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Depois da Nvidia, quem deve ganhar com a inteligência artificial? As empresas “chatas”, dizem gestores internacionais

Para especialistas, o setor de inteligência artificial ainda não dá sinais de bolha. Mas as big techs não serão mais as maiores beneficiárias dessa tecnologia

A valorização das empresas de inteligência artificial é ou não uma bolha? Depois de quatro anos de bull market nesse setor, a pergunta foi o tema central de um debate na Expert XP nesta quinta-feira (23). Para os painelistas, os investimentos em IA continuam sendo sustentados por fundamentos. Mas na avaliação deles, as big techs não serão mais os grandes destaques de alta – esse posto pode ser tomado por empresas mais tradicionais, que conseguirem aumentar produtividade com a tecnologia.

A corrida da IA chega à bolsa – sob pressão por monetização

A preocupação do mercado deixou de ser apenas o preço das ações e passou a ser o retorno dos investimentos bilionários feitos pelas grandes empresas de tecnologia, afirmou Laura Hovenstine, Diretora de Investimentos e Diretora-Geral da Wellington Management. Segundo ela, as companhias mais bem posicionadas em inteligência artificial hoje são aquelas que atuam em diferentes etapas da cadeia, como computação em nuvem, semicondutores e modelos de linguagem. Essas empresas, diz Laura, captam recursos porque enxergam oportunidades de alto retorno financeiro, e não porque enfrentam dificuldades em gerar caixa.

“Estamos menos preocupados com valuations esticados e mais preocupados com os retornos desses investimentos”, afirmou a gestora. Na visão dela, os hyperscalers seguem bem posicionados justamente por terem presença em diferentes frentes da inteligência artificial e capacidade de financiar investimentos pesados em infraestrutura.

A discussão, segundo os gestores, também passa por entender se os investimentos em IA são apenas mais um ciclo de tecnologia ou parte de uma transformação estrutural da economia. Para Alastair Pang, diretor executivo da Morgan Stanley Investment Management, o mercado ainda subestima esse aspecto. Ele comparou a disseminação da IA à chegada da eletricidade. “Antes da eletricidade, você não precisava de uma geladeira ou de uma televisão. Depois que elas chegam, você não desliga mais a energia”, afirmou. Segundo ele, a inteligência artificial tem potencial para substituir trabalho humano, gerar novas receitas e criar valor econômico de forma permanente.

Mas, se até agora as grandes ganhadoras foram as empresas diretamente ligadas ao desenvolvimento da IA – desde a fabricação de chips até a criação de modelos de linguagem –, o cenário pode mudar bastante nos próximos anos.

Na avaliação dos gestores, a próxima onda de valorização tende a favorecer empresas fora do setor de tecnologia, e sim aquelas empresas “mais chatas”, que trabalham em setores de menor complexidade, margens menores e alto custo de tratamento de dados. Laura citou bancos, logística e saúde como segmentos que podem ganhar eficiência com inteligência artificial.

Segundo ela, a adoção mais ampla da tecnologia pelas empresas deve destravar ganhos de produtividade e lucros. Processos intensivos em documentação, análise de dados e tarefas repetitivas tendem a ser alguns dos mais beneficiados. “As empresas mais chatas podem ser as mais interessantes daqui para frente”, indicou a gestora.

Uma inteligência artificial vai gerir seu dinheiro no futuro?

Gina Martin Adams, da Morgan Stanley Investment Management, afirmou que instituições financeiras já começam a observar retorno sobre os investimentos em IA e defendeu que “as empresas que estão construindo em torno da IA são as que mais se beneficiam”. Na visão da estrategista, os ganhos mais relevantes da próxima fase podem surgir justamente entre empresas tradicionais que consigam incorporar inteligência artificial aos seus processos.

IA é estrutural ou apenas mais um ciclo de tecnologia?

Os gestores também discutiram se a atual onda de investimentos em inteligência artificial pode acabar reproduzindo os ciclos típicos do setor de semicondutores, marcados por períodos de expansão acelerada seguidos de excesso de oferta.

Para Alastair, toda indústria tecnológica mantém algum grau de ciclicidade, mas a demanda por IA estaria em um ponto de inflexão. Segundo ele, a questão mais importante é medir a adoção real da tecnologia: quantas empresas estão pagando por ferramentas de IA, incorporando esses sistemas ao dia a dia e até revendo processos de contratação. “Esse é o principal fator de crescimento daqui para frente”, afirmou.

Laura argumentou que os semicondutores já vinham se tornando menos dependentes dos ciclos econômicos antes mesmo da popularização da inteligência artificial, impulsionados por tendências como veículos conectados, internet das coisas e computação em nuvem. Com a IA, essa característica teria se intensificado. Para ela, hoje faz mais sentido enxergar o setor como uma tendência estrutural de crescimento do que como um mercado puramente cíclico.

Gina concordou apenas parcialmente. Na avaliação da estrategista, o setor continua sujeito a ciclos de investimento e ajuste de oferta, mas esses movimentos tendem a ser mais longos e robustos do que no passado.

Inteligência artificial é bolha?

Durante o painel, o moderador, Diego Correia, sócio e líder de investimentos internacionais da XP Inc., fez uma provocação: estamos vendo um mercado similar à bolha da internet, em 1999?

Para Alastair Pang, não. Segundo ele, o mercado hoje estaria mais próximo de 1997 do que de 1999. A razão é simples: a demanda por infraestrutura continua crescendo e ainda supera a oferta. Além disso, fabricantes como a TSMC seguem observando forte demanda e ampliando a capacidade de produção, cenário que não indicaria um estágio final de ciclo nem excesso de capacidade.

Laura fez avaliação semelhante. Segundo ela, durante a bolha das telecomunicações, boa parte dos investimentos foi realizada antecipando uma demanda que ainda não existia. Hoje, ocorre o contrário. “Temos mais demanda do que oferta”, afirmou. Para a gestora, o setor estaria em uma fase inicial ou intermediária do ciclo de expansão.

Gina apontou três diferenças em relação às bolhas anteriores. A primeira é que o mercado de IPOs permanece relativamente fraco, ao contrário do que ocorreu no fim dos anos 1990. A segunda é que empresas sem lucro não negociam com prêmio sobre companhias lucrativas, como aconteceu durante a bolha da internet. E a terceira é que a valorização das ações tem acompanhado o crescimento dos lucros corporativos. Para ela, embora o ritmo de expansão dos resultados deva desacelerar nos próximos anos, o cenário ainda difere de episódios clássicos de exuberância do mercado.

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