Como funciona a carteira 60/40 e como ela é avaliada após a evolução do mercado
Famosa divisão de portfólio enfrenta resultados negativos com inflação, juros altos e aceleração de certos setores nas bolsas globais
Por décadas, a carteira 60/40 foi a receita mais repetida do mercado financeiro. A estratégia, que surgiu da teoria moderna de portfólios do economista Harry Markowitz, considerava uma alocação ideal de 60% do patrimônio em ações e 40% em renda fixa.
O motivo é que existia uma correlação historicamente negativa entre ações e títulos. A crença é que quando a economia desacelera, as ações caem e os juros recuam junto, fazendo com que os títulos de renda fixa se valorizem, amortecendo as perdas. Ou seja, as ações eram as responsáveis por entregar crescimento da carteira, enquanto os títulos se encarregavam da proteção.
Por muito tempo, a carteira 60/40 virou padrão nos Estados Unidos e uma referência para gestores de portfólios a nível global. Mas depois de anos de inflação e juros elevados, a estratégia enfrentou desafios diversos e uma pergunta surgiu: será que ainda vale a pena seguir esta teoria?
Outra grande dúvida era se a carteira 60/40 se aplicava ao Brasil, um país em que inflação elevada e juros de dois dígitos virou padrão há alguns anos. O Bora Investir ouviu especialistas e traz as respostas a estes questionamentos.
A lógica da carteira 60/40
Victor Deischl, sócio e gestor da Rubik Capital, destaca que nesta estratégia as ações garantem o crescimento da carteira no longo prazo, enquanto a renda fixa proporciona estabilidade. Além disso, elenca como benefícios deste tipo de portfólio, a simplicidade, custo baixo e disciplina do rebalanceamento. Segundo ele, por muito tempo a fórmula pareceu imbatível.
Já para Rodrigo Terni, cofundador da Revert, a mágica nunca esteve na proporção e sim na correlação. “Por décadas, quando a bolsa caía, os títulos subiam e amorteciam a perda. Com os juros globais em queda por 40 anos, os dois lados ganharam juntos”, afirma.
Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital, lembra que a carteira 60/40 funcionou muito bem em países cuja inflação é historicamente mais controlada e cujas moedas são fortes. Segundo ele, se trata de economias em que o câmbio tende a apresentar maior estabilidade ao longo de períodos extensos, entre 10 e 40 anos. Esses países também costumavam conviver com juros estruturalmente baixos.
Contudo, também existiam desvantagens da estratégia, como as citadas por Deischl. Por exemplo, “o fato da carteira 60/40 não ser uma lei da natureza e sim uma regra de bolso, uma otimização empírica calibrada em um regime econômico específico, de inflação controlada e juros em queda estrutural”.
A inflação como fraqueza
O problema, no entanto, começou a aparecer quando a inflação saiu de controle, porque os juros reais sobem e ações e títulos de renda fixa caem juntos. Desta forma, os especialistas apontam que a proteção desaparece precisamente no momento em que o investidor mais precisa dela.
Deischl lembra que isso ocorreu em 2022, quando a carteira 60/40 chegou a perder 17,5%, pior resultado desde 1937 e um dos quatro piores em dois séculos, com perda real de 24%.
Para o gestor da Rubik Capital, esta desvantagem é estrutural e não conjuntural. “Falta ao 60/40 um ativo que funcione no regime inflacionário”, pontua.
Já Terni acredita que a desvantagem não está na proporção 60/40 e sim em acreditar que a renda fixa sempre protege. “Em regime de inflação persistente, a renda fixa vira fonte de risco também”, destaca.
Henrique Dissenha, especialista em offshore na Cordier Investimentos, uma gestão ativa dos portfólios pode amenizar este conflito, porque um gestor conduziria os melhores momentos de compra, travando boas taxas na renda fixa e aproveitando a queda das ações para comprar renda variável. “Inflação não chega a ser uma desvantagem se a gestão tiver essa outra estratégia”, avalia.
E no cenário tupiniquim?
Com os juros reais entre os mais altos do mundo, os especialistas defendem que o investidor brasileiro é pago para esperar. Deischl acredita que com títulos públicos pagando juro real acima de 7%, a renda fixa é protagonista de retorno no Brasil. “O investidor brasileiro não precisa carregar 60% em ações para buscar rentabilidade. Ele é bem pago por esperar na renda fixa, o que naturalmente inverte as proporções da fórmula americana”, defende.
