Petroleiras e mineradoras: o que esperar dos gigantes de commodities nos próximos meses?
Com petróleo em alta e minério de ferro chegando no máximo a US$ 100 a tonelada, especialistas destacam o que conta na hora de investir
O segundo trimestre de 2026 foi generoso com as empresas de commodities da B3. As petroleiras encontraram um preço do petróleo brent médio de US$ 104, cerca de 54% acima do ano anterior, e converteram isso em resultados recordes.
A Petrobras quase dobrou o seu lucro, para R$ 52,4 bilhões. As mineradoras tiveram um trimestre operacionalmente forte, com a Vale produzindo o maior volume de minério de ferro para um segundo trimestre desde 2018, mas viram a rentabilidade espremida pelo frete mais caro e pelo real valorizado. Mas para o investidor, o que está no jogo é o que vem pela frente. O Bora Investir consultou especialistas e traz os detalhes:
Como fica o petróleo e seus impactos no setor?
Para Hugo Queiroz, gestor e analista da Soho Capital, o barril brent deve rodar entre US$ 70 e US$ 100 nos próximos meses. “A geopolítica volta a precificar, a impactar, como sempre afetou. Só que o mercado tinha ignorado isso na última década”, afirma.
O outro pilar é a oferta da commodity. Com a OPEP mais fraca e o setor voltando ao combustível fóssil depois de anos de agenda ESG (ambiental, social e governança), Queiroz avalia que faltam reservas e equipamentos. “Vai ter que ter uma nova jornada de exploração e isso vai levar de seis a oito anos. Nesse período, a oferta vai ser bem menor do que a demanda”, diz o gestor.
João Debom, sócio da Supernova Investimentos, lembra que o brent oscilou entre US$ 73 e mais de US$ 100 em 2026, por conta das tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã e do fechamento parcial do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial.
Bancos como o Bank of America projetam um mercado em déficit de petróleo até o quarto trimestre de 2026. “Enquanto o conflito não tiver uma resolução definitiva, o brent deve seguir mais sensível a notícias geopolíticas do que a fundamentos de oferta e demanda, o que significa lucros potencialmente elevados, mas também mais voláteis”, pontua.
Breno Falseti, sócio e gestor da Rubik Capital, também trabalha com preços elevados para o petróleo enquanto a guerra seguir sem desfecho, mas lembra que o conflito encarece frete e insumos e que o lucro proporcionado pela alta da commodity é cíclico. Para ele, a qualidade da empresa aparece quando o prêmio geopolítico sai do preço.
Já Lucas Lima, analista-chefe da VG Research, reforça que o investidor precisa ter cautela e não considerar os lucros das petroleiras registrados no segundo semestre como uma base normal de ganhos.
O que esperar das petroleiras na bolsa de valores?
Com o barril de petróleo ainda elevado, a diferença para a lucratividade de cada petroleira listada na B3 está no custo, execução e no que sobra de caixa para o acionista.
Na Petrobras (PETR4), as vantagens são a escala, a produção em aceleração com as novas plataformas do pré-sal e os R$ 17,4 bilhões em dividendos recém-anunciados. “O risco político é permanente e estrutural, é a razão de a companhia negociar a múltiplos bem inferiores aos das privadas”, avalia Falseti.
Lima acrescenta o capex de investimentos elevado e a política de combustíveis como fator determinante na estatal. “Existe um caminho maior entre o petróleo produzido e o dinheiro que efetivamente chega ao acionista”, destaca o analista da VG.
Na Prio (PRIO3), a vantagem é a execução. Com a produção batendo 190 mil barris diários em julho, com Wahoo entregue e Peregrino recuperado, o custo de extração de US$ 8,9 por barril e alavancagem em 1,5 vez o ebitda. O catalisador dos próximos meses, segundo os especialistas, é a política formal de dividendos que o mercado espera. Os riscos são a concentração em poucos ativos e o imposto de exportação, que consumiu US$ 114 milhões no segundo trimestre e limita a captura da alta do brent.
Na Brava (BRAV3) contam os recordes operacionais, com o quinto trimestre seguido de queda da dívida líquida e o músculo financeiro da Ecopetrol, nova controladora com 51% do capital. “Até a estratégia da Ecopetrol ficar clara, o papel carrega um desconto de incerteza”, avalia Falseti. Somam-se as paradas de manutenção e o hedge de 11 milhões de barris, que limita o aproveitamento do preço alto.
Na PetroReconcavo (RECV3), a vantagem é a previsibilidade. Com operação onshore (plataformas em terra), margem EBITDA de 49%, alavancagem de 1 vez e nenhuma exposição ao imposto de exportação, já que vende no mercado interno.
