Renda variável

Investimentos em bolsa no 2º semestre: quais as perspectivas e setores para ficar de olho

Eleições devem ditar o ritmo do Ibovespa e a inteligência artificial embala os mercados lá fora; veja os setores mais atrativos

A bolsa brasileira apresentou um movimento de recuperação no mês de julho. Um estudo da Elos Ayta Consultoria revela que a B3 atingiu seu segundo maior valor de mercado da história em reais, contudo ainda não retomou o seu protagonismo internacional observado na década passada devido ao efeito do câmbio.  

Segundo o levantamento, o valor de mercado consolidado das empresas listadas na bolsa brasileira chegou a R$ 4,86 trilhões em 21 de julho de 2026, ficando atrás apenas do recorde registrado em 2020, quando a bolsa atingiu R$ 5 trilhões.  

Apesar desse movimento de alta, especialistas consultados pelo Bora Investir avaliam que a bolsa segue descontada, carregando incertezas por conta das eleições em outubro e os juros ainda altos. Mas consideram que para o segundo semestre ainda existem oportunidades no radar.  

Já do lado das bolsas internacionais, o boom de inteligência artificial (IA) impulsiona a valorização dos índices. Mas afinal, onde investir no segundo semestre? As melhores oportunidades para diversificar a carteira estão no Brasil ou no exterior? 

O Bora Investir traz todos os detalhes a seguir e esclarece estas dúvidas. 

Eleições no radar da bolsa local 

Depois de ter renovado sua máxima histórica em abril, encostando nos 200 mil pontos, o Ibovespa B3 engatou uma sequência de meses negativos, mas encerrou o primeiro semestre com alta de 6,76%, aos 172.024 pontos. Contudo ainda ficou abaixo do CDI (principal indicador da renda fixa).  

Para Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, foi esse movimento visto na primeira metade do ano que reprecificou os ativos da bolsa para baixo e criou uma assimetria favorável para quem tem um horizonte de investimento de longo prazo. Ele projeta um segundo semestre construtivo, mas seletivo e mais volátil, impactado pela trajetória de juros e inflação, as eleições de outubro, o quadro fiscal e o cenário externo.  

Na visão de Trevisan, com a Selic em 14,25% e o IPCA projetado em 5,30% para 2026, acima do teto da meta, o juro real ainda pressiona os múltiplos das ações. “A questão central é se o ciclo de corte de juros avança, porque qualquer sinalização mais construtiva do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) tende a destravar a bolsa”, afirma o especialista.  

Juan Lopes, sócio e trader da Meraki Capital, também vê a disputa eleitoral como principal fator que deve influenciar no movimento da bolsa brasileira no segundo semestre. Para ele, o mercado local deve experimentar uma volatilidade acentuada nas semanas que antecedem a eleição como resultado de novas pesquisas eleitorais, impactando a curva de juros, bolsa de valores e o câmbio.  

“Por outro lado, a vitória de um candidato pró-mercado ou a reeleição do governo atual com uma equipe econômica mais austera poderia ser um catalisador positivo para a bolsa brasileira”, destaca Lopes.  

Ainda vale a pena investir na bolsa brasileira? 

Na visão de Lopes, ainda existe na bolsa local uma assimetria de risco muito positiva. Ele aponta que muitas empresas listadas negociam a preços extremamente descontados em relação ao seu histórico, apesar da alta registrada nos últimos 12 meses puxada pelo investidor estrangeiro.  

“Mas o elefante na sala são as eleições que geram desconfiança no investidor. Mesmo precificando uma disputa acirrada, os preços atuais não parecem corretos”, destaca o especialista da Meraki Capital. Para Lopes o mais coerente seria as empresas da bolsa valorizarem no segundo semestre e a curva de juros deveria recuar.  

Ele reforça que prova desse desconto é o juro real brasileiro, que compete com países em situação econômica pior que o Brasil.  

Para Trevisan, da Gravus, vale a pena ter bolsa brasileira na carteira de investimentos. O especialista destaca que as ações negociam a cerca de 8 vezes o lucro projetado, abaixo da sua média histórica. Mas reforça, que o ideal é diversificar com renda fixa. “Vivemos um ambiente de seleção de ações, não é o caso de comprar o índice inteiro”, comenta.  

Setores atrativos e resilientes 

Para quem busca se posicionar na bolsa brasileira, a palavra de ordem é resiliência, misturada com uma pitada de ciclicidade e commodities.  

De acordo com os especialistas consultados pelo Bora Investir, o setor de bancos é um dos que podem entregar o melhor risco-retorno em qualquer cenário político. “É um setor sólido com nomes apimentados para aproveitar a volta do mercado de capitais. Nomes que já provaram que conseguem crescer em um cenário de economia lateral, como o atual”, justifica Lopes, da Meraki.  

