Inteligência Artificial será a nova vilã da inflação? Especialistas sinalizam como proteger a sua carteira
Até mesmo o presidente do Banco Central já defendeu que os investimentos em IA podem ser um ingrediente para a inflação brasileira de longo prazo
Alta do petróleo, impactos do El Niño, gasolina, contas de luz elevadas, sempre haverá um motivo que possa ser classificado como o novo vilão da inflação. Mas olhando para os próximos meses, um item fora do radar ganha eco no mercado e promete potencializar a alta dos preços no Brasil e no mundo.
Se trata da inteligência artificial, que prometia baratear tudo, mas diante dos investimentos feitos na construção de sua infraestrutura, houve um efeito colateral: o encarecimento de semicondutores, energia elétrica, materiais básicos, construção, o que provocou uma pressão inflacionária.
Há algumas semanas, Janet Yellen, ex-presidente do Federal Reserve e ex-secretária do Tesouro Americano, defendeu na Expert XP que a IA esta potencializando a inflação no mundo. A teoria foi reforçada por outros agentes de mercado e até mesmo por Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, que enxerga nos investimentos em IA, um ingrediente para a inflação brasileira no longo prazo.
Mas esta teoria procede ou é apenas um discurso de moda do mercado? O Bora Investir foi atrás de entender quem ganha, quem perde e como blindar a carteira do investidor neste cenário. Veja a seguir
IA gera mesmo inflação?
Para os especialistas consultados pela reportagem há um consenso: inteligência artificial pode sim provocar inflação. No entanto, eles alertam que se trata de um recorte temporal, afinal o que estamos vivendo é a inflação da construção de IA e não do seu uso.
Paulo Ernani, COO da AVEX AI Lab, destaca que o cenário atual representa a primeira fase de toda revolução tecnológica, em que antes de gerar produtividade, ocorre um choque de demanda sobre recursos escassos. “Foi assim com as ferrovias, a eletrificação e a internet nos anos 1990”, comenta.
Os investimentos feitos pelas big techs em IA já provam isso. Ernani lembra que Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft devem investir cerca de US$ 720 bilhões em 2026, principalmente em data centers. Estes aportes vão pressionar o preço dos semicondutores, energia elétrica, mão de obra e insumos de construção.
O JPMorgan já estima que alguns chips de memória devem acumular alta de mais de 400% nos últimos dois anos (até o fim de 2026). Enquanto a Apple já repassou de 15% a 25% nos preços de MacBooks e iPads.
Nos EUA, os data centers devem responder por quase metade do crescimento da demanda elétrica até 2030, e o Goldman Sachs projeta tarifas subindo cerca de 6% ao ano em 2026 e 2027.
“O data center não é software, é obra pesada. Consome transformador, turbina, cobre, chip, memória, subestação e eletricista industrial, coisas que não escalam em doze meses”, explica Marcos Bassani, especialista em investimentos e sócio-fundador da Boa Brasil Capital. Para ele, quando se joga uma demanda desse tamanho em cima de uma oferta rígida, o ajuste sai por preço, não por quantidade.
O especialista destaca ainda um fator menos óbvio e subestimado por todos: o efeito riqueza. Na visão de Bassani, a valorização das ações ligadas à IA engordou o patrimônio das famílias americanas, sustentando o consumo. “A IA aqueceu a demanda agregada muito antes de aumentar a oferta agregada. O oposto do que a narrativa vendia”, avalia.
Bruno Corano, economista da Corano Capital, faz a ressalva de que a inteligência artificial não é inflacionária por natureza. O verdadeiro vilão, para ele, é o ciclo de investimentos.
Corano cita dados da Agência Internacional de Energia, em que o consumo de eletricidade dos data centers cresceu 17% em 2025, enquanto o consumo dos data centres especificamente voltados para IA aumentou aproximadamente 50%. “A projeção é que o consumo total dos data centers praticamente dobre até 2030”, aponta.
Para Corano, no curto prazo, o investimento chega antes da produtividade e a IA tende a ser inflacionária. Cenário que pode se reverter no médio e longo prazo, quando os ganhos em produtividade se confirmem, e a IA se torne desinflacionária.
O motivo é que enquanto a velocidade dos investimentos já é visível, os ganhos de produtividade ainda devem levar mais tempo para serem perceptíveis na economia.
IPCA já sente efeitos de IA?
No Brasil, o IPCA mostrou recentemente alguns sinais de desaceleração, fechando julho com variação de 0,07%, menor taxa para o mês desde 2022.
No entanto, a planejadora financeira Luciana Ikedo, não descarta que a expansão da IA possa pressionar o índice brasileiro de inflação no médio prazo, principalmente no que se refere a itens relacionados a energia e infraestrutura.
