Renda variável

Desmistificando a renda variável: entenda os riscos, estratégias e oportunidades do segmento

Apesar do crescimento de ativos como ETFs, BDRs e FIIs, a renda variável segue ainda muito subutilizada pelos investidores brasileiros

Vitor Guedes, especial para o Bora Investir
Ao pensar em investimentos, o brasileiro ainda possui uma ideia muito atrelada aos ativos da renda fixa, que segue sendo a modalidade predileta da maior parte dos investidores nacionais, pela maior segurança associada a essa classe. 

Segundo dados divulgados recentemente pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), os ativos de renda fixa foram responsáveis por 65% do crescimento total do mercado no primeiro semestre de 2026, puxados pela alta do volume de capital alocado em títulos públicos, que aumentou em quase 33%, com um montante total de R$ 394,8 bilhões no período. 

Para a Anbima, isso se justifica pela elevada taxa de juros no Brasil, atualmente em 14%, e pelas incertezas quanto aos rumos da economia global.

Ao mesmo tempo, é possível observar uma expansão de determinados ativos de renda variável, como os Exchange Traded Funds (ETFs), que têm vivido um momento de ascensão ao longo desta década e que, no primeiro semestre deste ano, foram os ativos que apresentaram maior crescimento percentual, com alta de 38,8% e um montante de R$ 25,4 bilhões. 

Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) e Brazilian Depositary Receipts (BDRs) também são alguns dos investimentos em renda variável que têm ganhado uma forte adesão do investidor brasileiro recentemente. Apesar disso, ainda existe uma subutilização muito grande da renda variável, que também sofre com a fuga de investimentos em cenários macroeconômicos mais desafiadores.

Investir vs Apostar

Em um estudo feito recentemente pelo Serasa, cerca de 35% dos entrevistados declararam que o medo de perder dinheiro é o principal entrave para iniciar um investimento. A pesquisa não faz uma menção direta, mas outras análises já apontam essa associação entre perda de capital e investimentos em renda variável.

No ano passado, uma pesquisa da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP), conduzida pelo especialista Martin Iglésias, trouxe uma nova perspectiva ao apontar que, na verdade, a desconfiança do brasileiro em relação à renda variável nasce mais de uma falta de exposição do que propriamente do risco de perder capital.

Contudo, o patamar elevado de juros e a baixa volatilidade da renda fixa representam, de fato, aspectos concretos que traduzem essa preferência do investidor brasileiro. Ao comparar com o mercado dos Estados Unidos, Iglésias menciona que, se o investidor americano enfrentasse as mesmas adversidades que um homólogo brasileiro, provavelmente ele também evitaria a renda variável.

Para os analistas consultados pelo Bora Investir, essa mudança de perspectiva sobre a renda variável é acompanhada por um maior estudo sobre esses ativos e uma preparação mais abrangente.

“O principal erro é entrar no mercado sem entender o risco que está assumindo. Muita gente escolhe uma ação simplesmente porque ela subiu, porque recebeu uma indicação ou porque viu alguém ganhando dinheiro com aquele ativo”, afirma o analista de investimentos da Ouro Preto Sidney Lima.

“O investidor precisa saber por que comprou determinado ativo, quanto aceita perder e em quais circunstâncias aquilo deixa de fazer sentido. A volatilidade, por si só, não significa deterioração do investimento: uma ação pode cair 15% ou 20% sem que o negócio tenha piorado na mesma proporção, o problema é não ter estratégia e o investidor passar a comprar na euforia e vender no medo. É justamente aí que a volatilidade deixa de ser característica do mercado e vira prejuízo permanente”, acrescenta.

Felipe Passero, sócio da Jaguaretê Investimentos, argumenta que o investidor precisa tomar decisões baseadas em probabilidades e evidências, para poder estimar a probabilidade de ganhos ou perdas em determinados períodos.

“Investimentos em renda variável, especialmente quando se olha para os índices, e para períodos mais longos, tendem a ter uma chance maior de ganhos do que de perdas. Isso é completamente diferente de uma ‘aposta’, em que você coloca dinheiro em algo cujo futuro é incerto e que pode ou não acontecer”, diz.

Conhecimento é parte da estratégia

De modo geral, ao buscar investimento em renda variável é preciso considerar a volatilidade, analisar o histórico e o cenário atual, e também pensar num horizonte de longo prazo, sendu uma modalidade que exige dedicação maior do investidor em comparação à renda fixa.

Isso não torna a renda variável uma modalidade menos valiosa ou mais burocrática, mas sim uma classe de ativos que possui um modus operandi que demanda mais daqueles que buscam por ela.

Inclusive, os especialistas apontam que mesmo um investidor com perfil mais conservador pode investir em renda variável, desde que mantenha a devida atenção ao cenário macro e evite deixar-se guiar somente pela expectativa de lucros.

“Um dos principais mitos é acreditar que renda variável é uma maneira de ganhar dinheiro rapidamente ou algo para ricos. Essa expectativa normalmente leva o iniciante a assumir riscos muito maiores do que deveria”, avalia Lima.

ETFs e ações podem e devem coexistir

Não é segredo que os ETFs têm conquistado cada vez mais espaço nas carteiras de investimento dos brasileiros. Segundo a Anbima, essa classe de ativos atingiu uma captação líquida recorde em 2025, somando R$ 23,2 bilhões, o maior total desde o início da série histórica, em 2004.

Com a praticidade de se investir em ativos internacionais e a capacidade de diversificação de portfólio proporcionada pelos ETFs, eles representam uma alternativa lógica para aumentar a confiança do investidor brasileiro na renda variável.

O cenário ideal, contudo, não seria aquele em que ETFs e BDRs dominem o segmento, mas sim um em que eles possam coexistir com outros ativos, como as ações, dentro da carteira do investidor.

“Eles terão cada vez mais presença no Brasil, especialmente por permitirem acesso a mercados globais, mas as ações individuais também continuarão existindo. Os dois precisam coexistir”, declara Passero.

Nesse mesmo raciocínio, Lima destaca que o mercado brasileiro de ações precisaria evoluir em alguns critérios para torná-lo mais atraente aos olhos do investidor. Isso incluiria avanços em transparência, governança, além de maior educação financeira e previsibilidade econômica.

“Quando temos juros muito elevados, naturalmente a renda fixa se torna uma concorrente muito forte da Bolsa. A insegurança econômica e regulatória também aumenta o prêmio de risco exigido pelo investidor”, afirma.

“Para desenvolver o mercado acionário de maneira sustentável, não basta simplesmente atrair mais pessoas para a Bolsa. É necessário criar condições para que existam mais empresas de qualidade acessando o mercado, maior liquidez e investidores mais preparados para entender os riscos que estão assumindo.”

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