Trevisan prefere uma cesta defensiva, com setores tradicionais como bancos, energia elétrica, saneamento, telecomunicações e seguradoras, que são capazes de sustentar a carteira com juros altos e ruído eleitoral. Ele destaca que elétricas e saneamento foram destaques em 2026, por conta da previsibilidade de receita, contratos longos e dividendos robustos.  

Já para quem busca dar um contrapeso na carteira, ele cita exposição a exportadoras e empresas de commodities, que oferecem um hedge (proteção) cambial natural.  

Embora essa visão divida opiniões no mercado, Trevisan ainda defende que o maior desconto está nas small caps (empresas de menor valor de mercado, geralmente abaixo de R$ 10 bilhões), negociadas a 10 vezes o lucro, inferior à média histórica de 13,6 vezes. 

Lopes, da Meraki, acrescenta empresas de utilidade pública, que vem sendo beneficiadas pelos investimentos em infraestrutura de IA que devem turbinar os preços de energia. Outro segmento seria o de construtoras de alta renda, menos sensíveis aos juros e também aquelas impulsionadas pelo programa Minha Casa Minha Vida. “No entanto, o desconto só vira retorno com horizonte e disciplina de aportes”, alerta ele.  

Vale a pena investir no exterior? 

A visão dos especialistas consultados pela reportagem é que diversificação internacional deve sempre fazer parte da carteira do investidor e não apenas no segundo semestre. Para Victor Acioli, responsável pela relação com investidores na Buena Vista Capital, investir na bolsa americana ou em bolsas globais faz parte da arquitetura essencial de um portfólio.  

Acioli lembra que o Brasil representa apenas 1% do mercado global de ativos. “Você já vive no Brasil, seu salário já é no Brasil, então precisa ter essa diversificação no seu portfólio”, pontua.  

Anderson Moreira, head de conteúdo da DEX, reforça esta opinião. Para ele, quem investe apenas em ativos brasileiros ignora mais de 95% do mercado mundial, por conta do viés doméstico. Para ele, investir no exterior, além de ampliar o universo de ações, traz descorrelação porque os ativos da carteira tendem a se comportar de forma diferente.  

Já Flávio Vegas, especialista de produtos da Global X, afirma que o mercado americano segue sustentado por fundamentos sólidos, entre estes o fato de o lucro por ação do índice S&P 500 ter sido revisado para cima em 8% desde o começo de 2026 e que as margens de lucratividade caminham para o quarto ano seguido de expansão, graças ao ganhos de eficiência com inteligência artificial.  

Vegas destaca que o ciclo de investimentos das empresas em tecnologia deve superar os US$ 700 bilhões neste ano e alcançar US$ 1 trilhão no próximo. “O mercado americano continua sendo impulsionado por resultados, não por euforia”, pontua.  

Fora dos EUA, ele vê oportunidades de investimento nos mercados vencedores do comércio global, tais como Vietnã, Índia, México e Emirados Árabes Unidos e na demanda estrutural por cobre, lítio e terras raras. 

Setores interessantes no exterior 

Moreira, da DEX, cita que segmentos relacionados à infraestrutura física em IA, como a construção de data centers, são o principal motor da bolsa americana. Estes por sua vez, também aceleram o lucro de utilities e empresas focadas em energia limpa, dado os volumes imensos de eletricidade exigidos.  

Segundo o especialista, no setor financeiro também há oportunidades atrativas, com o Federal Reserve (banco central americano) desenhando a queda dos juros, rumo a uma taxa neutra entre 3% e 3,5%. “O crédito mais barato destravou uma onda de fusões, aquisições e aberturas de capital (IPO)”, defende.  

Ainda na lista, ele cita empresas industriais e de defesa, impulsionadas por estímulos multibilionários dos governos. Vegas, da Global X, acrescenta empresas ligadas a metais, mineração, semicondutores, robótica e materiais estratégicos, todos alinhados a tendências de IA, reconfiguração do comércio global e tensões geopolíticas.  

Como investir no exterior

Para quem busca praticidade e custo, não é necessário cruzar as fronteiras de investimento. Com valores a partir de R$ 30 já é possível ter exposição internacional, seja via ETFs (fundos de índice) ou BDRs (recibos de ações estrangeiras listados na B3), sem pagar IOF nem spread de câmbio.  

Os ETFs, segundo os especialistas, são uma boa alternativa para acessar mercados internacionais ou setores de forma diversificada sem a preocupação de garimpar vencedores. “Na bolsa brasileira é possível encontrar ETFs com estratégias de mercado americano, global, global sem Estados Unidos e mercados emergentes”, cita Moreira. 

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