Muito além dos pós-fixados: gestores defendem diversificação local e internacional nos ETFs de renda fixa
ETFs ativos também estão no radar do mercado, com regra definitiva esperada para 2027
Quando se fala em renda fixa, a indústria de ETFs (fundos de índices) no Brasil apresenta uma forte concentração em títulos pós-fixados, que se tornam atrativos principalmente pelo rendimento elevado do CDI (principal indicador da renda fixa, que segue a Selic). Contudo, imitando o exemplo de mercados internacionais, existem outras alternativas na renda fixa, como ETFs ligados à inflação e à renda fixa global.
Para gestores que participaram do Encontro Anual Sobre Índices e ETFs no Brasil 2026, o que falta no mercado brasileiro é o investidor enxergar ETF como um investimento completo que pode ser utilizado desde a reserva de emergência até como estratégia de longo prazo.
Segundo os gestores, um fator importante para isso é a educação financeira. O motivo é que o favoritismo do pós-fixado está relacionado a juros reais elevados e juros nominais de dois dígitos no Brasil, o que deixa o investidor em uma zona de conforto.
Isso porque ativos pós-fixados não trazem a sensação de marcação a mercado, enquanto nos mercados globais ETFs prefixados de renda fixa têm mais acolhida entre os investidores.
Para os gestores, a indústria passa por um momento em que o ETF não deve ser visto mais como um produto e sim como um veículo de investimento que vai ajudar a montar uma estratégia.
Um cenário para diversificação
Cauê Mançanares, CEO da Investo, destaca que há diversas oportunidades para diversificação internacional, principalmente na renda fixa. “É a simplificação internacional, o investidor não precisa ficar analisando todos esses papéis e, em dias ruins do mercado, pode dormir tranquilo porque o ETF protegeu de forma simples a sua carteira”, destaca.
Para Isaac Marcovistz, gerente executivo de fundos de renda fixa e câmbio da BB Asset Management, existem diversas opções no mercado internacional para diversificar na renda fixa, entre eles os ETFs de bonds soberanos (quando o investidor tem acesso a uma dívida feita com o Tesouro dos EUA). Tem ainda os ETFs de bonds de empresas privadas.
“É um jeito de fazer investimentos globais com execução simples, por meio do veículo ETF, uma janela interessante para diversificar mais, também entre assessores de investimentos, bankers, gerando um olhar qualificado para eles e investidores”, destaca Marcovistz.
Mançanares cita ainda que quando pensamos em ETFs pós-fixados o foco é apenas no carrego do ativo, enquanto nos ETFs prefixados elementos como curva de juros e risco de crédito precisam ser observados. “Estamos tomando risco de curva de juros, de crédito, de moeda”, comenta.
Andrés Kikuchi, diretor executivo e de investimentos da Nu Asset Management, aponta que diante do cenário macroeconômico global ter juros altos não é mais um privilégio apenas do Brasil, o que trouxe oportunidade para o investidor fazer diversificação de moeda.
ETFs ativos no radar do mercado
Outro fator debatido pelos especialistas foi a regulação dos ETFs ativos, que ainda não são liberados do Brasil, mas estão na agenda da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para 2026. A expectativa do mercado é que a regra definitiva deva sair só em 2027.
Para Mançanares teremos um boom de ETFs ativos, mas o mercado ainda está concentrado em ativos indexados. “Vai ser bom porque vai furar a bolha de quem gosta de indexados, quem tem ETF passivo passa a olhar a estratégia ativa”, diz.
Os gestores reforçam que o ETF deve deixar de ser visto como uma classe de ativo e passa a ser enxergado como um veículo de investimento.
Segundo Castro, alguns ETFs tendem a acompanhar o mercado americano, usando o S&P 500 e pensando em mercados eficientes. Para ele, muitas vezes o mercado brasileiro tem a síndrome de vira-lata achando que está 10 ou 15 anos atrasado se comparado ao mercado americano, mas, segundo o gestor, com regulação é possível diminuir essa distância.
Kikuchi acrescenta que os ETFs ativos estão na pauta regulatória deste ano e vão ser complementares aos passivos. “Não vão mudar a estrutura dos indexados porque existem estratégias que podem gerar ao longo do tempo”, avalia.
A mudança mais determinante do mercado
Questionados sobre qual será a mudança mais determinante do mercado de ETFs nos próximos anos, boa parte dos gestores destacaram a regulação somada ao comportamento do investidor.
Para Castro, isonomia tributária e regulatória combinadas com o comportamento do investidor são uma ferramenta poderosa. Enquanto Marcovistz e Mançanares acreditam que o comportamento do consumidor é vital para usar o ETF na formação de poupança e reserva.
Kikuchi acrescenta que em um cenário que tenha tudo, sem mudança de comportamento não é possível mudar nada.