Dividendos e PLR: Como usar esses recursos para construir patrimônio
Recursos podem reforçar a carteira de investimentos no longo prazo, desde que sejam utilizados com planejamento e atenção aos objetivos financeiros
Além das formas tradicionais de construção de patrimônio e diversificação dos investimentos, o direcionamento de recursos adicionais pode desempenhar um papel estratégico na composição da carteira. Nesse contexto, dois tipos de remuneração merecem atenção: os dividendos, pagos aos acionistas de uma empresa, e a Participação nos Lucros ou Resultados (PLR), destinada aos funcionários. Embora tenham naturezas distintas, ambos podem representar oportunidades para ampliar os investimentos e fortalecer o patrimônio.
Os dividendos consistem, basicamente, em uma parcela da distribuição de lucros de uma empresa entre os acionistas. Ao comprar uma ação de uma companhia de capital aberto na B3, o investidor se torna parte do quadro acionário de determinada empresa e, portanto, elegível para o recebimento de dividendos.
De forma semelhante, a Participação nos Lucros ou Resultados (PLR) representa uma bonificação distribuída aos funcionários da companhia com base em metas internas da empresa.
Antes de pensar em uma estratégia de investimentos, é necessário entender que esses dois bônus se dão de formas distintas. Os dividendos, por exemplo, podem ter uma periodicidade variada, podendo ser mensais, trimestrais ou anuais, a depender da política de distribuição de cada empresa. A distribuição dos recursos é proporcional à quantidade de ações em posse do investidor e o pagamento pode ocorrer tanto em dinheiro quanto em ações da companhia.
Já a PLR ocorre de forma mais espaçada ao longo do ano, sendo usualmente distribuída uma ou duas vezes no período, conforme regulamentado pela Lei nº 10.101/2000. Esse pagamento depende de critérios negociados entre empregadores e empregados, vinculados habitualmente a fatores como lucro e cumprimento de metas.
“Enquanto os dividendos remuneram o investimento, a PLR está relacionada ao vínculo de trabalho e aos resultados alcançados pela organização”, explica a professora da ESPM e economista Paula Sauer.
Como direcionar recursos para os investimentos
A periodicidade é um dos principais fatores a considerar na definição de uma estratégia para o uso dessas bonificações. No caso dos dividendos, que podem ser mais constantes, o investidor pode utilizar o capital extra para reinvestir os valores recebidos e ampliar o patrimônio. A PLR, por ser uma bonificação de caráter semestral ou mesmo anual, não deve ser tratada como uma variável constante dentro do orçamento.
É importante considerar que nenhum dos dois pagamentos é garantido de forma absoluta, sendo tanto os dividendos quanto a PLR, cada um à sua maneira, condicionados aos resultados da companhia e às regras aplicáveis à distribuição dos lucros ou ao cumprimento das metas estabelecidas.
Sauer ressalta que não existe um tipo de investimento ideal somente porque os recursos são provenientes de dividendos ou PLR, mas que cada um pode ser usado de forma planejada, conforme os objetivos pessoais do investidor.
“O que determina a escolha é o objetivo financeiro, o prazo, a necessidade de liquidez e a tolerância ao risco. No caso da PLR, por exemplo, se a pessoa ainda não tem reserva de emergência, pode fazer sentido começar por investimentos conservadores e líquidos, como Tesouro Selic e CDBs com liquidez diária, observadas as condições de cada produto”, diz.
“No caso dos dividendos, reinvestir os valores recebidos permite ampliar o patrimônio e potencializar os rendimentos futuros por meio dos juros compostos”, afirma. Ela ressalta, porém, que a estratégia deve considerar a diversificação da carteira e a saúde financeira das empresas, já que o pagamento de proventos não é, por si só, indicativo de um bom investimento.
Desenhando uma estratégia de longo prazo
Para montar um plano de longo prazo de construção de portfólio, o investidor precisa considerar suas metas, seus objetivos e suas prioridades, como retorno, risco e necessidade de liquidez.
Outro passo importante é analisar o fluxo de caixa das finanças pessoais e estruturar uma reserva de emergência para oferecer maior proteção contra gastos imprevistos.
No caso dos dividendos, é importante que o investidor faça uma análise das empresas, a fim de detectar possíveis problemas financeiros, além de tendências que indiquem maior potencial de bons retornos no longo prazo.
Na visão de Sauer, essas duas categorias também não devem ser tratadas como algo “dado”, ou seja, como uma recompensa. A economista menciona o estudo desenvolvido pelo Nobel de Economia Richard Thaler acerca do conceito de “contabilidade mental”, segundo o qual esse dinheiro extra, oferecido como prêmio, pode acabar gerando um comportamento mais impulsivo e menos planejado.
“O salário costuma ser associado ao esforço cotidiano, ao tempo dedicado ao trabalho e à responsabilidade de manter as despesas da casa. Já a PLR e os dividendos são, muitas vezes, classificados mentalmente como um dinheiro extra, um prêmio ou até um presente. Isso acontece porque não fazem parte do fluxo habitual de renda”, afirma.
Além de gastos impulsivos, isso pode criar a ilusão de um padrão de vida acima das possibilidades reais do investidor, gerando um círculo vicioso de excesso de consumo e poucas perspectivas de investimento no longo prazo.
Uma solução que equilibra os dois lados é destinar uma parte dos recursos para o consumo, enquanto outras parcelas são direcionadas ao reinvestimento (visando aos objetivos de médio e longo prazo) e à reserva de emergência, por exemplo.
Para quem pretende utilizar esses recursos na construção de uma fonte de renda passiva, é importante calcular o custo de vida e estimar a renda complementar necessária para sustentar o padrão de consumo sem depender exclusivamente do salário mensal. Nesse caso, a estratégia deve combinar aportes regulares, reinvestimento dos rendimentos e diversificação dos investimentos, de modo a proteger o patrimônio e contribuir para a sustentabilidade da renda no longo prazo.