PIB perde força no segundo trimestre: entenda o impacto nos juros e investimentos
Desaceleração da economia deve reforçar o ciclo de cortes da taxa Selic, enquanto a renda fixa deverá manter certa resiliência
Vitor Guedes, especial para o Bora Investir
O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, o que foi suficiente para posicionar o Brasil na quinta posição do ranking global de crescimento econômico, conforme divulgação feita pela agência de classificação de risco Austin Rating. Contudo, o dado divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira (1) representa um movimento ligeiro de desaceleração quando comparado ao crescimento do trimestre anterior, que foi de 1,1%.
O destaque do trimestre ficou com o setor de agropecuária, que apresentou uma alta de 2,8% ante o período anterior. Por outro lado, setores tidos como cruciais para o estímulo do consumo se mantiveram relativamente estagnados, como serviços (0,2%), indústria (0,1%) e comércio (0%).
O consumo das famílias, por sua vez, apresentou uma retração de 0,4%, o que acendeu um alerta no mercado em relação aos rumos do mercado doméstico em meio a um cenário já muito marcado por incertezas e choques de oferta decorrentes da guerra no Oriente Médio e do El Niño.
Prosseguimento dos cortes na Selic
A manutenção da taxa de juros em patamar elevado foi apontada como uma das principais contribuições negativas para os números da economia brasileira. Nesse aspecto, a expectativa é que o Banco Central (BC) opte por manter o ciclo de cortes na taxa Selic, iniciado no começo deste ano, numa tentativa de estimular uma retomada do consumo doméstico.
Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, chama atenção para a queda do consumo das famílias ao afirmar que esse dado do segundo trimestre não reflete os bons números apresentados atualmente pelo mercado de trabalho, pois segue pressionado por elementos atrelados ao patamar elevado de juros no país.
“O que realmente decepcionou foi o consumo das famílias. Isso pode estar relacionado, por exemplo, ao nível de endividamento, que é pressionado pelos juros altos”, afirma.
Para o economista, os números do segundo trimestre podem reduzir a pressão inflacionária no médio prazo e também reforçar a tendência de redução na taxa de juros até o fim deste ano.
“Com uma atividade mais fraca, é de se esperar que o BC olhe também para a inflação, que deve desacelerar. Com isso, podemos prever mais cortes na Selic daqui para frente. Temos a reunião de setembro, em que o mercado projeta um corte de 25 pontos-base nessa reunião, e a de novembro, em que já se estima uma maior probabilidade de prosseguimento na redução dos juros.”
Impacto direto no varejo
A fraqueza apresentada pelos indicadores de consumo, somada aos elementos macroeconômicos como juros e endividamento, tende a pressionar os setores que são mais dependentes do consumo doméstico, como o comércio, e, particularmente, o varejo.
Esse aspecto é destacado pelo professor da FIA Business School Paulo Feldmann, ao apontar que os reflexos já podem ser sentidos nos dados divulgados, por exemplo, no crescimento tímido associado ao setor de serviços.
“A queda do consumo advém dos juros, da Selic e das taxas do crediário. Isso impacta principalmente o varejo e outros setores industriais e de serviços que dependem desse comércio”, avalia.
Em uma síntese do panorama geral, tanto Feldmann quanto Imaizumi afirmam que a queda no consumo e o desempenho fraco do varejo são explicados por uma série de fatores que englobam não somente o patamar elevado da Selic, mas também a inflação, a questão fiscal e a taxa de câmbio.
Renda fixa deverá mostrar resiliência
Logo após a divulgação do resultado do segundo trimestre, as taxas associadas aos contratos de juros futuros, usados como referência para os rumos da taxa Selic e para os rendimentos associados à renda fixa, apresentaram baixa no pregão desta terça-feira. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2028, por exemplo, recuou de 13,815% para cerca de 13,745%, uma redução de 7 pontos-base.
Mesmo com a possibilidade de redução nos rendimentos, a renda fixa deverá se manter como uma opção sólida de investimentos, segundo os analistas.
Feldmann declara que, mesmo nesse cenário, a renda variável, especialmente os ativos ligados ao varejo, deverá sofrer maior impacto negativo em relação aos ativos de renda fixa. Já Imaizumi aponta que, apesar dos novos cortes precificados, a Selic ainda se manterá em um patamar alto o suficiente para continuar a gerar atração para o investidor que deseja aplicar em renda fixa.
“As taxas de juros reais ainda são muito altas e deverão se manter ainda bastante atrativas, mesmo com eventuais novas quedas”, explica.