Com inflação desacelerando, como ficam os títulos IPCA+ na carteira?
Para especialistas, IPCA de agosto não muda o jogo e vale mais o investidor avaliar a taxa real contratada e os objetivos de investimento
Os olhares do mercado estão atentos a divulgação do IPCA de agosto nesta sexta-feira (11), com a expectativa de queda da inflação brasileira. Instituições como a Análise Econômica já projetam deflação de 0,30%, influenciada principalmente pela redução dos preços de tarifas de energia elétrica e baixa no custo dos alimentos, combustíveis e vestuário. Já o Goldman Sachs espera deflação de 0,28%. Se confirmado, o acumulado do IPCA em 12 meses recua de 4,44% para cerca de 4,25%, ainda dentro do teto da meta, mas distante do centro esperado de 3%.
Com os preços mais comportados, os prêmios oferecidos pelos títulos públicos atrelados à inflação também têm recuado nas últimas semanas. O Tesouro IPCA+ 2032, que chegou a pagar mais de 8% ao ano acima da inflação, oferece no dia 9 de setembro um ganho de IPCA + 7,76%. Diante disso, a grande dúvida para o investidor é se esta categoria de investimento em títulos públicos ainda permanece atrativa ou se a oportunidade se perdeu. O Bora Investir consultou especialistas e traz os detalhes
Alívio com prazo de validade
Segundo Leandro Manzoni, analista e economista do Infoeconomics, agosto pode registrar deflação, principalmente pelo efeito pontual do bônus de Itaipu sobre a energia elétrica, contudo parte deste alívio seria temporário. Ele destaca que no IPCA-15, prévia da inflação, o custo de energia já tinha recuado 6,25%, com a possibilidade de retomada dos preços em setembro.
Manzoni reforça que no final do ano, a inflação pode ganhar impulso puxada pelo fim da deflação sazonal dos alimentos in natura, enquanto o fenômeno climático El Niño adiciona riscos para o preço dos alimentos e eletricidade.
Já André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica, enxerga dois riscos futuros para a trajetória da inflação. Um deles é o El Niño, que pode prejudicar a safra e pressionar alimentos e energia, enquanto segundo fator seria a guerra no Oriente Médio.
“O petróleo voltou a subir diante de novas hostilidades e agora o Brent, que é utilizado como referência para a Petrobras, negocia acima de US$ 90”, afirma. Para o economista, esta alta da commodity pode ser sentida em repasses para o preço dos combustíveis (gasolina e diesel), fretes e embalagens.
Por outro lado, uma notícia positiva, na visão de Galhardo, seria a desaceleração econômica já percebida no PIB (Produto Interno Bruto). A atividade mais fraca reduz as preocupações com pressões inflacionárias originadas pelo excesso da demanda.
Para Rafael Dadoorian, sócio e head de renda fixa da Convexa Investimentos, o cenário é delicado, porque a inflação segue acima do centro da meta de forma persistente. Ele também cita a inflação de serviços, uma das principais medidas de persistência acompanhadas pelo Banco Central, que continua elevada.
Com desequilíbrio fiscal e petróleo elevado no radar, Dadoorian acredita que o cenário-base até pode continuar com desinflação, mas há riscos que podem tornar este processo mais lerdo e irregular.
Retorno do Tesouro não depende apenas de inflação elevada
Os títulos do Tesouro IPCA entregam ao investidor a variação do índice de inflação mais uma taxa real definida na compra. Desta forma, se engana quem pensa que o título só é atrativo com a inflação elevada.
Peterson Rizzo, head de relações com investidores da Multiplike, destaca que ao comprar um título do Tesouro IPCA o investidor não está apostando em uma inflação elevada, mas sim contratando uma taxa real acima da inflação futura. “Se a desinflação continuar, o retorno real permanece preservado”, explica.
Ele aponta que com a política monetária ainda restritiva, os juros reais brasileiros seguem altos, em torno a 8% ao ano nos vencimentos intermediários, ante 1% a 2% em economias desenvolvidas.
Já Milene Dellatore, sócia-diretora do Grupo Mide, acrescenta que o ganho contratado no prêmio real se mantém mesmo com a inflação em queda, mas o caminho oscila. “Se as taxas subirem novamente, o preço do título cai. Por isso, o Tesouro IPCA+ é muito interessante para quem pode permanecer até o vencimento, mas não deve ser utilizado como reserva de emergência”, avalia.
Dadooria lembra ainda que a desinflação pode fazer os títulos do Tesouro IPCA perderem para o CDI (principal indexador da renda fixa) no curto prazo, mas isso não implica em escolha errada e nem muda a função dos papéis na carteira do investidor.
