Treasuries vs Tesouro: como os juros nos EUA e no Brasil mexem com os títulos públicos
Treasuries voltam a ganhar competitividade com yields elevados, enquanto títulos brasileiros seguem oferecendo prêmio maior
Na última semana, os bancos centrais do Brasil e dos Estados Unidos decidiram alterar a taxa de juros básica de seus respectivos países. O BC brasileiro optou por manter o ciclo de corte dos juros, cortando a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75%, na intenção de manter os preços estáveis e fomentar a atividade econômica interna. Em paralelo, o Federal Reserve (Fed) seguiu a direção oposta, elevando a taxa de juros americana para o intervalo entre 3,75% e 4%, a fim de combater a alta persistente da inflação.
Após a decisão do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) referente aos juros dos EUA, os rendimentos (yields) dos Treasuries, os títulos de dívida do governo americano, dispararam no mercado, sobretudo pela expectativa por uma nova elevação dos juros nos EUA na próxima reunião do Fomc, em outubro. O rendimento de títulos com vencimento em dez anos chegou a 5,1%, o maior nível desde 2007, enquanto os de 30 anos atingiram o patamar de 5,4%, algo que não era visto desde 2004.
As taxas do Tesouro Direto, por sua vez, experimentaram uma alta logo após a divulgação da ata da última reunião do Copom, após uma sequência de quedas na última semana, especialmente pela mensagem “em aberto” da ata sobre a possibilidade de interrupção no ciclo do corte de juros.
Nesta quinta-feira (24), algumas das principais taxas, como os Prefixados e o IPCA+, voltaram a apresentar uma alta nos rendimentos, reforçada por fatores externos que incluem o rumo dos juros nos EUA e a flutuação no preço do petróleo, que voltou a romper a barreira dos US$ 100.
Treasuries ganham competitividade, mas não ofuscam o Tesouro
Não é possível dizer que os Treasuries estariam, de algum modo, ofuscando as possibilidades oferecidas pelos títulos públicos brasileiros. Isso porque o Tesouro Direto ainda apresenta opções consideradas de menor risco dentro de um panorama macroeconômico muito mais volátil em relação àquele vivenciado no mercado americano.
“Os Treasuries ficaram muito mais competitivos, mas os títulos brasileiros ainda oferecem um prêmio de retorno extremamente elevado, resultado de uma remuneração por riscos que simplesmente não existem na mesma intensidade nos EUA, sobretudo câmbio, inflação, fiscal, política e volatilidade da curva de juros”, explica Viviane Las Casas, especialista de renda fixa da Valor Investimentos.
O fator câmbio desempenha um papel decisivo nessa dualidade, em particular pelas variações nos rendimentos em função da valorização ou desvalorização do dólar. Nessa lógica, Bruno Corano, CEO da Corano Capital, ressalta que caberá ao investidor a decisão por uma opção mais alinhada à moeda usada nas despesas e objetivos financeiros.
“Para quem traz dólares para comprar títulos brasileiros, uma valorização do real pode gerar um ganho adicional aos juros. Se o real desvalorizar acontece o contrário: parte do rendimento pode desaparecer na conversão de volta para dólares. O diferencial de juros não é uma proteção automática contra esse risco.”
“No caso do brasileiro que investe em Treasuries sem proteção cambial, o raciocínio se inverte: a alta do dólar favorece o resultado medido em reais, enquanto a queda pode reduzir ou até anular o rendimento do título. Por isso, essa escolha precisa considerar a moeda em que a pessoa terá suas despesas e seus objetivos futuros. Quem pretende gastar em dólares tem uma razão para manter ativos em dólares que vai além da comparação de taxas”, acrescenta Corano.
Comparação juros vs juros não explica o todo
Enquanto os analistas não descartam uma possibilidade de fuga de investimentos em direção aos títulos soberanos americanos, eles apontam que não é possível estabelecer uma comparação direta entre as taxas de juros nominais dos EUA e do Brasil, o que seria simplificar demais um contexto complexo que engloba inflação, câmbio, riscos associados e fatores geopolíticos.
Eduardo Gonçalves, gestor de portfólio da Aurum Wealth Management, afirma que uma migração em direção aos títulos americanos pode ser acentuada em caso de continuidade do aumento dos juros no país em contrapartida a uma manutenção do ciclo de cortes na Selic. A comparação final, contudo, precisa levar em consideração os diferentes elementos que compõem o quadro econômico de cada país.
