ETFs de renda fixa ou de Ibovespa: confira o desempenho no ano e perspectivas
Especialistas destacam oportunidades e riscos entre os ETFs de renda fixa e os de renda variável
Com a Selic em 13,75% e o Ibovespa devolvendo parte dos ganhos do ano, a disputa entre ETFs (fundos de índice) de renda fixa e os que replicam a bolsa de valores brasileira ficou desequilibrada em 2026.
Levantamento da Elos Ayta Consultoria, com dados até 28 de outubro, mostra o MARG11, ETF de debêntures DI, na liderança entre os ETFs de renda fixa, com alta de 11,85% no ano, seguido pelo ETF de letras financeiras NLFA11 (11,78%) e pelo ETF de títulos atrelados à inflação curtos BOL511 (11,77%). Entre os oito ETFs que replicam o Ibovespa, o melhor desempenho é do BBOV11, com 6,98%, e o pior, do BOVS11, com 4,88%.
Outubro serviu para ampliar ainda mais a distância entre estas classes de ETFs. Até o dia 28, o rendimento dos ETFs de Ibovespa apresentava quedas entre 7,73% e 9,28%, enquanto os ETFs de renda fixa chegaram a valorizar até 2,30%.
Seguindo variáveis diferentes
Boa parte dos ETFs de renda fixa possuem uma cesta com um conjunto de títulos. Rafael Dadoorian, cofundador e head da mesa de renda fixa da Convexa Investimentos, explica que o ETF compra os títulos dessa carteira, ou uma amostra representativa, e ajusta as posições quando a composição muda. Desta forma, o investidor acessa uma cesta de ativos por meio de uma única cota.
Entre as principais referências de índices na renda fixa, Dadoorian destaca os da Anbima. Por exemplo, o IMA-S, que reúne os títulos públicos atrelados à Selic, LFTs conhecidas como Tesouro Selic.
Tem anda o IRF-M que reúne títulos prefixados. O IMA-B segue o Tesouro IPCA+, com vencimentos de até cinco anos (IMA-B 5) e vencimentos a partir de cinco anos (IMA-B 5+).
Dadoorian cita ainda o índice IDkA, que mede o comportamento de carteiras teóricas de títulos públicos que mantêm um prazo fixo, como dois, cinco ou dez anos. Ele pode acompanhar curvas prefixadas ou de juros reais, como a curva de títulos IPCA+.
Gabriel Castro, analista do Grupo Mide, cita que diferente dos títulos, os ETFs de renda fixa não possuem vencimentos. “Quem compra um ETF com uma cesta de títulos atrelados ao IPCA achando que travou uma taxa como no Tesouro Direto está comprando outra coisa”, comenta. A cota oscila todos os dias com a curva de juros e quanto maior o prazo maior o balanço.
Em relação a tributação, os ETFs de renda fixa podem ter certas vantagens. Anderson Moreira, head de conteúdo da DEX, afirma que estes fundos não possuem come-cotas ou IOF, a liquidez é de um dia útil (D+1) e o imposto de renda já é retido na fonte.
Já nos ETFs que replicam o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira (BBOV11, BOVA11, BOVB11, BOVS11, BOVV11, BOVX11, IBOB11 e XBOV11) a composição é revisada conforme a carteira teórica do índice, que muda cada quatro meses.
Segundo os especialistas, os três fatores que diferenciam um ETF de Ibovespa de outro seriam: taxa de administração, spread entre compra e venda e corretagem. “Se tratando de um produto que serve para replicar um índice, esses três pontos são a única coisa que separa um ETF do outro, já que a carteira é idêntica”, comenta Castro, do Mide.
O que esperar dos ETFs de renda fixa?
Segundo os especialistas consultados pelo Bora Investir, a eleição mudou o humor da curva de juros. Até 26 de outubro, as opções de Copom da B3 indicavam 63,1% de chance de manutenção da taxa Selic em 13,75% ao ano na reunião de 3 e 4 de novembro.
A probabilidade de redução de 0,25 ponto percentual está em 28% e de corte de 0,50 ponto percentual é de 4,2%.
O estudo da Elos Ayta mostra esse efeito nos ETFs. Em outubro, os que acompanham o Tesouro Selic subiram entre 0,9% e 0,98%. Enquanto os de inflação mais longa recuaram, com o IMAB11 caindo 0,66%, o IB5M11 recuando 1,33% e o PACB11 (que segue títulos do Tesouro IPCA ultralongos) desvalorizando 2,36%.
Já ETFs de títulos atrelados ao IPCA com vencimento curto, como BOL511 e BSP211 ficaram no positivo, avançando 0,48% e 0,27%, respectivamente.
