Commodities

Petróleo na carteira: timing de compra perdido ou investir faz sentido para o longo prazo?

Analistas enxergam que commodity deve se acomodar nos US$ 70 até final do ano e ainda há espaço para comprar petroleiras baratas

Identificar qual será o novo preço do petróleo virou uma grande incerteza nos últimos meses, com idas e vindas na crise entre Estados Unidos e Irã. Durante a guerra, com o fechamento do Estreito de Ormuz, rota que concentra cerca de 20% do petróleo marítimo global, a cotação do petróleo brent chegou a disparar para mais de US$ 120 em abril. Meses depois, em junho, com um entendimento de cessar-fogo e reabertura do estreito, o barril despencou mais de 10% em uma única semana, retomando o patamar dos US$ 72, menor nível antes do início do conflito.

No dia 29 de junho, a commodity voltou a operar em alta, com informações desencontradas sobre a continuidade das negociações entre EUA e Irã após escalada militar. Com isso o brent para setembro fechou a US$ 73,91 o barril e o petróleo WTI, a US$ 70,75.

O vaivém do petróleo, assim como da guerra, parecem intermináveis. Diante disso, investidores se questionam até onde o preço da commodity pode cair? E o que fazer com as ações de petroleiras? Ainda vale investir?

O Bora Investir consultou alguns especialistas e traz detalhes nesta reportagem.

O novo patamar do Brent para 2026

Entre os analistas consultados pela reportagem há um consenso: o petróleo deve se acomodar no patamar de US$ 70 até dezembro, embora haja divergências sobre qual será o piso da commodity.

Para Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos, uma volta do petróleo aos US$ 60 está descartada. “A cotação não volta aos US$ 60, que era o patamar antes da guerra, porque teve dano à infraestrutura. O que temos entre Estados Unidos e Irã é um acordo ainda. Mas precisávamos ver se vai se concretizar ou não”, comenta.

Segundo Arbetman, são 60 dias para identificar se é possível ter um avanço maior. O analista destaca que o mercado precifica antes e isso justifica um pouco o prêmio na commodity por causa do risco geopolítico de curto prazo. “Voltar ao patamar de 28 de fevereiro, em torno a US$ 60, é complexo”, afirma o analista, que trabalha com projeções para o Brent entre US$ 70 e US$ 80 para 2026.

Artur Horta, head de análise da GTF Capital, tem uma visão semelhante e acredita que a cotação do petróleo vai permanecer na casa dos US$ 70. “Vai demorar um tempo até que o tráfego no Estreito de Ormuz se normalize, cerca de 90 dias. Além disso, vários países vão ter que recompor reservas estratégicas, tanto de petróleo quanto de derivados. Não deve ser uma queda livre para os preços vistos em dezembro e janeiro”, avalia.

Gregorio Nissel, sócio e gestor da Rubik Capital, é o mais cauteloso, projetando Brent entre US$ 65 e US$ 70 ao final de 2026 com viés de baixa. “O ‘novo normal’ não é o pico de guerra e sim a reversão à dinâmica estruturalmente sobreofertada que já existia antes do conflito”, defende.

Para Nissel, o prêmio geopolítico evaporou e resta um cenário frouxo para a commodity, com a Opep+ desmontando cortes voluntários, Iraque pedindo cota maior e Irã retomando as vendas. “Picos pontuais só voltam com recaída em Ormuz ou colapso do cessar-fogo”, afirma o gestor.

Produção pode normalizar no 4º TRI

Consultorias como a Capital Economics projetam que a produção interrompida do petróleo no Golfo Pérsico retomará a níveis pré-conflito no quarto trimestre deste ano. Para os especialistas consultados pelo Bora Investir, a expectativa é coerente.

Nissel alerta que a desminagem de Ormuz (operação militar que visa remover minas navais que ameaçam navios) leva semanas, gerando um gargalo de navios-tanque para escoar o volume adicional de petróleo. Além do fato da EIA (Administração de Informação de Energia dos EUA) não enxergar os estoques da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) retornando ao nível pré-conflito dentro do horizonte de projeção. “O fluxo retorna no quarto trimestre de 2026, mas o reabastecimento de estoques fica para 2027”, aponta o gestor da Rubik.

Horta, da GTF Capital, reforça a importância de monitorar o comportamento da Opep+, que aumentou a produção para compensar o fechamento do estreito de Ormuz. “Mas será que agora, que vários desses países ficaram um tempo sem receita, eles vão querer manter os preços do petróleo muito baixos? A demanda vai acomodar toda essa oferta?”, questiona o analista.

Ainda vale investir em petróleo?

Para os analistas, o petróleo como ativo de longo prazo ainda é interessante, mesmo com a cotação do barril mais barata.