Já Saravalle aconselha inverter os preços, com 60% em renda fixa e até 40% em renda variável para um investidor com perfil bastante agressivo. Para perfis conservadores ou moderados, a dica do estrategista da Krivo Capital é ter uma participação em renda variável ainda menor, abaixo de 30%. O motivo é a combinação de juros elevados com uma bolsa volátil sem a consistência de mercados desenvolvidos.
Há ainda uma vantagem local, que a carteira 60/40 nos EUA não oferece. São os títulos atrelados ao IPCA que protegem contra o cenário de inflação alta que destrói a carteira tradicional. “Estes títulos cumprem o papel que o investidor americano precisaria buscar em ouro e ativos reais”, diz Deischl. Para a bolsa, a dica do gestor é focar em empresas de qualidade e geradoras de caixa.
Carteira 60/40 ou foco em nichos?
Recentemente um relatório da BlackRock defendeu as carteiras de perfil granular, que priorizam a exposição a temas e nichos. Um dos exemplos citados pela gestora global foi que com o boom de IA muitos índices americanos começaram a ter uma concentração maior em inteligência artificial e tecnologia. Segundo o relatório, valeria mais se expor a este nicho ou outro em alta para ter uma rentabilidade maior do que apenas a carteira 60/40.
A proposta de substituir a estratégia 60/40 por uma alocação granular divide opiniões entre especialistas. Para Dissenha, da Cordier, no cenário atual turbulento, uma análise minuciosa de investimentos é válida, mas traz seus riscos. “Existem investidores que não gostam de ter o trabalho de analisar ativos específicos e para eles a estratégia 60/40 faz total sentido”, pontua.
Já Deischl acredita que substituir classes de ativos por temas confunde a natureza das decisões. Para ele, investir setorialmente é uma decisão de retorno sobre onde buscar crescimento, enquanto classe de ativo é uma decisão de regime, que protege a carteira quando o cenário muda. “As duas abordagens coexistem. Trocar diversificação por aposta não é evolução, é torcida”, defende.
Ainda vale utilizar a estratégia 60/40?
Para os especialistas consultados pelo Bora Investir, a carteira 60/40 não morreu, mas mudou de papel. Deischl destaca que este modelo de carteira não deixou de ser útil, mas não é mais eficiente.
Segundo o gestor da Rubik, a correlação negativa entre as ações e títulos não morreu, mas virou condicional, voltando a funcionar em regimes de inflação controlada, como os anos pós 2022 mostraram. “A resposta racional não é abandonar a diversificação que o 60/40 representa, é completá-la com os ativos que faltam para os regimes que ele ignora”, diz.
Para Terni, a carteira 60/40 não morreu, mas deixou de ser piloto automático. Ele destaca que a implementação mecânica e a ideia de que renda fixa resolve qualquer cenário ficaram obsoletas.
A carteira ideal
Para ganhar dinheiro no mercado não existe fórmula mágica, mas Terni considera que para o investidor brasileiro faria sentido ter um núcleo robusto de juro real e pós-fixado, bolsa local selecionada (barata e que pague dividendos) e uma fatia internacional com exposição ao dólar, além de ativos alternativos dosados pelo perfil de investimento.
Saravalle defende que é possível incorporar outros ativos na estratégia tradicional, por exemplo, além das ações tradicionais, usar na renda variável private equity, fundos de participações e até criptomoedas. Já na renda fixa, aconselha incluir crédito privado, FIDCs e diversos títulos públicos e privados.
Dissenha considera que a carteira ideal inclui ativos com maior potencial de valorização junto daqueles que conseguem segurar uma queda generalizada, contando com diversificação geográfica e investimentos em moeda forte.
Já Deischl prefere seguir outra teoria, a de Harry Browne, que divida a carteira em quatro tipos: ações, títulos longos, ouro e caixa, uma estratégia para cada regime econômico, seja expansão, recessão, inflação e aperto monetário. “Ninguém prevê regimes com consistência, então este tipo de carteira garante que sempre haja um ativo trabalhando”, destaca.