O que avaliar antes de investir em fundos de investimento
Soraia Barros, da Anbima, orienta sobre benefícios, riscos, liquidez, taxas e gestores
Clube FII é uma plataforma especializada em investimentos imobiliários, focada em análise, acompanhamento e organização do portfólio do investidor.
Com mais de 34 mil fundos de investimentos disponíveis, de acordo com dados do último boletim de fundos de investimento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), como escolher o ativo correto para compor o portfólio? Tornar esse mercado mais acessível e compreensível ainda é desafio, mas esse e outros questionamentos relacionados ao mundo dos fundos foram debatidos em episódio do Clube FII Entrevista.
Durante a conversa, Felipe Ribeiro, diretor de investimentos alternativos do Clube FII, conversou com Soraia Barros, gerente executiva de fundos de investimento da Anbima, sobre temas essenciais para quem investe em fundos de investimento, como classes de fundos, liquidez, come-cotas, taxas de administração, gestão e performance, prazos de resgates, diferenças entre fundos ativos e passivos, diversificação e análise da consistência dos gestores. A especialista também detalhou o papel da entidade e a atuação como órgão responsável pela autorregulação do mercado de capitais.
Quais os benefícios de investir em fundos?
Entender os objetivos financeiros e o perfil do investidor é o primeiro passo para escolher os ativos para composição do portfólio, que podem incluir fundos de investimento. É possível investir diretamente em ativos como ações, títulos, entre outros, mas o monitoramento constante é inviável para muitos investidores, a depender da rotina. Por isso, ter especialistas que auxiliam nessa jornada pode tornar o processo mais assertivo, que adotarão estratégias de Asset Picking, ou seja, de seleção dos melhores ativos dentro de determinado mercado, de acordo com os parâmetros daquele portfólio.
A diversificação de ativos dentro do fundo e o monitoramento constante do mercado, para realizar alocações táticas no timing correto, estão entre os benefícios. “O gestor fica ali exatamente todos os dias, o dia inteiro, olhando para o mercado financeiro, selecionando quais são as melhores opções”, destaca Barros. “É ele que vai estar lá todo dia olhando se está na hora de entrar, está na hora de sair, qual é a melhor estratégia, se fica mais no curto prazo, se procura empresas que têm proporção no melhor dividendo. Enfim, ele está ali justamente trabalhando focado nisso”.
Diversificação, come-cotas e drawdown
A diversificação é essencial para mitigação de riscos dentro de uma carteira de investimentos. No entanto, o grau dessa diversificação depende dos objetivos de cada investidor, pois haveria uma linha ótima de diversificação, considerando os custos associados à compra e custódia de maior número de ativos. A prioridade não deve ser a quantidade de fundos, orienta Barros, mas se o portfólio cobriu todas as necessidades, como reserva de emergência e alocações estratégicas.
A especialista também destrinchou alguns pontos relacionados aos fundos que costumam ser dúvidas do investidor. Ao tratar do come-cotas cobrado em maio e novembro, Barros explicou que a cobrança é uma antecipação do imposto de renda (IR). O mecanismo não vale para todos os fundos, mas é vigente para fundos de renda fixa, multimercado e cambial. O fundo de ações, por sua vez, conta com incidência de IR somente no resgate das cotas. “Se eu entrei com 100 reais dentro de um determinado fundo, quando chegou lá em maio, esse meu investimento está valendo agora 120 reais. Em cima desses 20 reais que rentabilizou, eu vou ter a incidência do imposto de renda”, detalhou.
Outro conceito relevante citado foi o drawdown, queda percentual de um investimento ou carteira entre o seu pico e valor mínimo antes de iniciar uma nova recuperação. “Talvez ajude o investidor a falar, bom, se tudo der muito errado, deixa eu ver aqui quanto foi o pior momento desse fundo. Ele está olhando um movimento pontual e está tentando entender como aquele gestor se comportou naquele período de estresse, como foi o pior momento daquele gestor naquele momento de estresse antes de uma reversão de curva”, destaca Barros, ao ponderar que essa não deve ser uma análise isolada, mas fazer parte de uma avaliação mais completa.
Requisitos mínimos de análise de fundos
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) classifica os fundos de investimento financeiros (FIFs) como renda fixa, ações, cambial ou multimercado. O investidor ainda pode escolher Fundos de Investimento Imobiliário (FII), Fundos de Investimento em Participações (FIPs), Fundos de Investimento em Direitos creditórios (FIDCs) e Exchange Traded Funds (ETFs). Enquanto isso, a ANBIMA desenvolveu uma classificação em três níveis de acordo com os principais fatores de risco e estratégias.
Para escolher o melhor fundo para composição da carteira, que esteja alinhado ao objetivo e tolerância ao risco do investidor, entender quem é o gestor e a consistência do fundo ao longo do tempo são alguns requisitos necessários. Por mais que um rendimento possa parecer atrativo, fatores não recorrentes podem influenciar nesse tipo de indicador, e não há garantia de que os resultados passados sejam semelhantes no futuro. Fatores como liquidez, prazo de duração e de resgate, além das taxas envolvidas, devem ser levados em consideração.
