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Geopolítica é o novo balanço? Entenda como as relações entre países têm afetado os investimentos

Mudanças nas dinâmicas comerciais globais têm afetado decisões referentes a investimentos

Vitor Guedes, especial para o Bora Investir
Faz quase seis meses que os mercados mundiais têm sofrido os impactos diretos da guerra no Oriente Médio, que segue sem sinais de trégua entre os dois lados do conflito. A interrupção do fluxo de navios petroleiros pelo estreito de Hormuz, medida adotada pelo Irã em resposta aos ataques na região, fez disparar os preços globais de petróleo

Nesta semana, o preço do petróleo Brent voltou a ultrapassar o patamar de US$ 90 após novos sinais de uma possível escalada no conflito. A flutuação dos preços mundiais da commodity também aumenta a pressão sobre setores-chave para o comércio global, como combustíveis e energia. 

Os mesmos efeitos são sentidos nos investimentos, que sofrem com a volatilidade e a incerteza em face de adversidades como guerras, mudanças climáticas e disrupções nas cadeias de produção.

Em análise publicada recentemente, o Morgan Stanley ressalta que medidas como tarifas e disrupções nas cadeias de suprimento fazem parte de um novo quadro que não é cíclico, mas estrutural, em parte por conta do alto grau de complexidade atingido pelas trocas comerciais globais.

“O projeto no qual se investe fica sujeito a reorientações políticas que podem afetar seu retorno final”, afirma o economista Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial e membro sênior do Policy Center for the New South.

“Antes de pensar em comprar ativos de uma empresa ou de um setor que está no centro das discussões políticas, é preciso aceitar os riscos, que são outros em comparação ao período da globalização plena”, acrescenta.

Redirecionamento de fluxos

O cenário macro também é influenciado pela adoção cada vez mais abrangente de medidas protecionistas no comércio bilateral. Em meio a um maior grau de instabilidade, as nações tendem a adotar uma postura mais defensiva nas trocas e buscam priorizar parceiros que se mostrem confiáveis.

Um outro estudo, realizado por pesquisadores do King’s College London e do Banco Mundial, aponta que as relações entre países ganharam mais peso nas decisões referentes a investimentos e negociações em relação ao que ocorria há dez anos.

Os pesquisadores destacam duas ondas desse efeito: a primeira no começo dos anos 2010 e a segunda no período pós-pandemia, em que a prática de “friendshoring”, que consiste no redirecionamento de investimentos para países tidos como aliados e/ou considerados politicamente confiáveis, ganhou espaço sobretudo entre as potências ocidentais, como EUA, Canadá e Reino Unido.

O Morgan Stanley ressalta que a cadeia de produção ganhou uma nova perspectiva neste mesmo período, ao deixar de ser somente um detalhe operacional e passando a ser vista como uma decisão estratégica de alocação de capital.

Para Canuto, isso é reflexo das políticas adotadas durante a pandemia, quando houve reduções na oferta de alimentos e de itens da área da saúde para priorizar os mercados locais diante da incerteza provocada pela emergência sanitária.

O economista menciona ainda a eclosão da guerra na Ucrânia como um momento em que o jogo político global começou a se acirrar, em meio às sanções aplicadas à Rússia e às divergências entre os países ocidentais e as nações que se abstiveram de romper com Moscou, como China e Índia.

Como investir nesse cenário

De modo geral, as análises apontam que é preciso aceitar o cenário incerto como um fator que, por ora, veio para ficar. Nesse aspecto, ponderar riscos e buscar uma diversificação do portfólio são estratégias que podem auxiliar o investidor a se proteger de eventuais perdas.

É importante ainda ficar atento aos possíveis sinais de volatilidade nos investimentos, que pode ser desencadeada por disputas comerciais, guerras e efeitos das alterações climáticas em curso.

“Isso precisa entrar no cálculo de quem faz uma decisão de investimentos. Buscar uma diversificação frente às vulnerabilidades, aos eventos climáticos (cada vez mais) extremos é a nova realidade nesse contexto de ‘policrises’”, diz Canuto.

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