Em compensação, a produção da Petrorecôncavo segue estável, em torno de 24 mil barris equivalentes por dia. “É uma tese de disciplina e renda, não de crescimento”, cita Falseti.
Enquanto Lima, da VG, alerta sobre o volume parado de petróleo, que pesa nos custos. “Quando o volume cai, o custo por barril sobe porque a estrutura fixa continua praticamente a mesma”, explica.
Queiroz projeta conversão de caixa acima de 70% do EBITDA em todas e prefere Brava e PRIO, seguidas por Petrorecôncavo.
Mineradoras têm impacto de preço e custos
O cenário para o minério de ferro é mais modesto. Falseti comenta que a curva de custo global encareceu com câmbio e energia, de forma que preços muito abaixo de US$ 90 podem retirar oferta da commodity no mercado. Há ainda um teto que pode ser influenciado pelo início das vendas de Simandou, o megaprojeto da Guiné.
Debom projeta o minério de ferro negociando na faixa de entre US$ 90 e US$ 100 por tonelada, ante média de US$ 104 no primeiro semestre. Para ele, a resiliência da commodity é fruto da queda de produção doméstica chinesa, que obrigou as siderúrgicas locais a importar mais e não ocorreu por conta da recuperação de demanda por aço na China.
Falseti pontua que o risco chinês não está relacionado a tarifas. O gestor da Rubik cita que a China não taxa insumos que precisa importar, mas existe risco de poder de barganha. Isso porque há uma centralização das compras em um comprador estatal único, que já conseguiu concessões de preços de grandes produtores.
Já as tarifas ocidentais sobre o aço chinês podem esfriar a produção siderúrgica que consome o minério, na visão dele.
O custo é o outro vetor que pode influenciar. A Vale revisou para cima a sua projeção de custo caixa C1, de entre US$ 20 e US$ 21,5 para US$ 22,5 a US$ 23,5 por tonelada.
E o C1 mede só a operação da mina, lembra Lima. Desta forma, para exportar para a China ainda há o custo do frete marítimo, royalties e distribuição. “Se o minério sobe US$ 5 por tonelada e o frete avança quase na mesma proporção, pouco desse ganho chega ao resultado”, avalia o analista da VG.
O que esperar de Vale e CSN Mineração?
Para os próximos meses, os analistas enxergam vantagens estruturais na Vale (VALE3), com custo baixo na curva global, o melhor trimestre de cobre em nove anos e dividendos semestrais regulares, em torno a R$ 2,03 por ação, além de recompras de ações. Eles também apontam o desconto elevado da mineradora frente as gigantes globais do setor.
Já entre os riscos, os especialistas apontam para o custo de produção revisado para cima e a dependência da China, que está sendo atenuada aos poucos pelo peso crescente do cobre e dos metais básicos no resultado.
Na CSN Mineração (CMIN3), a fragilidade estaria no seu controlador que carrega uma dívida líquida em torno de R$ 40 bilhões. Ou seja, a mineradora é a principal fonte de caixa do conglomerado CSN (CSNA3).
“Os dividendos generosos servem, em parte, à desalavancagem do controlador”, afirma Falseti.
O que observar antes de investir mineradoras e petroleiras
Para o investidor que está pensando em surfar no setor de commodities, os especialistas destacam a curva de custos nas mineradoras, seguida pela qualidade do minério de ferro, a diversificação em metais básicos, balanços da empresa e controladores. Além da disciplina de capital e dos passivos socioambientais.
“Barragens, provisões e licenças são riscos de cauda que já se materializaram no setor”, destaca Falseti.
Lima acrescenta o monitoramento da China, com fatores como produção de aço, setor imobiliário, infraestrutura, importações e estoques, além de frete e câmbio, como fatores que devem ser monitorados.
Debom deixa a dica de separar os ganhos operacionais dos contábeis não recorrentes, na avaliação, por exemplo, um crédito tributário.
Lima destaca que para empresas de commodities o melhor negócio não é necessariamente quem ganha mais quando o minério ou o petróleo sobe e sim quem continua gerando caixa quando estes recuam.
Já em relação as petroleiras, os especialistas aconselham observar o custo de extração. Por exemplo, se a empresa lucra com um Brent a US$ 50 como investimento. “A que precisa de um brent a US$ 80 não tem fundamentos sólidos, é torcida”, pontua Falseti.
Além disso, eles citam a trajetória de produção e reposição de reservas de petróleo, em conjunto com os balanços, política de dividendos e governança corporativa.
Lima, da VG, reforçar que ninguém sabe exatamente qual será o preço do Brent daqui a seis meses, mas dá para monitorar quais empresas continuarão gerando caixa mesmo se o petróleo cair.