“Se os Treasuries continuarem subindo enquanto a Selic cai, diminui o diferencial de juros e os títulos americanos ficam relativamente mais competitivos. Ao mesmo tempo, não dá pra medir juros vs juros. São economias, moedas e riscos diferentes. A comparação correta é pelo retorno real ajustado ao risco, levando em consideração o câmbio. E, de qualquer modo, o diferencial de juros ainda é bastante elevado e continua a favorecer o Brasil.”
Las Casas destaca que essa vantagem em termos reais do Brasil é, na verdade, um mecanismo compensatório ao investidor por um cenário mais afetado pela incerteza econômica em comparação ao mercado americano.
“O Tesouro brasileiro continua pagando um prêmio muito maior, inclusive acima de 7% real em vários papéis, mas esse excedente remunera riscos cambiais, fiscais, inflacionários e políticos significativamente superiores. Por isso, a comparação correta não é 4% versus 13,75%; é retorno real, na mesma duração, convertido para a moeda do investidor e ajustado ao risco.”
O que está no radar do mercado
As análises de mercado trabalham sob a perspectiva de longo prazo, de modo que o dia da decisão sobre a taxa de juros, isoladamente, não determina as variações associadas aos títulos públicos, já que boa parte das expectativas referentes aos juros e outras variáveis macroeconômicas tendem a ser previamente incorporadas aos preços.
“Eu não interpretaria uma decisão do Copom ou do Fed como o ponto de partida de todo o movimento. Uma parcela da expectativa pode estar incorporada aos preços antes do anúncio. Quando uma decisão confirma o que já era esperado, o impacto adicional pode ser pequeno. O que costuma provocar uma reprecificação mais forte é a surpresa: uma decisão diferente, uma sinalização sobre os próximos passos ou um dado que altere a trajetória esperada”, diz Bruno Corano.
Ou seja, além de olhar para as projeções dos juros, o mercado considera ainda a alta da inflação nos EUA, o aumento da dívida pública e o impacto da recompra dos Treasuries, anunciada no mês passado pelo Departamento do Tesouro americano como uma tentativa de dar suporte à liquidez desses títulos.
Conforme os especialistas, a recompra, por si só, não resolve a questão da dívida pública dos EUA. Para lidar com isso, o governo pode ser pressionado a emitir mais títulos, o que permite uma elevação dos yields, apesar de não ser algo garantido.
“Com o aumento da dívida temos mais emissão de títulos, o que pode pressionar os juros longos para cima. As recompras ajudam na liquidez, mas não resolvem a questão estrutural da dívida”, declara Gonçalves.
“Para o investidor, é um paradoxo importante: mais dívida pode trazer mais volatilidade e perdas de marcação a mercado hoje, mas também entregar juros reais e nominais cada vez mais interessantes para quem faz novas compras e pretende carregar o papel até o vencimento”, afirma Las Casas.
No contexto brasileiro, os analistas ressaltam que, frente à continuidade do corte da Selic, opções como os títulos Prefixados e IPCA+ podem ganhar em competitividade, mas que isso dependerá sobretudo das taxas de mercado, da questão fiscal e das eleições de outubro, todos apontados como alguns dos principais catalisadores de incerteza no mercado nacional atual.
“Os prefixados tendem a ser os beneficiários mais diretos quando as taxas nominais de mercado caem. Quem comprou antes mantém uma remuneração contratada que passa a ser mais atraente em relação às novas ofertas, e o preço do título pode subir. O Tesouro IPCA+ também pode se valorizar, mas, nesse caso, o ponto decisivo é a queda da taxa de juros real exigida pelo mercado”, explica Corano.
“Essa valorização antes do vencimento é o efeito da marcação a mercado, ou seja, da atualização do preço do título às condições de negociação. Quanto maior a sensibilidade do papel aos juros, maior pode ser o ganho, mas maior pode ser a perda se o cenário mudar. A queda da Selic, sozinha, não garante valorização dos títulos longos: é preciso que as taxas relevantes para esses papéis recuem, levando em conta o que já estava nos preços”, acrescenta.
Las Casas, porém, menciona que o potencial desses títulos pode ser ameaçado por uma deterioração do quadro fiscal.
“Com prefixados de 2032 a uma taxa de 14%, uma combinação de desinflação, melhora fiscal e continuidade do ciclo de cortes poderia proporcionar não somente o rendimento contratado, mas também valorização do papel antes do vencimento. No caso do IPCA+, os atuais juros reais, por volta de 7% a 8% em vários vencimentos, estão historicamente muito elevados. Se o prêmio real exigido pelo mercado cair, esses papéis podem apresentar forte valorização. Por outro lado, são justamente os títulos que podem sofrer bastante se o risco fiscal elevar novamente a taxa real.”