Já Corano enxerga uma pressão gradual no IPCA, mais perceptível a partir de 2027. “No Brasil, o efeito tende a existir, mas deve ser mais gradual, indireto e menor do que nos Estados Unidos”, observa. O motivo, segundo o economista, é que o Brasil não possui o mesmo volume de investimentos em IA e data centers das grandes economias, mas está tentando se posicionar como um importante polo de processamento de dados.
Ernani, da Avex, acredita que a pressão mais direta ocorre nos eletrônicos e câmbio, que deve ser perceptível em 2026 e 2027. No caso dos eletrônicos importados, cita chips e memórias que são precificados globalmente. “A alta que atinge um laptop nos EUA, afeta o mesmo equipamento no Brasil, mas agravado pelo câmbio”, exemplifica. Além disso, menciona a Resolução Gecex 852/2026, que elevou o Imposto de Importação sobre servidores e semicondutores para faixas entre 7,2% e 25%.
Breno Falseti, gestor e sócio da Rubik Capital, vai na contramão dos outros especialistas e defende que no Brasil o efeito da IA tende a ser desinflacionário em todas as fases. Ele cita que o canal direto de custos existe, mas é limitado. Por exemplo, eletrônicos importados encarecidos pela alta global de memórias possuem um peso pequeno no IPCA.
“A corrida de IA fortalece a pauta exportadora brasileira (que inclui minérios, minerais críticos, terras raras) e atrai fluxo de capital para data centers e mineração”, pontua.
Na visão de Bassani, o risco real da IA está sendo mal contado em ambas as direções. “Quem diz que a IA pressiona o IPCA está forçando a narrativa de que a inflação brasileira hoje é petróleo, câmbio, serviços e inércia. Mas quem acha que isso não nos alcança também erra”, defende o especialista.
Quem ganha e quem perde na corrida de IA
Na economia real, os especialistas consultados pelo Bora Investir possuem um consenso de que os setores perdedores neste cenário de IA e inflação são aqueles que absorvem custos maiores de chips, energia e capital sem capacidade de repasse aos consumidores. Entre eles, citam indústrias de alumínio, siderurgia, química, papel e celulose. Já os fabricantes de eletrônicos de consumo, montadoras e varejo (que sofre com mercadoria importada mais cara e custo de crédito elevado) também são pressionados.
Eles também elencam o setor de construção civil, que é castigado pelos juros altos, na tentativa de conter inflação.
Do lado vencedor, os especialistas destacam semicondutores e memória, setores de geração de energia principalmente renováveis, nuclear e gás, além de transmissoras. Empresas de equipamentos elétricos ou que atuam com engenharia de data centers e mineração de cobre ou metais de eletrificação também surfam como oportunidades.
No Brasil, Falseti, da Rubik, destaca minerais críticos (terras raras, nióbio e grafita), empresas de energia renovável e barata, além de infraestrutura associada ao desenvolvimento de IA.
Na bolsa de valores
Seja no Brasil ou no exterior, algumas companhias listadas já enxergam os efeitos da IA nos seus preços. Corano cita Nvidia, AMD, Broadcom, TSMC, ASML e Micron na cadeia de chips, e Vertiv, Eaton, GE Vernova, Quanta Services, Equinix e Digital Realty na infraestrutura, como ações que já precificaram o desenvolvimento de IA no mercado.
Empresas de utilities e geradoras de energia independentes também sentem os efeitos de ser ações impactadas pelo boom da IA.
Na bolsa brasileira, Ikedo e Corano avaliam que empresas elétricas e focadas em tecnologia já sentiram os efeitos dessa nova onda de inovação. É o caso de Weg, Axia, Engie, CPFL, Isa Energia, Taesa, Copel, Cemig, Equatorial. Além de Totvs, Telefônica, Tim e Locaweb.
Rubik lembra ainda da Vale pela sua exposição a metais de eletrificação.
Como proteger a carteira da inflação gerada pela IA
Se no médio e longo prazo, as expectativas dos especialistas em torno a inflação gerada pela IA se concretizarem, a melhor opção para proteção da carteira são os títulos atrelados à inflação, na visão deles. Entre eles, destaque para o Tesouro IPCA+ de curto e médio prazo. “Com taxa real acima de 7%, o investidor está sendo muito bem pago para se proteger dessa nova onda de inflação”, destaca Ernani.
Já debêntures incentivadas de infraestrutura também são citadas pelos especialistas como alternativa, principalmente pela isenção de IR, dado que estas financiam setores como energia e transmissão, empresas com receitas corrigidas pelo IPCA.
Os especialistas também aconselham uma exposição a pós-fixados de curto prazo e ouro como diversificação. Além de ETFs (fundos de índice), BDRs (recibos de ações) de empresas de semicondutores, energia, cobre e urânio.
Os agentes de mercado reforçam ainda que os grandes vencedores serão as empresas que capturem primeiro o ganho de produtividade da inteligência artificial, porque quando essa fase chegar, o cenário inflacionário projetado começa a se reverter.