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Ibovespa em alta e dólar em R$ 5: é o momento de diversificar no exterior?

Especialistas veem câmbio favorável para montar a parcela dolarizada da carteira, mas alertam que a decisão deve ser estrutural

O Ibovespa B3 superou os 200 mil pontos em outubro, com os juros futuros mostram tendência de queda e o dólar passou a ser negociado abaixo da média do ano, em torno de R$ 5. Porém, a grande dúvida dos investidores é se com o mercado brasileiro em alta, faz sentido investir no exterior na reta final do ano ou se vale esperar.  

Para os especialistas ouvidos pelo Bora Investir valeria considerar a possiblidade, mas tendo em mente o motivo certo. O câmbio ajuda, porém não deve ser o protagonista da decisão. 

Segundo Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, o câmbio atual está em um bom preço de entrada e pode ser gatilho de investimento no exterior, mas não deveria ser o foco na tomada de decisão.  

Para ela, o motivo de investir lá fora continua sendo estrutural ao diversificar o risco de um único país, de uma moeda e do ciclo político local.  

Já Lucas Carvalho, diretor executivo da GTN, fintech focada em investimentos internacionais, concorda que o é interessante avaliar o envio de recursos ao exterior, porque além do câmbio os juros americanos seguem relativamente elevados e a bolsa americana se valorizou ao longo de 2026.  

Contudo, ele faz a ressalva que a diversificação internacional é uma forma de reduzir a concentração do patrimônio em uma única economia, independentemente do comportamento do dólar ou da bolsa brasileira no curto prazo. “O cenário atual pode ser um incentivo adicional para avaliar essa exposição, mas não deve ser o único motivo”, pontua.  

Na visão de Bruno Corano, economista da Corano Capital, o investimento internacional deve ser observado sob a ótica de pelo menos dez anos de alocação. Para ele, o real vai continuar sujeito à desvalorização diante do dólar no longo prazo.  “Vejo a queda recente do dólar como uma oportunidade para construir essa posição, mas não como a única razão para investir no exterior”, destaca.  

Para Bruno Falseti, sócio e gestor da Rubik Capital usar o câmbio favorável para construir uma posição estrutural vale a pena. Mas discorda que sair do Brasil para aproveitar o dólar barato seja oportunidade para internacionalizar portfólio, afinal, na visão dele, o investidor estaria vendendo um ativo em reprecificação para comprar um ativo caro.  

Bolsa americana é oportunidade? 

Na visão de Zogbi, não existe timing certo para se posicionar na bolsa americana, mas considera que o mercado está menos esticado do que no começo do ano. Ela cita que o preço sobre lucro (P/L) projetado do S&P 500 está em 19,1, abaixo da média de cinco anos de 19,8, porque o lucro cresceu mais rápido que o preço.  

Por outro lado, as dez maiores ações dos EUA respondem por cerca de 39% do índice e o juro americano de dez anos está perto de 5%. “Investir na bolsa americana hoje é uma aposta de que o micro continuará superando o macro”, afirma.  

Falseti é mais cauteloso e sinaliza que com o índice S&P 500 no patamar atual há um mercado precificado para poucas decepções. Já a bolsa brasileira, na visão dele, segue descontada em relação ao seu histórico, o que torna elevado o custo de oportunidade de transferir recursos para o exterior agora. A recomendação do gestor da Rubik é construir uma posição no mercado americano de forma gradual, com aportes ao longo do tempo.  

Segundo os especialistas a escolha não deveria ser ou Brasil ou EUA, dado que é possível manter investimentos na bolsa local e ao mesmo tempo construir uma exposição internacional.  

O que esperar em 2027? 

Zogbi comenta que o quarto trimestre deste ano expõe um desequilíbrio. Depois da alta da bolsa brasileira e a queda do dólar, muitas carteiras de investidores estão concentradas no Brasil, acima do patamar ideal.  

Com a Selic projetada pelo Focus em 12% no final de 2027, o custo de oportunidade de se expor ao dólar é menor, enquanto os juros americanos abrem espaço para se posicionar na renda fixa americana.  

Para Zogbi, 2027 será um ano que favorece ter uma carteira internacional diversificada, com renda fixa, setores fora da tecnologia e até mesmo regiões além dos EUA.  

