Dia Internacional do Café: da história da B3 à prova de xícara, o grão faz parte do dia a dia do mercado
Bolsa do Brasil disponibiliza contratos futuros para investimento na bebida e permite a entrega física de sacas de café em armazéns credenciados
Quando se pensa no trabalho de uma bolsa de valores, provavelmente vêm à cabeça telas com cotações e gráficos, mas muitos não imaginam que, na B3, essa rotina também inclui analisar grãos, avaliar aromas e provar café.
A relação do mercado financeiro com a bebida tem raízes na história do Brasil. As negociações da commodity começaram a ser realizadas em 1917, na antiga Bolsa de Mercadorias de São Paulo. O contrato futuro de café arábica, como conhecemos hoje, foi um dos pioneiros na BM&F (Bolsa de Mercadorias & Futuros, hoje parte da B3), lançado em 1978, e até hoje estão disponíveis para qualquer pessoa que queira investir na variação do preço do produto sem precisar ter um cafezal.
Por meio desses instrumentos financeiros, o investidor negocia os contratos no ambiente da B3, que oferece produtos para os dois principais tipos de grãos produzidos no país: o Arábica, principal referência nas exportações brasileiras e também consumido no mercado local; e o Conilon, voltado predominantemente ao mercado doméstico.
No acumulado do ano até agosto, os contratos futuros de café Arábica, principal produto relacionado a esse mercado, movimentaram aproximadamente R$ 21 bilhões na B3, volume equivalente a mais de 11 milhões de sacas de 60 kg. A média diária foi de cerca de R$ 130 milhões, correspondentes a mais de 66 mil sacas. No período, foram registrados mais de 62 mil negócios, com média de 376 por pregão. As pessoas físicas, categoria que inclui produtores rurais, representam cerca de 26% do volume negociado.
Porém, mais do que produtos financeiros, os contratos futuros de café significam proteção para o negócio de milhares de produtores.
“O café faz parte da história da B3 e continua presente no nosso dia a dia com produtos que muita gente desconhece, mas que conectam o mercado financeiro à realidade do campo, proporcionando estabilidade financeira e planejamento de longo prazo para o agronegócio, um dos principais pilares da economia brasileira”, destaca Felipe Gonçalves, superintendente de Produtos de Juros, Moedas e Commodities da B3.
Estabilidade financeira para a cadeia do café
O agronegócio é uma atividade cheia de imprevistos. Uma geada inesperada ou uma seca prolongada podem comprometer toda a produção e afetar os preços do café. Para proteger o preço, o produtor rural pode utilizar os contratos futuros negociados na B3 como uma ferramenta de proteção. Meses antes da colheita, ele pode “travar” o preço de venda de sua safra por meio desses instrumentos financeiros. Assim, se o preço do café cair no mercado, ele não perde dinheiro, pois já garantiu um valor que cobre seus custos e assegura seu lucro. Essa operação, chamada no jargão do mercado financeiro de hedge, traz estabilidade e previsibilidade para o campo.
Essa conexão entre a indústria do café e a B3 não se limita à negociação financeira dos produtos. Os contratos de café negociados na B3 permitem a entrega ou recebimento físicos da mercadoria. Isso significa que, caso deseje, um produtor pode, de fato, usar a estrutura da bolsa para vender suas sacas de café, que serão entregues em armazéns credenciados e de alta segurança. Da mesma forma, uma indústria de torrefação pode comprar os contratos para receber o café físico. É a conexão direta entre o campo, a indústria e o mercado financeiro.
Provado e aprovado pela B3
Para que o café seja negociado na bolsa, ele precisa seguir um padrão de qualidade indiscutível. E quem garante isso é a própria B3! A bolsa possui uma área técnica que funciona como um verdadeiro laboratório, onde amostras do café destinado à entrega física são rigorosamente avaliadas. Seguindo a Classificação Oficial Brasileira (COB), do Ministério da Agricultura, os especialistas analisam tudo: o tipo do grão, defeitos, tamanho, cor, umidade e, claro, o sabor. Na prova de xícara, profissionais identificam as características e classificam os grãos de acordo com critérios técnicos.
Esse trabalho dá uma referência comum a quem compra e a quem vende. Como os contratos têm características padronizadas, é necessário verificar se a mercadoria apresentada para entrega corresponde ao que foi negociado. O café também precisa estar depositado em armazéns cadastrados pela B3, conectando a negociação financeira à estrutura de armazenamento do produto.