Investimentos de longo prazo: como avaliar se vale a pena para a minha carteira?
Horizonte de investimento, juros compostos, risco e liquidez são fatores que ajudam a definir quando uma estratégia de longo prazo faz sentido para o investidor
Dentro do universo dos investimentos, existem ativos para diversos objetivos, sejam eles de curto, médio ou longo prazo. Com alguns desses investimentos tendo vencimentos programados para mais de dez ou vinte anos, por exemplo.
No entanto, qual é a vantagem em definir um horizonte maior para o recebimento do retorno quando se pode investir hoje em outras modalidades, como poupança, ações e CDBs?
Ao analisar a questão especificamente pelo critério tempo, obviamente esses ativos tendem a soar como algo pouco vantajoso. A grande questão em relação a esses investimentos é o potencial de rendimento mais elevado proporcionado pelos juros compostos.
Longo prazo também envolve riscos
Além disso, ao optar pelo maior vencimento, o investidor pode mitigar riscos, só que isso não é um fator homogêneo. A depender do tipo de ativo, o maior horizonte também pode significar maiores riscos.
“Em renda variável, o prazo mais longo tende a reduzir a dispersão dos retornos anualizados, e por isso a probabilidade de resultado negativo diminui, embora não se anule. Em renda fixa prefixada ou indexada à inflação, o prazo mais longo aumenta o risco de preço, medido pela duração”, explica a especialista de investimentos da Hike Capital Maria Carolina Luchesi.
Para a especialista, uma comparação válida entre investimentos de longo prazo e aqueles com retorno mais imediato precisa considerar variáveis como retorno líquido, impostos, tipo de risco associado, prazos, liquidez e garantias.
Já Enrico Cozzolino, CEO e estrategista de investimentos da Zermatt Partners, destaca que o investidor não deve confiar cegamente numa blindagem de riscos e deixar de lado questões importantes como a diversificação do portfólio.
“Há o custo de oportunidade: um ativo ou estratégia pode deixar de fazer sentido. E existe o risco de mudanças no cenário, como novas regras tributárias, inflação ou transformações em setores inteiros. Longo prazo não é sinônimo de abandonar a carteira”
“O tempo também pode reduzir o risco de volatilidade, mas não o risco de escolher mal: uma empresa ruim continua ruim em qualquer prazo, e por isso a diversificação é essencial”, acrescenta Cozzolino.
Como comparar investimentos de curto e longo prazo
A definição mais usual caracteriza como investimentos de longo prazo aqueles que possuem um horizonte temporal acima de 5 anos, geralmente focados em acúmulo de patrimônio ou em planos para a aposentadoria, por exemplo.
“Na prática, o investimento de longo prazo reúne cinco características. A primeira é que o horizonte decorre de um objetivo, como aposentadoria, formação de patrimônio ou sucessão. A segunda é que o prazo dos ativos é compatível com o prazo da necessidade do investidor, o que evita resgates antecipados. A terceira é que a decisão se baseia em fundamentos, como a geração de lucros e de caixa, e não no preço de curto prazo. A quarta é a baixa rotatividade, que reduz custos e tributos. A quinta é o reinvestimento dos rendimentos, que produz o efeito dos juros compostos”, afirma Luchesi.
Em relação à comparação com os investimentos de menor prazo, os especialistas destacam que os dois grupos precisam ser comparados sob critérios compatíveis, para que o investidor consiga enxergar com clareza, e sem nenhum viés, as vantagens associadas a cada um.
“Deve-se comparar usando a mesma régua: retorno líquido de impostos e taxas, descontada a inflação, e ajustado ao risco e à liquidez”, afirma Cozzolino.
Nesse aspecto, o estrategista destaca que a poupança tende a perder força no longo prazo, enquanto CDB e Tesouro pós-fixado representam uma boa base de segurança para o portfólio.
“O Tesouro IPCA+ oferece proteção contra a inflação e pode ser adequado para objetivos de longo prazo. Nos fundos de investimento, é preciso olhar para a taxa de administração, cujos custos podem corroer o acumulado ao longo do tempo. Já as ações oferecem potencial de valorização maior, mas também maior volatilidade.”
“Por isso, não faz sentido comparar uma ação com CDB tomando como base o último ano. A comparação certa é para o mesmo horizonte e o mesmo objetivo”, acrescenta.
Erros que podem comprometer a estratégia
As principais recomendações para aqueles que desejam investir num horizonte de longo prazo incluem o estabelecimento de objetivos e metas claras, além da constituição de uma reserva de emergência, que ajuda a proteger o patrimônio do investidor em momentos de crise, e uma maior resiliência durante esses períodos de baixa, a fim de se evitar decisões impulsivas.
Outras recomendações envolvem evitar a concentração do portfólio em poucos ativos ou setores, o que tende a deixar a carteira mais vulnerável, e também a interrupção dos aportes em momento de queda, o que pode prejudicar o retorno total.
Do mesmo modo, os especialistas destacam que não há uma frequência exata em que o investidor deva fazer uma revisão do portfólio, mas que ela não pode ser desconsiderada dentro do planejamento, especialmente em situações em que há mudanças de vida, como casamento ou mudança de trabalho, ou também quando a carteira de investimentos deixa de se adequar aos objetivos do investidor.
“Ignorar custos, tributos e inflação, o que pode levar a uma percepção equivocada do desempenho. Tratar a Taxa Selic a 13,75% como uma variável fixa, de modo a ignorar a tendência de queda já projetada pelo Focus para 2027 e 2028, e também não fazer a revisão da carteira, o que pode gerar um descompasso entre o portfólio e a meta do investidor”, explica Luchesi.