Corano também partilha uma perspectiva positiva para 2027 e não descarta uma correção do mercado americano, o que abre oportunidades de alocação estratégica. Já Falseti condiciona o cenário a juros longos dos países desenvolvidos, que estão nas máximas em décadas, o que segue favorecendo os ativos brasileiros.  

Diversificação, mas com propósito

Entre os riscos, os especialistas citam o câmbio no curto prazo, já que o real pode se valorizar mais se o próximo governo apresentar uma agenda fiscal crível, o Federal Reserve (banco central americano) manter o ciclo de alta dos juros dos EUA e prevalecer a concentração de mercado em poucas empresas de tecnologia.  

“Não basta comprar dólares ou investir na bolsa americana. É necessário saber porque aquela posição existe, qual é o prazo do investimento e que nível de oscilação que o investidor está disposto a aceitar”, aponta Corano.  

Na visão dos especialistas consultados pelo Bora Investir existe também o risco de não diversificar o patrimônio e seguir concentrado no Brasil em um momento que é binário.  

Carvalho, da GTN, vai na mesma linha. Para ele, independente do resultado das eleições no Brasil, o país continuará enfrentando desafios econômicos e fiscais nos próximos anos. Contudo avalia que a exposição a outras moedas não representa uma aposta contra o país ou uma expectativa de valorização do dólar.  

A dicotomia do dólar  

Tradicionalmente, a moeda americana se valoriza nos últimos meses do ano, com remessas de dividendos e demanda sazonal de exportações. É o efeito calendário, que faz com que o dólar recue só na metade de janeiro, segundo os especialistas. Mas no Brasil, o cenário parece ir na contramão.  

Falseti observa que o dólar chegou a encostar nos R$ 4,98 após o primeiro turno das eleições, mas voltou a rodar acima de R$ 5. Para ele o vetor dominante é o ciclo de juros, com o diferencial de uma Selic de 13,75% contra juros americanos de aproximadamente 4%.  

O cenário-base é de um dólar contido, com volatilidade no segundo turno, projeta o gestor.  “Uma frustração nas urnas inverteria o quadro com rapidez”, avalia Falseti.  

Já Zogbi observa que o dólar costuma apresentar altas nos 12 e 24 meses após a posse do novo presidente e sugere para o investidor que faz aportes regulares aproveitar momento de queda para a remessa do mês.  

Corano prefere não cravar a direção do dólar neste cenário. Para o economista mais importante do que prever a cotação de dezembro é definir qual parcela do patrimônio faz sentido manter em moeda estrangeira, para construir essa posição de forma coerente com os objetivos de longo prazo.  

Exposição sem sair do Brasil

Para o investidor que busca ter exposição internacional na carteira sem precisar sair da bolsa brasileira existem instrumentos que permitem uma alocação com eficiência razoável. É o que aponta Falseti, da Rubik Capital, que cita os ETFs listados na B3 que replicam índices estrangeiros.  

Entre estes, o gestor cita ETFs que acompanham o índice americano S&P 500, além dos que replicam o índice Nasdaq 100. Tem ainda o ativos que seguem o  índice MSCI All Country World, composto por ações de empresas de grande e médio porte (large caps e mid caps) de 50 países, entre desenvolvidos e emergentes.  

“Na maior parte desses fundos, o retorno em reais combina duas variáveis: o índice e o câmbio. Em 2026, com o real valorizado, essa segunda ponta subtraiu retorno. O investidor deve entender que carrega as duas posições, queira ou não”, destaca Falseti. 

Ainda para se expor ao índice S&P 500 sem variação de moeda, ele cita estruturas com proteção cambial, como o SPXR11, que replica o índice em reais.  

Além disso, existem BDRs (certificados de ações estrangeiras) lastreados em ações custodiadas no exterior que permitem ao investidor ter acesso a empresas específicas. Um exemplo seria o BDR da Microsoft, listado sob o código MSFT34 ou o da Coca-Cola (COCA34).  

Falseti faz a ressalva que BDRs de grandes empresas possuem mais liquidez do que companhias estrangeiras de menor porte. Para o gestor, tanto os ETFs como BDRs, são ferramentas para construção de um portfólio global e diversificado, mas não significam um atalho motivado pelo dólar descontado.

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