Quanto você teria hoje se tivesse investido nos BDRs mais negociados há um ano?
Retorno dos BDRs foi influenciado por fatores externos e pelas próprias expectativas do mercado sobre as empresas
Vitor Guedes, especial para o Bora Investir
Se você tivesse investido R$ 100 em um dos BDRs mais negociados há um ano, quanto você teria hoje? Segundo dados compilados pela própria B3, a lista dos principais BDRs (sigla para Brazilian Depositary Receipts) mais negociados do primeiro semestre de 2025 incluía alguns dos principais nomes globais dos setores de tecnologia, varejo e finanças.
A liderança foi da Tesla (TSLA34), que teve volume médio diário de negociação de R$ 138,3 milhões no período, seguida pela Nvidia (NVDC34), com R$ 132,2 milhões, e o Banco Inter (INBR32), com R$ 77,8 milhões.
No pregão desta terça-feira (11), o BDR da Tesla fechou a R$ 53,67, ante R$ 57,48 na mesma data do ano anterior, uma queda de 6,63% no período. Na prática, isso significa que alguém que tenha investido R$ 100 nesse ativo teria, hoje, um montante em torno de R$ 93 (desconsiderando taxas, impostos e dividendos).
O NVDC34, por sua vez, fechou o pregão de terça cotado a R$ 23,33, ante R$ 20,61 há um ano, uma valorização de 13,2% no período. Hoje, os R$ 100 aplicados a um ano representariam um total atualizado por volta de R$ 113,20.
Já o INBR32, cotado a R$ 42,29 há um ano, apresentou uma redução na sua cotação, encerrando o pregão desta terça-feira a R$ 26,74, uma redução de 36,7%. Um investimento de R$ 100, à época, teria encolhido para cerca de R$ 63.
Negociação e rentabilidade não são sinônimos
Apesar da desvalorização no período, o BDR do Banco Inter permaneceu entre os três mais negociados na lista do primeiro semestre de 2026, atrás do AURA33, da Aura Minerals; e do JBSS32, da JBS. O NVDC34 ficou em quinto lugar neste ranking, enquanto o TSLA34 fechou o período na oitava posição.
A permanência do ativo no top 3 do ranking, mesmo diante da desvalorização, se deve ao fato de que os dois conceitos não estão necessariamente alinhados. Isso porque os elementos que levam a uma queda da cotação muitas vezes englobam fatores externos e as projeções do mercado para um setor, empresa, ou sobre o cenário macroeconômico geral.
No caso da Nvidia, a empresa ganhou os holofotes por conta da disputa comercial travada entre os governos dos Estados Unidos e da China, que abarcou o setor de semicondutores e o desenvolvimento de Inteligência Artificial (IA).
O boom da IA, inclusive, é um dos fatores que ajudam a entender a valorização do ativo atrelado à companhia, e também a tração que as empresas de tecnologia mantêm dentro do cenário de BDRs aqui no Brasil.
“Esse ramo, no geral, se beneficiou muito. São empresas que criam tecnologia, e que estão ali na dianteira da IA, que é um setor altamente promissor, por isso é até difícil estimar seu crescimento”, afirma Gustavo Bertotti, head de renda variável da Fami Capital.
Outros ativos que ganharam importância no cenário internacional, como a Aura Minerals, beneficiada pela alta na cotação de ouro no começo do ano, viram sua cotação aumentar ao longo do último ano. O AURA33 chegou a crescer mais de 170% no período, tendo encerrado a terça-feira ao preço de R$ 129,62, mais do que o dobro dos R$ 47,76 registrados há um ano.
No caso do Inter, questões como a elevada taxa de juros no Brasil e o alto nível de inadimplência jogaram contra a percepção dos investidores sobre o ativo, o que causou sua desvalorização ainda que a instituição tenha mantido resultados sólidos.
Ativos internacionais ganham espaço entre brasileiros
Neste ano, o mercado de capitais nacional superou a marca de mais de 1 bilhão de BDRs negociados, em média, por dia. O número, somado à popularidade dos ETFs nos últimos anos, mostra que o investidor brasileiro está em meio a um processo de descoberta dos ativos internacionais, algo antes associado a custos mais altos e maior burocracia.
No caso específico dos ativos de renda variável (o que inclui os BDRs), o grande desafio dessa modalidade é a predileção do brasileiro pela renda fixa, algo que tende a se acentuar em momentos de incerteza e volatilidade econômica.
“A taxa de juros, a relação dívida/PIB muito alta. Isso torna o panorama muito mais complexo para a renda variável. Ainda assim, existem empresas que fazem o dever de casa, geram caixa, conseguiram se adaptar às adversidades”, destaca Bertotti.
“BDRs e ETFs ainda são uma novidade para o investidor brasileiro, que está em processo de entender melhor esses ativos. Eu vejo um crescimento exponencial ao longo dos próximos anos, pela própria diversificação que eles possibilitam, e a praticidade de não precisar de uma conta em Miami para acessar o mercado internacional.”
O que observar antes de investir em BDRs
Para tentar antecipar a dinâmica dos BDRs, o investidor deve ficar atento a sinais enviados por bancos centrais e governos internacionais. Decisões geopolíticas, a taxa de juros no Brasil e a sinalização do Federal Reserve (Fed) para um eventual aumento dos juros nos EUA num futuro próximo são algumas das variáveis que podem impactar essa modalidade de investimentos.
Observar também as tendências do mercado e as recomendações feitas por analistas e instituições ajudam o investidor a se situar nesse universo e a buscar a diversificação da carteira de investimentos, evitando a concentração de ativos em um só segmento ou país.
Bertotti ressalta que, nesse aspecto, o tamanho de uma empresa não é um fator que indique que o investimento terá lucro garantido. Uma companhia bem estabilizada em um setor específico pode já ter atingido seu auge de expansão, sem novas perspectivas de alta nos papéis, enquanto uma empresa ascendente pode representar uma promessa futura.
“Hoje o mercado olha muito para empresas menores, empresas de tecnologia da Coreia do Sul, de Taiwan, porque entende que existe ali um potencial de ganho de mercado muito maior do que uma empresa americana consolidada, como a Microsoft”, diz.
“É importante pensar no médio prazo, e não focar tudo num só setor ou país. Investir em tecnologia, mas buscar diversificar dentro do ramo.”