Commodities

Das lavouras à B3: As oportunidades de investimentos no agro e as perspectivas para o setor

Agronegócio apresenta potencial de crescimento no mercado de capitais, mas enfrenta desafios ligados à inadimplência e às mudanças climáticas

Vitor Guedes, especial para o Bora Investir
Um dos principais índices ligados ao agronegócio, o Futuro Boi Gordo (BGI) foi o líder absoluto no ranking de valorização da B3 no primeiro semestre de 2026, com um ganho de 16,38% no período. O indicador, que abrange contratos futuros atrelados ao preço da arroba do boi, é um dos destaques dentro do segmento agro na bolsa brasileira, que tem apresentado uma presença cada vez maior dentro do universo dos investimentos.

Por meio de títulos como CRAs, LCAs; além de ETFs e Fiagros, o investidor consegue montar uma carteira ampla, que contenha tanto ativos de renda fixa quanto de renda variável, o que permite uma maior diversificação e contribui para mitigar riscos.

Apesar do potencial econômico, especialmente pelo peso que o agro representa para o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, respondendo por cerca de ¼ do montante total, esse setor se depara com alguns desafios pela frente, como a alta inadimplência, os impasses regulatórios e os efeitos ocasionados pelas mudanças climáticas.

Diante dessa dicotomia, é possível considerar o investimento em ativos ligados ao agro um bom negócio no longo prazo, ou um potencial risco de perdas futuras?

Capacidade de expansão

As principais análises do mercado apontam que o agronegócio é um setor em plena expansão e com uma participação cada vez maior dentro do mercado de capitais nacional.

Conforme dados da própria B3, o estoque de Cédulas de Produto Rural (CPRs) superou o montante de R$ 474 bilhões em junho deste ano, enquanto as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) ultrapassaram a casa dos R$ 560 bilhões.

Já os Fiagros, que representam cotas de investimento em ativos ligados ao agro, atingiram a marca de 600 mil investidores no primeiro semestre deste ano, com um total de R$ 8,3 bilhões em emissões no mesmo período. Desde o início do ano, essa classe de investimento tem registrado uma recuperação significativa após um período de baixa, estimulada pelo maior apetite por novos investimentos no setor em meio à baixa oferta de crédito.

O relatório “A Transformação do Financiamento dо Agronegócio Brasileiro”, divulgado no mês de junho pela FGV Agro, aponta que o agronegócio possui uma demanda anual de recursos estimada em R$ 1,2 trilhão, uma cifra muito acima dos recursos atualmente disponibilizados pelo setor público, o que possibilitaria uma maior margem para participação de capital privado neste ramo, englobando também as modalidades de investimento ligadas ao agro.

O fator clima e outros desafios

Ao mesmo tempo, o agro precisa lidar com questões próprias e um desafio externo ainda maior: as mudanças climáticas em curso no planeta.

A ocorrência de eventos cada vez mais extremos, como enchentes, estiagens e tempestades, impacta as lavouras e provoca reflexos nos ativos atrelados à cadeia do agronegócio.

Tal reação já pode ser vista nas projeções feitas em relação ao futuro das commodities nos próximos meses, em razão dos efeitos do El Niño, que podem ocasionar aumento de custos na produção e perdas.

A análise da FGV Agro destaca que o fator climático contribui para acentuar a incerteza na esfera dos investimentos atrelados ao agro, já bastante impactados pelo risco de crédito e questões regulatórias enfrentadas pelo setor.

Gabriel Cintra, sócio da Eleva Invest, cita que o agro, de fato, enfrenta obstáculos ligados à inadimplência e às mudanças climáticas, mas descarta que o setor seja menos atrativo ou com menor potencial por conta dessas circunstâncias.

“O agro passa por uma fase desafiadora diante da alta taxa de juros no Brasil, já que é um setor demandador de crédito. As empresas menos alavancadas tendem a se favorecer em termos de competitividade no atual cenário. Já o El Niño é um fator de risco já que pode gerar secas e riscos para a produção de grãos.”

“Mas, à medida que esses riscos sejam dispersados, acreditamos que exista uma oportunidade bem grande para o agro brasileiro, dadas as condições territoriais e as vantagens competitivas para a produção agrícola, com a demanda crescente por alimentos no mundo”, acrescenta.

O futuro dos investimentos no agronegócio

Em razão das alterações climáticas, o mercado enxerga o ramo das finanças sustentáveis como uma opção promissora entre os investimentos ligados ao agronegócio, em meio a um contexto em que ativos ligados à sustentabilidade tenderão a ganhar cada vez mais importância.

A FGV Agro aponta que o mercado de carbono tem capacidade para ser um dos principais pilares de atração de investimentos, mas ainda esbarra em entraves regulatórios e na volatilidade de preços.

Já Cintra menciona que esse mercado dependerá, sobretudo, da atuação de órgãos fiscalizadores para deixar de ser somente uma promessa e se consolidar como uma alternativa viável de ativo sustentável.

“O mercado de crédito de carbono surge como um vetor promissor. Atualmente, ele funciona predominantemente como um mercado de balcão não regulado, mas há movimentações ativas no Legislativo e no Executivo para a criação de uma estrutura oficial e organizada”, afirma.

“[A partir disso] Novos produtos financeiros focados em sustentabilidade tendem a emergir, desde que instituições como a CVM e o Banco Central acompanhem o processo, estabelecendo regras claras.”

Isso poderia ampliar a oferta de ativos ligados a critérios ESG (sigla em inglês para ambiental, social e de governança), como a Cédula de Produto Rural Verde (CPR Verde), um título voltado ao financiamento de atividades ligadas à preservação e à recuperação de biomas e áreas verdes. 

Para Cintra, a atuação do poder público por meio de ajustes de legislação e concessão de subsídios é um fator que pode impulsionar essa classe de ativos dentro do mercado de capitais brasileiro, o que pode auxiliar tais modalidades a se tornarem opções concretas para o investidor no longo prazo.

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