Fundos com maior risco possuem maior potencial de retorno, mas podem sofrer oscilações. Por isso, alguns tipos de fundos permitem o resgate somente em um prazo futuro, determinado previamente. “O FIP é um produto chamado de condomínio fechado. Ou seja, não tem liquidez imediata. Você só vai ter o seu dinheiro realmente quando encerrar o prazo de duração desse fundo. Você está disposto a isso? A deixar esse dinheiro e saber que você não vai poder mexer em hipótese alguma nesse dinheiro durante esse período?”, indaga.
Outros fundos, por sua vez, podem ter liquidez praticamente imediata, sendo estes normalmente direcionados para reserva de emergência. O investidor precisa avaliar os prós e contras de alocar nesse tipo de ativo. “Qual que é a vantagem de ficar num fundo que é D60 versus ficar num fundo D0, pensando que o fundo D0 eu posso resgatar a qualquer tempo? A estratégia de investimento. Então, esse fundo que te oferece uma liquidez diária, ele também, justamente por conta disso, também precisa correr menos risco do que um fundo que está te dando um prazo de resgate de D60, D180”, compara.
Além de entender para qual objetivo o recurso deve ser usado ao investir, a especialista orienta que o investidor verifique a política de investimentos antes de tomar uma decisão, pois este é o documento que mostra em quais ativos o fundo pode alocar e qual o limite para determinadas composições.
Taxas envolvidas nos fundos de investimentos
Tanto a gestão quanto a administração de fundos de investimentos são trabalhos remunerados e, por isso, essa classe de ativos possui custos envolvidos. Além dessas taxas, alguns fundos cobram taxas de performance, caso superem determinado benchmark. No caso dos ETFs, as taxas costumam ser mais baixas, tendo em vista que a gestão é passiva e segue determinado índice.
“Os fundos tradicionais adotam uma estratégia ativa, ou seja, buscam entregar mais do que aquele referencial que ele está buscando. Então, em um fundo de ações, o gestor vai procurar entregar mais do que o Ibovespa está rentabilizando, a gente chama isso de alfa. E, para entregar esse alfa, ele cobra aquela taxa, está associado à logística do que o gestor está oferecendo”.
Enquanto isso, os ETFs são fundos de estratégica passiva, replicando a carteira de determinado índice. “Por isso que ele acaba sendo mais barato. Ele não vai gerar nenhum alfa em relação àquele índice que ele está compondo. Então, nesse mesmo exemplo que eu dei, o Ibovespa, se você tiver um ETF de Ibovespa, ele vai te entregar o quanto o Ibovespa está rentabilizando”.
A importância do longo prazo nos investimentos
Durante a entrevista, a especialista também reforçou a importância de pensar no longo prazo, evitar decisões impulsivas em momentos de estresse de mercado e alinhar cada investimento aos objetivos, prazos e perfil de risco do investidor. O assunto vem sendo trabalhado nas estratégias de educação financeira da Anbima, com foco na construção de patrimônio para que a população, cada vez mais longeva, tenha qualidade de vida no futuro.
“As pesquisas apontam que a população brasileira está ficando mais velha, mais longeva. Por outro lado, uma parcela não expressiva da população tem esse horizonte de longo prazo, de se preparar para esse momento da vida. Entendo ser muito importante essa construção de patrimônio, pegar uma parcela e falar, esse pedaço é para reserva de emergência, esse pedaço para investimentos, para buscar maior retorno”.
A casa do mercado de capitais ajuda a desmistificar fundos
Durante o início da entrevista, a especialista detalhou o papel da Anbima, considerada por Barros como “a casa do mercado de capitais”. A associação reúne diversos entes de mercado financeiro e de capitais, como grandes gestores de investimento, corretoras, distribuidoras e consultores. “Nossa missão é conseguir ligar todo esse ecossistema. Nós, por meio dessas instituições que se sentam nas nossas mesas de discussão, buscamos nos conectar com o legislativo e com os reguladores”, conta gerente executiva.
Além da representação de mercados, educação, certificação, autorregulação e supervisão de mercados, a entidade também atua na produção de estatísticas voltadas ao setor financeiro. “Todas as estatísticas em relação à indústria de fundos, captação, rentabilidade, o ranking dos maiores gestores, toda a parte de emissão de ofertas públicas. Temos um hub de divulgação de informações”.
A especialista também comentou sobre a realização da campanha “No Fundo Você Pode”, iniciativa da Anbima criada com o objetivo de desmistificar o mundo dos investimentos. “Normalmente, as nossas ações eram muito voltadas mais para o próprio mercado financeiro, principalmente para os nossos associados, para os profissionais que atuam no mercado financeiro, e a gente viu essa necessidade de aproximar a população dos fundos de investimento, poder desmistificar”, explica.
“Às vezes, uma pessoa, um cidadão comum, acha que fundo de investimento é algo que não é acessível para ele. Isso aqui é aquela coisa do pessoal da Faria Lima, não é para mim. E aí, a campanha vem muito nesse mote, de mostrar que não, que o fundo de investimento é um produto superacessível, que é uma porta de entrada para o investidor, e que sim, qualquer pessoa que começa a poupar o seu dinheiro, pode e deve investir em fundos de investimento”, conclui.
*Matéria publicada originalmente em ClubeFII, parceiro de B3 Bora Investir