Riscos e oportunidades do Brasil em meio à crise energética e choque do petróleo
Guerra desencadeou volatilidade em mercados mundiais e pressionou o preço do petróleo, encarecendo os custos de energia e gerando temores de escassez de combustíveis
Vitor Guedes, especial para o Bora Investir
O impacto duradouro do contexto macroeconômico global, marcado sobretudo pela guerra no Irã e pelo fechamento do Estreito de Ormuz ao longo dos últimos meses, tem gerado uma pressão desproporcional sobre os custos de energia, diretamente impactados pela flutuação no preço internacional do barril de petróleo. Além do encarecimento, isso também acendeu alertas sobre a possibilidade de escassez de combustíveis nos mercados locais, como no Brasil.
Consequentemente, o setor energético se transformou numa espécie de estopim da inflação. Na última semana, o Federal Reserve (Fed) decidiu subir a taxa básica de juros dos Estados Unidos, de 3,75% para 4% ao ano, numa tentativa de conter a inflação no país, impactada pela crise energética.
Uma situação parecida ocorre na zona do euro. A região, que já estava sob pressão desde o início da guerra na Ucrânia, por conta das políticas de sanções sobre o gás russo, enfrenta agora um novo momento desafiador. Neste mês, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu por aumentar a taxa de juros em 0,25 ponto percentual, para 2,5% ao ano, diante de uma perspectiva de inflação acima da meta, puxada pelos desdobramentos da guerra no Oriente Médio.
Em entrevista à agência Reuters, o vice-presidente do BCE, Boris Vujčić, afirmou que o preço da energia deve seguir aumentando e permanecer num patamar elevado ao longo dos próximos meses, à medida que o conflito no Oriente Médio prossegue sem qualquer sinal de arrefecimento.
Pressão internacional à porta do Brasil
Enquanto bancos centrais como o Fed e o BCE experimentam uma onda “hawkish” em resposta ao aumento do custo de energia, o Brasil vive um momento oposto, marcado por um ciclo de redução da taxa de juros, que atingiu o patamar de 13,75% após a reunião da última semana.
Um dos motivos que possibilitou a manutenção do ciclo de corte nos juros foi a desaceleração da inflação neste segundo semestre após o índice ter ganhado tração no primeiro semestre do ano por conta do impacto dos preços do petróleo.
Ao mesmo tempo, o cenário nacional enfrenta um desafio em relação a uma possível escassez de diesel. O combustível é essencial para o abastecimento da cadeia logística brasileira, ainda muito ligada ao modal rodoviário.
“Nós temos um problema significativo nesse aspecto. Não temos capacidade de refino suficiente para produzir diesel aqui, o que deixa o Brasil vulnerável em matéria de segurança de abastecimento”, explica Edmar de Almeida, professor do Instituto de Energia da PUC-Rio.
“Essa crise energética talvez gere uma aceleração das políticas de substituição de importação dos derivados do petróleo, o que é crucial no Brasil, altamente dependente do transporte rodoviário, que é diretamente afetado pelo preço dos combustíveis”, acrescenta Almeida.
Por esse ângulo, um modo de contornar esse problema, em tese, seria o uso dos biocombustíveis, que já são amplamente adotados no Brasil, especialmente o etanol e o biodiesel.
O especialista Gabriel Viana pontua que o custo de produção dos biocombustíveis e a própria oferta limitada pela sazonalidade são variáveis que podem jogar contra uma adoção mais ampla desses combustíveis num primeiro momento, mas que isso não necessariamente é um elemento fixo.
“O principal problema desse mercado é o custo de produção. Ele tem uma oferta mais limitada, dependente de safras, além da competição com o mercado externo, já que o país é um grande exportador de soja, uma das principais matérias-primas do biodiesel”, afirma.
Segundo o especialista, isso poderia ser revertido no caso de uma mudança na estratégia de defasagem do diesel, feita pela Petrobras e que consiste na diferença entre o custo de importação do combustível e o preço cobrado nas refinarias da estatal. A tática conseguiu conter, no curto prazo, os choques inflacionários da alta do petróleo.
No longo prazo, a perspectiva de uma eventual escassez do combustível acendeu um alerta no mercado interno, especialmente após a defasagem atingir o patamar de R$ 3,89 por litro na última semana, depois de uma nova alta do petróleo. A defasagem elevada pode inviabilizar a atuação dos importadores privados, levando a uma paralisação das compras e a uma posterior redução da oferta de diesel.
“Hoje, o biodiesel é mais caro do que o diesel comum. Quando ele é misturado ao diesel, ele aumenta o custo do combustível e contribui para a inflação. Agora, se o diesel acompanhar o preço internacional, essa diferença entre os dois diminui. Nisso, o biodiesel ganha em competitividade e pode até ajudar a baratear o diesel no mercado interno. De quebra, isso reduz essa dependência de importações”, afirma Viana.
Transição energética em meio ao ‘novo normal’
Diante de um contexto em que a incerteza é tratada como um “novo normal”, algo apontado pelo presidente do BCE e por grandes players do mercado financeiro, como o JPMorgan, uma saída para o Brasil poderia ser por meio da transição energética, com foco em energias renováveis e na redução da dependência de derivados do petróleo.
“Quando se fala de petróleo, não se pode esquecer a transição energética. E essa crise energética deve promover uma substituição da importação dos derivados do petróleo, o que é extremamente importante num país como o Brasil, que é altamente dependente do modal rodoviário”, ressalta Edmar de Almeida.
O professor ressalta o potencial do país em setores de energia limpa, como energia solar e eólica, e na produção de biomassa para biocombustíveis, o que inclui não somente o biodiesel, mas também o biometano e o Combustível Sustentável para Aviação (SAF, na sigla em inglês).
“E, por fim, aproveitar esse período de crise energética, de maior demanda por petróleo, para gerar mais receita de exportações. Reduzir o consumo de derivados no Brasil e aumentar a exportação, para gerar receita e renda que fomente o investimento em outras fontes de energia no território nacional”, acrescenta Almeida.
Viana, por sua vez, observa que, devido aos biocombustíveis, o Brasil tem o potencial de reduzir parcialmente essa dependência de diesel importado, o que garantiria uma vantagem competitiva para o país.
“Claro, isso seria muito melhor se nós tivéssemos a capacidade de refino suficiente para produzir internamente o combustível necessário para o abastecimento”, pondera.
Nesse sentido, o especialista destaca que o biodiesel e outros biocombustíveis não devem ser vistos somente como tábua de salvação para momentos de escassez ou crise energética. Eles precisam servir também como propulsor para a adoção de políticas permanentes para aproveitamento dos recursos agrícolas do país. Um exemplo prático disso seria agregar maior valor à soja antes de exportá-la.
“Nós produzimos muita soja in natura e a exportamos ao invés de processá-la em território nacional, quando o país poderia estar transformando parte dela em óleo vegetal, ou vender o farelo da soja, que possui maior valor agregado.”
“Claro, isso é uma faca de dois gumes. Não se pode também cair no outro lado de depender excessivamente do biodiesel, o que gera perda de competitividade em outros aspectos. Só que manter uma capacidade relevante de produção funciona como uma ‘carta na manga’ para momentos como o de hoje, de crise energética e alta do petróleo no mercado internacional”, conclui.