Tesouro direto

Tesouro Direto com taxas históricas: como avaliar cada título para sua carteira?

Com IPCA+ acima de 8% e Prefixados beirando os 15%, especialistas detalham o papel de cada título

Com a Selic em alta e o IPCA+ atingindo taxas reais acima de 8% ao ano, o Tesouro Direto está, atualmente, entre as opções mais seguras e rentáveis para o investidor brasileiro. Mas a perspectiva de juros elevados levanta uma dúvida: como dividir o patrimônio entre Tesouro Selic, IPCA+ e Prefixado? Especialistas apontam que a resposta não está apenas na busca pela maior rentabilidade, mas no alinhamento do título com o prazo e os objetivos financeiros de cada pessoa.

O cenário econômico atual reflete uma inflação persistente e a preocupação com a trajetória da dívida pública, o que exige um prêmio maior de remuneração para quem empresta dinheiro ao governo. Segundo Betty Grobman, especialista, consultora e professora do mercado financeiro, as taxas atuais estão nos maiores níveis dos últimos 15 anos, encontrando paralelo apenas no período da crise fiscal de 2015 e 2016, quando a Taxa Selic também estava no patamar de 14,25% ao ano.

“Naquela época, o Brasil enfrentava uma forte recessão, inflação elevada, juros altos e grande incerteza sobre as contas públicas. O mercado passou a exigir uma remuneração maior para emprestar dinheiro ao governo. Hoje, embora o cenário econômico seja diferente, a preocupação com o equilíbrio fiscal e a trajetória da dívida pública voltou a elevar os juros de longo prazo”, explica Nayra Sombra, planejadora financeira CFP pela Planejar.

Ela diz que, durante a maior parte da existência do Tesouro Direto, os títulos atrelados à inflação pagaram juros reais entre 4% e 6% ao ano. “Acima de 8%, como observamos atualmente em alguns vencimentos, são pouco frequentes e representam um dos maiores prêmios da série histórica”, afirma Nayara.

“É importante destacar que essas taxas mais altas não significam que o investimento ficou ‘melhor’ porque o governo decidiu pagar mais. Elas refletem um aumento da percepção de risco. É como um banco que cobra juros maiores quando entende que o cenário está mais incerto. Em compensação, quem empresta dinheiro ao governo recebe uma remuneração maior”, afirma.

A função de cada título: da liquidez à construção de patrimônio

Para entender a dinâmica da alocação, Nayra faz uma analogia prática, relacionando os investimentos ao processo de construção de um imóvel. Nesta analogia, o Tesouro Selic funciona como a caixa de ferramentas que precisa estar sempre à mão; o Tesouro IPCA+ é a estrutura da casa, protegendo o patrimônio no decorrer dos anos; e o Prefixado atua como fechar hoje o preço de um material de construção, garantindo um bom negócio se tudo ficar mais caro no futuro.

O Tesouro Selic permanece como a principal recomendação para quem busca segurança, liquidez e a formação de uma reserva de emergência. Como este papel acompanha a taxa básica de juros diária e sofre pouca oscilação de preço, o risco de perda financeira ao resgatar o valor antes do vencimento é muito baixo. A rentabilidade é sustentada pela Selic atual de 14,25% ao ano.

Já o Tesouro IPCA+ é a alternativa mais interessante para proteger o poder de compra, sendo fortemente sugerido para a estruturação de uma previdência privada ou para a realização de planos de longo prazo. Betty Grobman destaca que papéis como o Tesouro IPCA+ 2032 chegaram a registrar rentabilidade de 8,30% ao ano acrescida da inflação, enquanto o IPCA+ 2040 atingiu 7,64% ao ano.

Por fim, os títulos Prefixados, que oferecem retornos próximos a 15% ao ano, fazem sentido para os investidores que acreditam em uma queda dos juros nos próximos anos. Pela plataforma do Tesouro Direto, é possível encontrar ofertas de 14,20% e 14,36% ao ano para os vencimentos de 2029 e 2032, respectivamente. O Boletim Focus, relatório do Banco Central, reforça a perspectiva de redução ao projetar uma Selic de 14% para o final de 2026, com queda gradual para 12% em 2027 e 10,5% em 2028.

+ Quais investimentos do Tesouro Direto encaixam em objetivos de curto, médio e longo prazo

Atenção aos riscos: o peso da marcação a mercado

Apesar de o Tesouro Direto abrigar os títulos mais seguros do mercado nacional, as especialistas afirmam que o principal perigo para o investidor pessoa física não é um calote do governo, mas sim a necessidade de resgatar os recursos antes do prazo final.

Títulos longos Prefixados e atrelados ao IPCA sofrem com a marcação a mercado, que é a precificação diária do ativo conforme as condições vigentes da economia. Se o mercado passa a exigir juros mais altos devido a incertezas políticas ou conflitos geopolíticos, o valor para compra e venda do título cai. “O ganho ou a perda só se concretizam se o título for vendido antes do vencimento. Se ele permanecer com o investimento até a data final, receberá exatamente a rentabilidade contratada na compra”, explica Nayara.

Portanto, investimentos que ultrapassam a década, como papéis para 2040 ou 2050, exigem controle e conhecimento do investidor, que não deve se assustar com o extrato negativo no curto prazo, focando exclusivamente no destino final do dinheiro.

“O maior desafio, muitas vezes, não é financeiro, mas emocional. Ver o valor da carteira cair pode gerar desconforto e levar o investidor a tomar decisões precipitadas. Por isso, antes de comprar um título de longo prazo, é fundamental entender esse mecanismo e estar tranquilo com essas oscilações”, diz.

Quanto de cada título ter na carteira?

A definição percentual de compra de cada ativo depende do objetivo e do prazo, mas o perfil de tolerância ao risco do investidor ajuda a calibrar a estratégia. 

A planejadora Nayra Sombra propõe que, para o perfil conservador, a recomendação é de concentrar 80% do patrimônio destinado ao Tesouro Direto no Tesouro Selic, destinando cerca de 15% ao Tesouro IPCA+ e limitando a parcela do Prefixado a, no máximo, 5%.

No caso do perfil moderado, a divisão tende a ser mais equilibrada, mantendo aproximadamente 50% em Tesouro Selic, elevando o Tesouro IPCA+ para 35% e direcionando 15% aos Prefixados.

Investidores arrojados, desde que tenham visão de longo prazo e suportem a volatilidade da marcação a mercado, podem alocar algo próximo a 30% no Tesouro Selic, 50% no Tesouro IPCA+ e 20% em papéis Prefixados.

Diante do atual cenário de volatilidade, a professora Betty Grobman aconselha que os investidores aproveitem as taxas ofertadas desde já, podendo adotar uma estratégia de custo médio de aquisição. Isso significa investir uma parte agora e destinar novos recursos gradualmente, especialmente após as próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom), diluindo os riscos e otimizando os retornos.

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