A curva está invertida
Outro fator apontado pelos especialistas é que os títulos IPCA de longo prazo estão oferecendo um ganho real menor do que os de curto prazo, o que gera uma certa contradição. Por exemplo, o Tesouro IPCA+ com vencimento em 2050 oferece, no dia 9 de setembro, IPCA +7,33%, enquanto o Tesouro IPCA com vencimento em 2032 tem uma rentabilidade de IPCA + 7,76%.
Rizzo destaca que o prazo tem efeito direto na oscilação de retornos. “Uma alta de 1 ponto percentual na taxa de juros pode reduzir em cerca de 3% o preço de um título de 3 anos, enquanto em um papel de 20 anos a queda pode superar 15%”, explica.
Contudo, o movimento inverso também ocorre quando os juros caem, segundo Rizzo.
Dadoorian, da Convexa, prefere uma carteira que combine mais títulos de vencimento intermediário com parcela menor nos de longo prazo, como 2045, 2050 e 2060. Para ele, é nos extremos que está o risco. “O preço da unidade destes títulos é menor, o que dá a sensação de preço reduzido, mas são títulos muito mais sensíveis à marcação a mercado”, avalia.
Prazos e estratégias
Com uma ampla gama de vencimentos na prateleira atual, que vão de títulos do Tesouro IPCA 2032 até 2060, os especialistas consultados pelo Bora Investir destacam que cada ativo serve para um objetivo diferente.
Dellatore, do Mide, aconselha evitar usar o Tesouro IPCA+ para objetivos de curto prazo, com dois a três anos. Nestas situações, ela considera o Tesouro Selic mais eficiente.
Enquanto a especialista em investimentos Luciana Ikedo lembra que títulos do Tesouro IPCA de curto prazo têm menor risco de volatilidade, contudo existe maior risco de reinvestimento.
No médio prazo, o Tesouro IPCA 2032 é visto como alternativa por conta dos seis anos para o vencimento, segundo Dellatore. Para a especialista, nos vencimentos entre 5 e 10 anos, o investidor consegue encontrar um equilíbrio entra a taxa contratada e a oscilação de preço.
Já nos vencimentos mais distantes, a dica dos especialistas é utilizar os títulos para objetivos como aposentadoria e renda extra futura. No entanto, Dellatore faz a ressalva que o ideal é aportar e esquecer deste recurso.
“O problema não é o Tesouro IPCA+ 2050 ser ruim. É comprar um título para 2050 com um dinheiro que poderá ser necessário em dois ou três anos”, pontua.
Prêmio abaixo de 8% ainda vale a pena?
Com os ganhos reais do Tesouro IPCA 2023 e outros títulos negociando abaixo de 8%, os investidores se questionam se já se perdeu o timing de investir ou se ainda valeria ter este título na carteira. Para Dellatore, apesar do prêmio de 8% ter virado uma referência psicológica para o mercado, não existe uma barreira que transforme retornos abaixo deste patamar em ruins.
Ikedo cita ainda que o prêmio segue elevado, mesmo que abaixo dos 8%. Para a especialista em investimentos, títulos indexados à inflação que oferecem pelo menos 6% de prêmio valem a pena. Os especialistas reforçam ainda que mais importante do que comparar as taxas é entender para qual estratégia o título será usado.
Rizzo e Dellatore fazem outras comparações para sugerir uma taxa mínima ideal. Uma delas é que a distância entre o juro real do mercado e o estimado pelo Banco Central está perto de 5%. Outra métrica é a inflação implícita, que igual o retorno de um título prefixado ao de um indexado ao IPCA, que está perto de 5,8% ao ano.
Como escolher um título do Tesouro IPCA?
Os especialistas consultados pela reportagem citam um checklist importante. O primeiro é o investidor olhar o vencimento dos títulos que precisa conversar com o objetivo e data que o dinheiro será usado. Outro aspecto é a taxa real contratada nos prêmios para quem pretende carregar o título até o vencimento.
A estrutura de pagamento de juros também conta. Para quem precisa de renda extra, há alternativas com juros semestrais, mas com incidência de imposto de renda. Isso antecipa a tributação e pode exigir reinvestir os valores para ter uma boa rentabilidade.
Entre as vantagens do Tesouro IPCA frente a outros ativos indexados à inflação, Dellatore destaca o risco soberano, com menos perigo de calote, a proteção do poder de compra do investidor e a liquidez garantida pelo Tesouro Nacional.
Mas também existem riscos, segundo a especialista, como a oscilação pela marcação a mercado.
Para preservar os ganhos, Dadoorian aconselha ao investidor não concentrar em um único título do Tesouro IPCA e nem julgar a estratégia de médio e longo prazo pelo resultado de curto prazo contra o CDI. “Essa comparação pode levar o investidor a tomar decisões erradas justamente nos momentos de maior volatilidade”, adverte.