Arbetman, da Ativa, lembra que a Petrobras planejou 2026 em torno de um brent cotado a US$ 63, portanto a companhia segue gerando um bom caixa. Já a Prio tem uma estratégia de lucratividade com o petróleo a partir de US$ 60. “Estamos passando por um recorte nos preços, mas no fim a cotação ainda está acima do que tínhamos antes do conflito entre EUA e Irã”, pontua.

Para Nissel, o investidor precisa enxergar a exposição ao petróleo sob outra ótica. Na visão dele, não se trata do tempo perdido e sim trocar o trade geopolítico por alocação estrutural. “Quem busca capturar um salto com guerra, esse sim já perdeu a janela de compra. Mas para uma carteira de longo prazo, petróleo não é uma aposta de timing e sim exposição a um ativo real, correlacionado com choques de oferta e inflação, que auxilia na diversificação da carteira”, defende.

Segundo o gestor da Rubik, o ponto de entrada no petróleo melhorou, após o barril cair quase 40% desde o pico em 2026. “Mas é importante não apostar na direção da cotação do barril e sim em companhias de baixo custo que geram caixa e remuneram o acionista mesmo com o petróleo na faixa de US$ 65 a US$ 70”, destaca. Para Nissel, o foco passa a ser em geração de caixa resiliente e dividendos.

Horta lembra ainda que existe uma função anticíclica das commodities em uma carteira de investimentos. “Empresas sem dívidas, com margens de lucro altas, são geradoras de caixa e possuem um componente anticíclico relevante”, afirma. O motivo é que se o petróleo está caindo, outras ações da bolsa estão subindo. Mas em períodos de choque de oferta, como aconteceu com o Irã, ter uma petroleira no portfólio pode segurar bastante a rentabilidade da carteira, na visão do analista.

Petroleiras para valorização ou dividendos?

Para os analistas, boa parte da queda do petróleo já foi precificada nas petroleiras da bolsa. Segundo Horta, as companhias já registraram um segundo trimestre forte, mas o terceiro deve vir em linha com o que o mercado já esperava antes do conflito.

Ele cita a Petrobras (PETR4) como a mais resiliente do grupo, com um dividend yield (retorno em dividendos) de 12% para os próximos 12 meses. “Antes do conflito, o esperado era a Petrobras pagar apenas 9%”, pontua.

Arbetman já trabalha com um dividend yield de 8%, mesmo com a questão política que deve impactar a estatal além de incertezas com a política de combustíveis da companhia. Enquanto Nissel projeta um retorno em dividendos na casa dos 8,5%.

No caso da Prio (PRIO3), que trabalha com exploração e produção pura e é mais exposta à cotação do petróleo brent, os analistas enxergam como foco a valorização das ações. Mesmo tendo o menor custo de produção, cerca de US$ 9,5 o barril, o dividend yield projetado é baixo, de 4%.

Nissel, da Rubik, lembra que a Prio prioriza crescimento e recompra de ações. Recentemente, a petroleira recomprou até 10% dos seus papéis. Além de ter no radar, avanços e sinergias nos campos de Wahoo e Peregrino.

Entre as petroleiras, a que oferece maior retorno em dividendos é a Petrorecôncavo (RECV3), na casa de 11%. O motivo é que a companhia está descontada e parte do mau humor do mercado com volumes mais fracos de produção já está embutida no preço. Além disso, por ser uma empresa madura e trabalhar onshore (exploração em terra firme), tem menos dívida e forte receita dolarizada.

Horta projeta um dividend yield de 8% para RECV3 nos próximos 12 meses.

Já a Brava (BRAV3) não sente apenas os impactos do preço do brent nas ações, e sim a possível OPA iniciada pela Ecopetrol. Segundo Arbetman, é importante o investidor ter cuidado diante desse possível fechamento de capital, dado que a Ecopetrol já possui 26% das ações da companhia e pode comprar mais 25% a um preço fixo. “Isso tem mexido mais na ação do que os fundamentos dela”, alerta.

Na Rubik, a projeção de dividend yield para Brava é de 2,5% para os próximos 12 meses.

Outros investimentos para se expor ao petróleo

Ter ações de petroleiras não é a única forma de diversificar a carteira se expondo a commodity.

Na bolsa brasileira, o investidor pode ter acesso a alguns BDRs (recibos de ações estrangeiras), sem precisar ter conta no exterior. Nissel, da Rubik, cita o BIYE39, BDR do iShares US Energy, que tem as petroleiras Exxon e Chevron como maiores posições.

Também é possível investir nos recibos de ações da Exxon (EXXO34) e da Chevron (CHVX34) diretamente, além da ConocoPhilips (COPH34).

O gestor cita ainda alguns ETFs (fundos que replicam índices), que podem ser comprados via corretora internacionais, tais como XLE (de energia ampla), XOP (focado em exploração e produção mais volátil) e OIH (com empresas de serviços e perfuração).

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