Copom interrompe cortes e mantém taxa Selic em 13,75% ao ano
Manutenção da Selic vem após 5 cortes seguidos na taxa básica de juros e comunicado reforça aumento de incertezas
O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, manteve a Selic em 13,75% ao ano. A decisão foi unânime entre os membros do colegiado e era a que estava em linha com a maioria dos especialistas do mercado. A manutenção interrompe uma sequência de cinco reuniões consecutiva em que o comitê promoveu cortes na taxa básica de juros.
“O Copom decidiu manter a taxa Selic em 13,75% a.a., e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego”, ressaltou o BC.
Em comunicado, o comitê afirmou que o ambiente externo tornou-se mais adverso em função do prolongamento dos conflitos armados no Oriente Médio, com impactos altistas sobre o preço do petróleo e derivados, e da política monetária mais restritiva nas economias avançadas. “Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities”.
Em relação ao cenário local, ressaltou a moderação mais acentuada da atividade econômica, porém, também reforçou uma aceleração da inflação na “média das medidas subjacentes” e de volta a superar o teto da meta. “Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, permanecem mais elevados que o usual, com assimetria altista”.
Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se:
(i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado, com horizontes mais longos incorporando impactos potenciais de segunda ordem de choques de oferta, relacionados ao petróleo e seus derivados, e a efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e custos de energia;
(ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto positivo;
(iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada; e
(iv) estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial, enfraquecendo parte dos canais usuais de transmissão da política monetária.
Entre os riscos de baixa, ressaltam-se:
(i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação;
(ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente dos choques de comércio e do petróleo, e de condições financeiras mais restritivas, em um cenário de maior incerteza; e
(iii) uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários.
Por fim, o Copom não deu um guidance para uma próxima decisão, a última em 2026, e citou o aumento significativo das incertezas para afirmar serenidade e cautela na sua condução.
“O Comitê seguirá acompanhando a evolução do cenário, para manter a restrição adequada de forma a assegurar a convergência da inflação à meta”.
Como o mercado repercutiu a decisão da Selic
Para Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD, o tom da mensagem indica que o Banco Central está disposto a seguir com a manutenção de juros nas próximas reuniões, a depender dos indicadores econômicos. “Um detalhe que chamou atenção no comunicado foi a retirada da palavra calibração. Na reunião anterior, o Banco Central dizia que o tamanho do ciclo de ajustes dos juros seria definido conforme os próximos indicadores. Agora, essa referência desapareceu. É um sinal de que o ciclo de cortes pode ter terminado e de que o Banco Central quer preservar sua liberdade de ação”, diz.
No mesmo sentido, Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, acredita que a mensagem central foi de que a manutenção continuará sendo necessária até que haja evidências mais claras de convergência da inflação e das expectativas para níveis compatíveis com a meta. “O Comitê avaliou que os riscos para a inflação permanecem elevados e com viés altista, citando tanto fatores externos quanto os impactos das condições fiscais domésticas sobre os preços dos ativos e a condução da política monetária”, afirmou.
Josias Bento, especialista em mercado de capitais e sócio da GT Capital, também afirmou que o comunicado veio duro, porém coerente com o que o mercado acredita do momento atual. “O que mais me chamou a atenção foi a piora das expectativas de inflação. O Banco Central está observando uma economia que desacelera, mas, ao mesmo tempo, as projeções de inflação continuam se afastando da meta. Esse é o grande dilema da política monetária brasileira”.
Nos investimentos, Raphael Vieira, head de Investimentos da Arton Advisors, diz que o tom cauteloso do comunicado, entretanto, tende a manter a pressão sobre os juros futuros, especialmente nos vértices mais longos, e limitar o desempenho dos ativos de risco. “O câmbio deve continuar sensível ao cenário externo e às incertezas fiscais domésticas”.