A corrida da IA chega à bolsa – sob pressão por monetização
De SpaceX às gigantes de IA, todas competem pelos mesmos recursos de investidores, que buscam retorno financeiro sobre os gastos bilionários em infraestrutura de IA
A corrida pela liderança na inteligência artificial entrou em uma nova fase — agora no mercado de capitais. A Anthropic saiu na frente e protocolou seu pedido de IPO nos Estados Unidos, antecipando um movimento aguardado da OpenAI e sinalizando o início de uma disputa não só tecnológica, mas também financeira.
O movimento de IPO da Anthopic e da Open AI reflete mais do que o aproveitamento de janelas de mercado. Segundo Stephano Gabriel, analista de global tech do Itaú BBA, há um contexto competitivo no setor. Estima-se que a Anthropic cresce em um ritmo superior ao da OpenAI, gerando mais receita e, ao sair primeiro na corrida do IPO, ela poderá apresentar fundamentos superiores com menor investimento, colocando a abertura de mercado da rival sob risco.
Uma inteligência artificial vai gerir seu dinheiro no futuro?
Pedro Teberga, professor universitário e especialista em negócios digitais, explica que quem estreia antes acaba definindo a régua de como um laboratório de IA reporta os números. “E faz de um jeito conveniente ao próprio negócio. Não existe ainda um padrão contábil para esse tipo de empresa, então o primeiro prospecto público vira referência de fato para analistas, reguladores e rivais”, diz.
Teberga lembra que a Anthropic, antes vista como “azarã”, alcançou um valuation de US$ 965 bilhões após levantar US$ 65 bilhões, superando o valor da OpenAI pela primeira vez.
“Para o mercado, isso sinaliza que a liderança no setor deixou de ser dado e virou disputa aberta. O alerta é que esses dois IPOs podem tanto injetar mais ar quanto furar de vez a bolha de IA, dependendo de como forem precificados”, avalia o especialista.
As estimativas para o mercado de IPOs em 2026 refletem essa concentração estrutural. O Goldman Sachs projetou que as aberturas de capital nos EUA poderiam captar o recorde de US$ 160 bilhões em cerca de 100 operações, impulsionadas pelo setor de tecnologia avançada e IA. Contudo, Teberga alerta que os recursos não estão pulverizados: “Estamos diante de um punhado de unicórnios sustentando a estatística”.
Após ‘promessa’ de IA, investidores cobram lucros
Segundo Teberga, os resultados financeiros do primeiro trimestre de 2026 mostram uma mudança de postura em Wall Street. “Os resultados mostraram que o boom de IA segue vivo, mas os investidores ficaram mais granulares ao separar vencedores e perdedores dentro do próprio trade”, afirma. Para ele, os investidores estão de olho nas companhias que conseguem converter os gastos (capex) em receita daquelas que apenas expandem infraestrutura própria sem retorno imediato.
“Não se trata mais de quem lucrou, porque todas lucraram e muito. O critério virou quem consegue converter o gasto bilionário em receita visível”, avalia.
Na temporada de balanços, a Alphabet (GOOG) trouxe surpresas positivas na receita, com avanço de 2,6%, e no lucro por ação, que aumentou 94,8%. O resultado foi impulsionado pelo Google Cloud e pelo crescimento da monetização nas iniciativas em inteligência artificial. Na análise da XP, o resultado reforçou a tese de que a Alphabet está conseguindo converter o ciclo de investimentos em AI em crescimento tangível de receita e expansão de margens, especialmente via Cloud.
A Meta (META) teve avanço de 1,4% nas receitas e de 57,1% nas ações, impulsionada pelo desempenho nos negócios de publicidade, segundo a XP, cujas receitas com anúncios cresceram 33%. O lucro líquido atingiu US$ 26,8 bilhões. O ponto de atenção nesta empresa, segundo a XP, foi o aumento de 8% na expectativa de capex, que antes estava na faixa de US$ 115-135 bilhões e passou para US$ 125-145 bilhões, refletindo maiores custos de componentes (especialmente memória) e investimento em data centers para amparar a expansão em IA. Na análise da corretora, esta mudança eleva o nível de incerteza sobre os retornos no médio prazo.
A Microsoft (MSFT) reportou aumento de 18,3% na receita e um crescimento de 23,4% no lucro por ação ajustado, puxado pelo Cloud e monetização da IA. Na análise da XP, há pontos de atenção nas margens, que refletem o aumento da depreciação associada aos investimentos em data centers.
A Nvidia (NVDA), considerada “líder do rali da IA”, reportou aumento de 73,2% nas receitas e lucro de 94,8% nas ações. Segundo a XP, isso foi impulsionado pelo aumento acelerado na produção e entrega da nova geração de chips Blackwell e pela demanda robusta por soluções de networking para conectar estes chips em grandes data centers. A XP destaca, no entanto, um risco estrutural para a tese de investimentos na empresa, que é a ausência completa de receita vinda da China. O presidente e CEO da Nvidia, Jensen Huang, havia estimado que a China poderia representar um mercado de US$ 50 bi anuais em aceleradores de AI, segundo relatório da XP. A corretora avalia que esta é uma perda relevante na receita, apesar de ser compensada pelo crescimento em outros mercados.
A Apple (AAPL) reportou alta de 16,6% na receita e avanço no lucro por ação de 21,8%, o que foi considerado pela XP como “o melhor resultado já registrado para os primeiros três meses do ano”, puxado pelas vendas de iPhone 17, com aumento de 22%. A XP destaca que o balanço reforça a resiliência no modelo Apple, mas com “crescente diversificação” de outros produtos e serviços, incluindo a estratégia em IA.
A Amazon (AMZN) reportou aumento de receita de 16,6% e lucro por ação de 74,8%,impulsionado pela aceleração em AWS (a plataforma de computação em nuvem, que teve o crescimento mais forte em 15 trimestres), expansão de margens e forte crescimento no lucro. Segundo a XP, isso reforça a leitura de que investimentos em IA começam a se traduzir em resultados operacionais mais robustos.
Teberga avalia que os resultados colocam a Alphabet como “grande vencedora” e a Meta e Microsoft no “paradoxo do trimestre”. “Elas foram castigadas mesmo entregando bons números. A Meta caiu mais de 8% porque os investidores recearam as promessas de Zuckerberg sobre o retorno de um capex que sobe rápido e é cada vez mais financiado com dívida, enquanto a Microsoft recuou quase 4% ao projetar US$ 190 bilhões de capex, ofuscando a aceleração do Azure, e acumula a pior queda do grupo no ano”, explica.
“Costurando tudo, a tese que eu deixaria registrada é que 2026 marca a virada da era da promessa de IA para a era da cobrança”, diz Teberga.
Ele avalia que o dinheiro continua “jorrando” em IPOs, em lucros e em quase US$ 700 bilhões de capex, mas o mercado passou a discriminar com bisturi quem transforma gasto em receita e quem ainda está apostando.
“E, com Anthropic e OpenAI batendo à porta da bolsa, essa cobrança está prestes a sair dos balanços dos hyperscalers e chegar aos próprios laboratórios de fronteira”, diz.