IA, envelhecimento da população, consolidação fiscal: quem são os culpados pela inflação na visão de Janet Yellen?
Para ex-secretária do Tesouro americano e ex-presidente do Fed, a inflação ainda tem espaço para subir nos próximos anos
O mundo encara um cenário em que a taxa neutra de juros pode nunca mais ser igual ao patamar baixo visto no pré-pandemia. Petróleo mais caro, incertezas globais, o crescimento do investimento em inteligência artificial nas empresas. Todos esses elementos podem pressionar e manter a inflação elevada durante alguns anos. A reflexão é de Janet Yellen, ex-secretária do Tesouro dos EUA e ex-presidente do Fed, que participou de palestra na Expert XP 2026 para falar das perspectivas econômicas para os EUA e o mundo.
Yellen lembrou que o cenário mudou e que o juro neutro, que ficava próximo de 0% em 2018, dificilmente se repetirá no médio e longo prazo. Ela também destacou que uma meta de inflação de 2% nos Estados Unidos fica cada vez mais improvável no contexto econômico atual.
Na visão de Yellen, a pandemia contribuiu com esse novo normal da inflação. O cenário se acentuou depois, com as tarifas de importação impostas por Donald Trump, e ainda mais com o impacto do conflito no Oriente Médio. “Quando houve a imposição de tarifas, acreditamos que a inflação levaria um ano para voltar ao normal”, destaca a ex-secretária do Tesouro. Para ela, estamos vivenciando atualmente este momento, em que o efeito das tarifas começa a desaparecer da inflação. Mas ainda existem outras variáveis que influenciam a trajetória dos preços, como o advento da IA pelas empresas e o mercado.
Petróleo sem rumo
Questionada sobre como enxerga a volatilidade do petróleo, que oscila conforme mudanças de posicionamento dos EUA e Irã na guerra do Oriente Médio, Yellen afirmou que não há uma expectativa de término do conflito no curto prazo. Com isso, a inflação deve continuar elevada por um ano ou além disso, fortalecida por um petróleo que voltou a se aproximar dos US$ 100.
“O Federal Reserve está pronto para elevar novamente as taxas de juros, se o conflito no Oriente Médio se intensificar ainda mais”, destacou Yellen.
IA também pressiona a inflação
A ex-secretária do Tesouro Americano também alertou sobre um novo componente de forte relevância na inflação: o crescimento da IA nas empresas, que têm feito fortes investimentos em data centers e têm aumentado a demanda de energia, para potencializar inovação. Segundo Yellen, o aumento de preço de semicondutores e de energia acaba tendo um grande efeito na inflação.
“Há uma expectativa de lucros futuros, mas ainda estamos aumentando a inflação, ao invés da redução de custo”, destacou.
Dólar não pode ser substituído
Yellen também foi questionada sobre o futuro da moeda americana, que tem apresentado tendência de desvalorização frente a outras divisas nos últimos meses (embora tenha ganhado força nos últimos dias, com novos impasses no Oriente Médio).
Para ela, dificilmente alguma moeda no mundo teria capacidade de substituir o protagonismo do dólar, mesmo com os investidores e bancos centrais se refugiando cada vez mais no ouro. “Vemos um aumento do volume de ouro mantido em reservas de BCs, e isso representa um desejo de depender menos do dólar”, pontuou.
Yellen também destacou que não existe moeda para substituir o dólar. “Não há mercados com liquidez ou força institucional. Nem títulos comparáveis”, disse, fazendo menção ao euro, yuan e outros títulos.
A ex-secretária do Tesouro apontou que 80% das transações hoje no mundo são feitas em dólar. Mas muitos países com sanções buscam métodos alternativos à moeda, entre eles China e Rússia. Yellen ainda reforçou que ter sanções contra países que violam regras é importante.
Ainda durante a palestra, Yellen comentou o crescimento das stablecoins, moedas digitais com paridade ao dólar, movimento que vê com bons olhos mas acredita seja necessário um lastro mais seguro e real, além de uma supervisão mais próxima deste mercado.
Falar de ajuste fiscal é impopular
Yellen também manifestou a sua preocupação com o risco fiscal nos Estados Unidos, principalmente pela proporção da dívida em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) americano. No entanto, há obstáculos para lidar com a questão fiscal, como a impopularidade do tema, a taxa de envelhecimento da população e consequente aumento dos gastos com pensões. “É preciso evoluir no aumento de impostos e revisão das pensões”, observou Yellen.
Contudo, o principal conflito na visão dela é a impopularidade política dessas medidas, que dificilmente são abraçadas por algum candidato à presidência, seja este democrata ou republicano. O resultado, na visão dela, é que enquanto essa problemática for ignorada, o risco fiscal deve aumentar, e o fundo previdenciário vai enfrentar problemas em 2031. Para a ex-secretária do Tesouro americano, esse problema é ignorado pelo mercado, mas deveria estar no radar do investidor, pelo peso na inflação e o efeito nas taxas de juros reais.