Para Castro, do Mide, os ETFs pós-fixados ainda representam oportunidade, mesmo com eventual corte de juros no horizonte. Para ele, carregar uma cesta de títulos com rentabilidades de 13,7% e sem risco de marcação a mercado é difícil de bater.
Já na visão dele, a segunda melhor alternativa com risco retorno são os ETFs que investem em cestas de títulos IPCA de curto e médio prazo, entre eles B5P211, BOL511, PACC11, NTNS11 e GPCA11. “Travar juro real perto de 8% é historicamente excepcional” avalia o analista.
Na visão de Dadoorian, da Convexa, há espaço para ETFs de renda fixa prefixados e atrelados à inflação para quem pensa em retorno no médio e longo prazo. Ele cita que juros elevados proporcionam oportunidades de investir em carteiras com taxas atrativas.
Dadoorian cita ainda os ETFs Smart Selic, que reúnem uma cesta híbrida de 90% alocado em Selic e 10% em IPCA de longo prazo. “Esses ETFs mantêm a maior parte da carteira atrelada aos juros de curto prazo e, ao incluir uma parcela de títulos longos, podem se beneficiar de uma eventual queda das taxas reais”, observa.
O especialista recomenda cautela e alocação menor em ETFs de inflação expostos a títulos que vencem apenas a partir de 2045.
Para Leonardo Maranhão, analista e head de ETFs do Hub do Investidor, também há oportunidade nos ETFs atrelados ao IPCA, que continuam apresentando taxas historicamente altas, que ficaram mais elevadas na última semana.
Maranhão avalia que estes ETFs são um excelente veículo para se expor a juros reais, com vantagens tributárias, por não ter IOF, ter imposto de renda de 15% desde o início e o reinvestimento isento dos cupons e títulos que forem vencendo.
Castro acrescenta que evitaria ETFs com cestas expostas aos títulos IPCA de prazos longo e ultralongo, como o IB5M11 e o PACB11, quanto o risco fiscal não for resolvido, dado que são ativos que sofrem se a curva de juros real abrir mais.
E os ETFs da bolsa?
Olhando para os ETFs que replicam o Ibovespa, estes acumulam valorização entre 4,88% e 6,98% em 2026. Enquanto em outubro, devolveram ganhos com quedas entre 7,73% e 9,28%.
Maranhão destaca que o momento atual é de desconfiança e incertezas, porque a trajetória de precificação de ativos apresentará maior clareza com a sinalização de como será a política econômica do governo reeleito.
“Uma sinalização que não seja considerada adequada provocar novas quedas, ainda mais considerando que também estamos em momentos turbulentos geopolíticos e macroeconômicos globais, com juros e inflação altas pelo mundo todo”, aponta.
Para quem ainda quer ter exposição a bolsa brasileira, Maranhão aconselha não concentrar apenas nos ETFs do Ibovespa e sim ter também aqueles que se expõem a ações brasileiras por outros filtros, como qualidade, dividendos, ou setores defensivos.
Felipe Paletta, analista de investimentos da Paletta Research, acredita que em momentos de estresse do mercado vale a pena ser mais cauteloso. Na visão dele, pode ser mais interessante selecionar empresas de melhor qualidade na bolsa atualmente do que comprar o índice replicado por um ETF.
Já para quem não tolera as oscilações e não quer ter o trabalho de estudas ativos, Paletta aconselha ter posição nesse tipo de ETFs de forma fracionada ou esperar maior clareza do mercado.
ETF de renda fixa ou ETF de Ibovespa?
Paletta enxerga que no curto prazo ETFs de renda fixa ligados à inflação possa ser mais atrativos, principalmente quando a duration é compatível com prazos de objetivos.
Moreira, da Dex, reforça que o mais importante é que o investimento seja voltado para os objetivos. “E é extremamente importante que o investidor entenda os riscos da estrutura que ele está se expondo, justamente para não tomar uma decisão equivocada com base numa janela curta”, observa.
Já para o longo prazo, Paletta destaca ETFs de títulos indexados à inflação de longo prazo, para ajudar na estratégia de acumulação patrimonial e exposição a taxas reais, desde que o investidor tolere a volatilidade do mercado.
O analista também considera que os ETFs de Ibovespa possam compor uma carteira diversificada no longo prazo, apesar de que podem atravessar períodos de quedas expressivas e prolongadas.
Castro cita ainda que na hora de escolher um ETF de bolsa para a próxima década, o ideal seria optar por um ETF de Ibovespa de taxa baixa e aporte mensal. Ele justifica que a probabilidade de uma pessoa física bater o índice Ibovespa ao longo de dez anos é baixa e os custos de tentar costumam consumir o que ela eventualmente ganha.