilhões à época), interrompendo um ciclo de 30 anos de saldo positivo na balança comercial.

Além dos baixos juros, outro motivo que levou à desvalorização do iene foi um conjunto de políticas chamado de Abenomics, adotado pelo então primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, e formulado com base em um tripé de políticas de estímulo fiscal, reformas estruturais e flexibilização monetária. Essa estratégia, entre outros objetivos, visava promover uma retomada da produção industrial no país, que, em teoria, seria estimulada pelos menores custos associados a uma moeda mais fraca.

Apesar de resultados positivos, como o fortalecimento da Bolsa de Tóquio e a forte atração de investidores estrangeiros, a Abenomics, no médio e longo prazo, contribuiu para o aumento da dívida pública japonesa (atualmente a maior do mundo, equivalente a mais de 200% do Produto Interno Bruto do país) e contribuiu para uma desvalorização persistente do iene, agravada também por questões estruturais como a crise demográfica, marcada pelo envelhecimento da população em idade ativa.

O preço do dinheiro

Recentemente, o Banco do Japão (BoJ) elevou a taxa de juros básica do país em 0,25 ponto percentual, de 1% para 1,25% ao ano, o maior nível desde 1995, com o objetivo de conter os preços em um contexto global marcado por aumento de custos no setor energético e em face da forte desvalorização do iene.

Jonathan Joo Young Lee, head da mesa internacional da Mirae Asset Brasil, explica que a elevação dos juros só ataca um dos problemas enfrentados pela moeda japonesa.

“Existem pelo menos três camadas relevantes por trás dessa desvalorização. A primeira é conjuntural: o iene paga juro real negativo. A segunda é fiscal: o juro japonês sobe por meio da dívida, e não por força da economia. E a terceira é estrutural: o superávit do Japão não se converte em demanda por iene. A alta de juros do BoJ só ataca a primeira camada”, afirma.

A trajetória ascendente dos juros reflete ainda uma exigência maior de prêmio por parte dos investidores, como “compensação” pelo aumento da dívida pública. Só que, nesse contexto, os juros mais altos não necessariamente se traduzem numa economia fortalecida, já que podem estar associados à percepção de risco fiscal.

“A moeda em si não é uma nota de desempenho da economia. É o preço relativo do dinheiro, definido pelo juro real que ela paga. O Japão é rico em estoque, mas fraco em fluxo: cresce cerca de 1% ao ano, com diminuição da população em idade ativa, paga juro real negativo e manda a poupança para fora”, acrescenta Lee, ao mencionar o fenômeno conhecido como carry trade, que consiste na captação de recursos em uma moeda com juros baixos, como o iene, e a aplicação desses recursos em moedas com juros mais altos, a exemplo do dólar.

Os diferentes caminhos para a desvalorização de uma moeda

A trajetória da moeda japonesa está longe de ser um precedente único na economia mundial. Em determinados países, as moedas locais têm enfrentado situações agudas decorrentes de problemas macroeconômicos.

Exemplo disso é o rial iraniano, que no mês passado atingiu uma mínima histórica frente ao dólar, sendo negociado a mais de 2 milhões por dólar no mercado paralelo, em um contexto agravado por tensões globais e pelas sanções econômicas aplicadas sobre o Irã.

Outro caso é o do peso argentino, que tem enfrentado períodos de desvalorização sucessivos, tanto pela instabilidade econômica do país quanto pela persistência da alta inflação. Na tentativa de conter distorções cambiais e mitigar a perda de reservas em dólar, o Estado argentino, em diferentes momentos na história recente, optou por medidas que resultaram na desvalorização da moeda.

É preciso, contudo, entender que o processo de desvalorização de uma moeda não ocorre de forma homogênea ao redor do mundo. Os processos de desvalorização do peso argentino e do iene japonês, ainda que tenham partido de pressupostos semelhantes (estabilização da economia por meio de políticas monetárias), ocorreram em contextos completamente distintos.

Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, destaca que os baixos juros praticados no Japão e o Carry Trade são os agravantes no caso do iene, enquanto, na Argentina, a deterioração do peso se dá sobretudo pelo cenário de crise monetária.

“O iene tem sofrido sobretudo com juros japoneses inferiores aos de outras grandes economias. A sua fraqueza recente não equivale à crise de inflação e confiança associada ao peso argentino”, afirma.

“Na Argentina, embora haja esforços de estabilização, o Fundo Monetário Internacional (FMI) ainda aponta inflação elevada, dificuldades na recomposição de reservas e episódios de maior procura por dólares. A diferença central não é o número de unidades por dólar, mas o motivo pelo qual a moeda está fraca e se existe confiança de que o poder de compra será preservado”, acrescenta.

Conforme o especialista, no longo prazo, o valor de uma moeda não será determinado necessariamente pelos juros ou pela cotação frente ao dólar. Nessa equação, precisa-se levar em conta variáveis como a inflação, especialmente na comparação com parceiros comerciais, o índice de produtividade, a capacidade de exportar e gerar divisas, a dependência de importações, a estabilidade fiscal e a confiança nas instituições e na política econômica em geral.

Nessa linha, o processo inverso, de revalorização de uma moeda, perpassa por políticas de ajuste fiscal e pela recuperação da confiança na moeda local.

“Quando há perda de confiança, recuperar a moeda existente exige um conjunto coerente de medidas, como controlar a inflação, evitar o financiamento recorrente de déficits pela emissão de moeda, tornar as contas públicas sustentáveis e oferecer regras cambiais e monetárias compreensíveis. Criar outra moeda pode ajudar numa crise extrema, mas mudar o nome das notas não corrige o desequilíbrio por trás delas”, diz Araújo.

A desvalorização como estratégia

A desvalorização de uma moeda pode ser usada como uma estratégia para fomentar a economia e também incrementar o setor de exportações, ao tornar determinado país mais competitivo na comparação com outros parceiros comerciais.

Um dos principais símbolos dessa estratégia é o yuan, a moeda oficial da China. Por décadas, o governo chinês manteve a moeda estrategicamente num patamar baixo para fomentar o setor de exportações do país e expandir a atividade econômica.

Ao mesmo tempo, a adoção prolongada dessa estratégia tem gerado certa controvérsia. Parceiros comerciais de Pequim, como a União Europeia (UE), Estados Unidos e órgãos internacionais como o FMI têm constantemente apontado desequilíbrios nas trocas comerciais globais em função dessa prática.

Essa estratégia também precisa ser adotada com parcimônia, a fim de evitar uma escalada de custos no mercado local e a deterioração do poder de compra da população.

“Ela passa a custar caro quando encarece energia, máquinas, insumos e alimentos importados, pressiona a inflação e reduz o poder de compra da população. Além disso, se as empresas exportadoras dependem muito de componentes importados, parte do ganho cambial desaparece no aumento dos próprios custos”, afirma Araújo.

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