Eleições 2026: analistas apontam cenário na bolsa, oportunidades e alertas
Cenário até outubro exige seletividade para separar oportunidade de risco em volatilidade pré-eleições
Faltando poucos meses para as eleições presidenciais, o Ibovespa B3 faz um movimento diferente ao que se esperaria de um ano eleitoral e mostra tendência de alta. Um levantamento da Elos Ayta consultoria revela que o principal índice da bolsa brasileira acumula valorização em julho, interrompendo uma sequência de quatro meses consecutivos de perdas iniciadas em março.
Na visão dos analistas ouvidos pelo Bora Investir, a explicação é clara: a eleição ainda não foi precificada pelo mercado.
O estudo da Elos Ayta mostra os extremos. Em janeiro, a bolsa registrou alta de 12,56%, segundo melhor desempenho mensal do Ibovespa desde janeiro de 2020. Já em maio, fechou em queda de 7,22%, pior resultado mensal desde fevereiro de 2023 e o sexto pior desde o começo de 2020.
“O comportamento do Ibovespa em 2026 evidencia a velocidade com que o humor do mercado pode mudar”, afirma Einar Rivero, CEO da Elos Ayta Consultoria. Para ele, a recuperação em julho é importante porque interrompe essa sequência negativa, mas ainda está concentrada em alguns setores.
“Os próximos meses mostrarão se esse movimento representa uma mudança estrutural de tendência ou apenas uma recuperação técnica”, avalia.
As maiores altas do mês se concentram em mineração, petróleo e distribuição de combustíveis, enquanto os setores imobiliário e de proteínas seguem pressionados.
Eleições não precificadas
Para Fernando Bresciani, analista de investimentos do Andbank, quem dita o ritmo da bolsa até o momento é o fluxo estrangeiro, que voltou ao Brasil atraído por ativos baratos. Somente no dia 10 de julho, a entrada de investidores gringos superou R$ 1 bilhão, seguida de outros ingressos nos dias posteriores.
“Na minha avaliação, a eleição ainda não foi precificada. O período eleitoral deve ganhar mais força a partir de meados de agosto, quando o cenário de candidaturas estiver mais definido”, diz Bresciani. Para o analista, a bolsa sobe porque continua barata, recebe novamente fluxo estrangeiro e se aproxima de uma temporada de balanços potencialmente favorável.
Breno Falseti, sócio e gestor da Rubik Capital, partilha o mesmo pensamento. Para ele, a alta da bolsa não representa uma aposta eleitoral do mercado, mas é influenciada por juros e inflação, somado ao retorno do capital externo operando a favor dos ativos de risco.
Falseti lembra que o investidor estrangeiro não atribui ao quadro eleitoral o mesmo peso que o local e que “o prêmio de risco eleitoral tende a se formar mais perto do pleito”.
Já para Artur Horta, head de análise da GTF Capital, o impacto do cenário político na bolsa segue em aberto, com candidaturas ainda não oficializadas e alianças em formação. “Considero cedo afirmar que as eleições já estão totalmente refletidas nos preços das ações. Ainda não existe uma convicção clara sobre quem vencerá o pleito”, avalia.
Nenhum dos analistas consultados pelo Bora Investir vê a vitória de qualquer candidato incorporada às cotações. Eles apontam que o que moverá o mercado não são os nomes escolhidos para o governo, mas as propostas econômicas, sobretudo as fiscais.
Um personagem ausente nesta retomada, o investidor local, pode ganhar protagonismo. Até então, ele se refugiou na renda fixa com uma Selic próxima de 15% ao ano.
Felipe Paletta, analista do Paletta Research, destaca que o investidor estrangeiro dita a direção do mercado, mas este tem respondido mais ao custo de oportunidade internacional do que à política local. “Isso influenciou pouco no comportamento da bolsa brasileira nos últimos 12 a 24 meses”, diz. Mas, segundo os analistas, não dá para omitir a possibilidade de o investidor local só voltar para a bolsa quando parte da valorização das ações já tiver ocorrido.
Até outubro nada está definido. Paletta lembra que olhando historicamente as últimas eleições, a janela de seis meses que antecede as urnas costuma ser mais volátil.
Horta, da GTF Capital, reforça que o mais importante não é o candidato e sim qual será sua equipe econômica e as propostas para encarar os desafios fiscais e econômicos do Brasil.
Bolsa está barata
Todos os especialistas consultados concordam que a bolsa brasileira está barata. Segundo Falseti, da Rubik, olhando para os múltiplos, a bolsa negocia a 8,3 vezes o lucro projetado para 12 meses, uns 20% abaixo da média histórica de 10,5 vezes e longe do S&P 500 que negocia a 22 vezes o seu lucro.
“Esse desconto não é gratuito. Ele reflete o custo de capital elevado, com juros reais entre os mais altos do mundo, e a incerteza fiscal e política”, afirma Falseti.
Setores que são oportunidades
Para quem pretende se posicionar na renda variável apesar da forte volatilidade, os analistas aconselham priorizar setores defensivos e bons pagadores de dividendos, tais como energia elétrica, saneamento, bancos e seguradoras. Neste caso, o famoso ‘arroz com feijão’ se mostra efetivo.
No setor elétrico, Bresciani destaca que há empresas que vêm fazendo reajustes acima da inflação, resultados consistentes e pagamentos relevantes de dividendos. Já para Horta, o setor de construção civil é o mais interessante, principalmente o voltado para programas do Minha Casa, Minha Vida, setor que deve ficar protegido independente do resultado das urnas.
Já Paletta sugere olhar além do índice e garimpar boas oportunidades nas small caps (ações de menor valor de mercado). Para o longo prazo, ele aconselha ter exposição a commodities não agrícolas, como papel e celulose, setores que tendem a performar bem em qualquer cenário.
Setores para olhar com cautela
Apesar de uma possível recuperação da bolsa, setores cíclicos domésticos como varejo, educação, saúde, locadoras de veículos e construtoras de alta e média renda merecem cautela, porque tendem a oscilar até as urnas, avalia Horta. Empresas estatais também podem oscilar bastante.
Outro ponto de atenção seriam empresas muito endividadas, principalmente aquelas que possuem dívida em dólar, ou teses de crescimento penalizadas pelo custo de capital. “São as mais expostas tanto ao aperto das condições financeiras quanto à volatilidade eleitoral, o que exige seletividade”, pontua Falseti, da Rubik Capital.
Para Bresciani, porém, o maior risco não está em um setor específico, mas em antecipar posições mais agressivas antes que o cenário eleitoral esteja definido. Para ele, a entrada em setores como infraestrutura, siderurgia, varejo e construção civil, deveria ser feita gradualmente e com cautela, conforme o quadro fiscal e eleitoral ganhar liquidez.
Os especialistas destacam que oportunidade óbvia não existe sem contrapartida de risco. Mas para todas estas empresas, o corte de juros ainda é uma variável importante, assim como a clareza fiscal que o mercado espera conhecer antes de outubro.