Brasileiro se organiza melhor financeiramente, mas não está pronto para lidar com a perda de renda
Índice Planejar revela ainda que a geração entre 25 e 44 anos está estagnada pelo peso do custo de vida e as obrigações
O brasileiro aprendeu a organizar o seu dinheiro no mês. Sabe quanto ganha, sabe quanto gasta e, na maior parte dos casos, consegue pagar todas as contas. Mas o retrato se inverte quando surge o questionamento: e se deixasse de receber a sua renda mensal, por quanto tempo conseguiria bancar as suas necessidades?
E tudo indica que o brasileiro não está preparado para imprevistos. Esta foi a conclusão da primeira edição do Índice Planejar, apresentado nesta quinta-feira (10) pela Associação Brasileira de Planejamento Financeiro.
O indicador ficou em 52,7 pontos, numa escala de 0 a 100, e foi fruto de uma pesquisa nacional do Datafolha, com 2.000 entrevistas nas classes A, B e C com acesso à internet e margem de erro de dois pontos percentuais.
O estudo se divide em cinco dimensões: gestão orçamentária, endividamento, reservas e resiliência, proteção e seguros e planejamento de longo prazo. A diferença entre a primeira e a terceira explica boa parte do resultado. Gestão orçamentária marca 70,1 pontos, a melhor nota do estudo. Reservas e resiliência ficam em 39,3, a pior. No meio aparecem proteção e seguros (63), endividamento (47,8) e planejamento de longo prazo (43,3).
“O índice se mostra mais maduro na gestão do dia a dia. Onde a gente vê muito espaço é na proteção contra choques, que ainda é bastante limitada”, afirma Hilton Notini, gestor de riscos e consultor da Planejar responsável pela metodologia. Para ele, a resiliência no orçamento é algo que ainda não foi construído.
Ter dinheiro guardado não garante proteção
O dado que sustenta esse desequilíbrio é o mais desconfortável do levantamento. Os entrevistados foram questionados se possuem algum tipo de poupança e investimento e muitos afirmaram que sim, levando o item a 75,7 pontos, um dos destaques da pesquisa. No entanto, ao ser perguntados por quanto tempo conseguiriam se sustentar sem receber a sua renda, a nota despencou para 21,3, provando que ter algum tipo de recurso investido não necessariamente é considerado reserva substancial.
Para Notini, isso comprova que as pessoas podem ter um produto de investimento, mas não necessariamente essa aplicação se traduzir em fôlego no orçamento ou em uma reserva que sirva para momentos de emergência.
“Se você pergunta se a pessoa tem uma poupança, às vezes ela fala: tenho, tenho R$ 500 na poupança. Isso é suficiente para te sustentar durante três meses sem trabalho? Possivelmente não”, observa.
Já Ana Leoni, CEO da Planejar, apontou a relevância da qualidade destes investimentos. Ela explica que o índice não trata poupança como produto e sim como colchão. “Ter investimentos não significa estar protegido”, afirmou.
Para Leoni, existiriam outras alternativas para lidar com esta problemática. Ela cita que pessoas mais jovens, com renda menor e mais dificuldade de montar reserva, poderiam ter uma reserva mínima de dinheiro complementada com um seguro, um produto de baixíssimo custo, que em caso de invalidez temporária, acidente ou doença grave, facilitaria esta proteção.
A invalidez é outro ponto cego do índice, com 16,7 pontos. “É algo que pode acontecer, e a maioria das pessoas não está formando reserva para esse momento”, observou Notini.
Outro fator preocupante é os recursos destinados para a aposentadoria. No caso da previdência privada, o item isolado marca 15,3 pontos.
Planejamento não é sinônimo de saúde financeira
Com 83,9 milhões de endividados no país, um índice com 52,7 pontos e 70,1 para a categoria gestão orçamentária se tornam contraditórios. Leoni faz a ressalva que organização e planejamento não são suficientes para ter uma vida financeira saudável.
“A organização financeira não basta, porque você pode ser organizado e ver que tem um grande rombo no seu orçamento”, defende a CEO da Planejar. “Eu sei o quanto eu ganho, eu sei o quanto eu gasto, mas isso não é suficiente. Isso faz com que eu deixe de pagar alguma conta, ou que eu tenha que me alavancar por meio do financiamento ou do empréstimo”, acrescenta.
Ela exemplificou com uma personagem, uma mulher que trabalha como doméstica, sabe quanto ganha, consegue organizar as finanças da casa minimamente, mas não consegue se planejar. “Ela consegue fazer um rotativo do cartão de crédito, consegue até saber quanto ganha e quanto gasta, mas aquilo não é suficiente”, diz.
Segundo Leoni, esta seria a prova de que organização financeira não é indicativo automático de que a vida financeira de alguém vai bem. Da mesma forma que não dá para afirmar que alguém que investe seja uma pessoa organizada.
Notini reforça que o item endividamento mede a frequência de apertos e atrasos e o quanto da renda está comprometido com dívidas, até mesmo as tomadas com parentes. Para ele, a dívida não é necessariamente algo ruim, porque ajuda a trazer uma renda do futuro para o presente. “O problema surge quando passa de um certo limite da renda”, pontua.
A geração adulta pressionada
Embora seria algo natural, os dados surpreendem ao mostrar que o planejamento financeiro não melhora de forma linear com a idade. O ponto mais baixo da curva não está entre os mais jovens, e sim na faixa dos 25 aos 44 anos, com 51,3 pontos. Os 18 a 24 anos marcam 53,6 pontos. Já dos 46 aos 60 anos, a pontuação é de 53. E o topo ocorre com mais de 61 anos, com 57,6 pontos.
“É a faixa mais pressionada em termos de nota. A gente sabe que é uma faixa em que as responsabilidades financeiras aumentam muito e isso pode ajudar a explicar a pessoa não estar cumprindo aquilo que a gente desenhou em termos de planejamento”, avalia Notini.
Para Leoni, o dado traduz uma trajetória na qual o “apito inicial” da vida financeira ocorre por volta dos 25 anos, quando a renda ganha alguma estabilidade inicial, chegando até a aposentadoria perto dos 65, com quatro décadas para dar contas das necessidades do presente, mas também planejar e poupar recursos para o futuro.
“São 40 anos de produção de renda para viver, manter as despesas cotidianas, realizar os projetos de vida, comprar uma casa, bancar a educação dos filhos e também para juntar renda para viver passivamente os mais de 20 anos seguintes”, afirmou.
Na visão de Leoni, a dinâmica nesta etapa de maior geração de renda é puxada, porque praticamente um ano de ganhos é destinado para viver o presente e outro ano de renda para o futuro financeiro, nessa progressão. “É uma fase muito pressionada, e também uma fase com muito potencial de geração de renda”, observa.
Cada fase da vida tem um peso diferente
Como cada fase da vida tem seus próprios desafios, prioridades e responsabilidades, a metodologia da pesquisa também tentou acompanhar isso, ajustando o peso de cada dimensão conforme a faixa etária, tendo em mente que com os anos a capacidade de gerar renda cresce, chega a um pico e decai.
Na prática, os pesos de cada dimensão se invertem ao longo da vida. Gestão orçamentária responde por 29% da nota entre 18 e 24 anos e por apenas 10% depois dos 61. Proteção e seguros sobem de 12% para 30% no mesmo trajeto. E o planejamento de longo prazo, de 15% para 32%.
“Gestão orçamentária é importante ao longo da vida inteira, mas onde ela tem mais peso? No início, porque ali, como a renda ainda é menor, casar a renda com as despesas é fundamental”, afirma Notini.
Já ele destaca que o seguro de bens pesa pouco no começo porque as pessoas ainda estão formando seu patrimônio.
A Planejar ainda não definiu a periodicidade do novo índice, mas espera que a pesquisa seja feita cada dois ou três anos para comparar indicadores. Notini faz a ressalva que o estudo só considera as classes A, B e C, ou seja, não traz dados da população de baixa renda, por tanto, não deve ser lido como um retrato conjunto de todos os brasileiros.