Criptoativos

Brasil lidera adoção de criptoativos, mas mercado ainda busca maturidade

País movimentou US$ 252,5 bilhões em cripto nos últimos 12 meses, enquanto mercado segue buscando consolidação e expansão de ofertas em bolsa 

O Brasil atingiu em 2026 a liderança global na adoção de criptoativos, conforme um estudo divulgado recentemente pela Chainalysis, empresa focada na análise do setor ao redor do mundo.

Conforme a edição deste ano do Geography of Cryptocurrency Report, a economia cripto movimentou cerca de US$ 252,5 bilhões nos últimos 12 meses em solo brasileiro. O montante é suficiente para colocar o Brasil no topo de uma lista de 117 países analisados na pesquisa.

A análise aponta que o país, apesar de não liderar em nenhuma métrica individual, se sobressai no ranking geral por conta da manutenção de um desempenho consistente em relação ao seu tamanho de mercado, especialmente em um momento em que o ciclo de baixa limitou o crescimento global e afetou os mercados mais tradicionais, como os Estados Unidos.

Mercado brasileiro amplia escala em cripto

Um dos fatores que ajudam a explicar esse salto do Brasil no ranking é a adoção mais ampla dos criptoativos dentro de diferentes setores da economia nacional. Basicamente, eles estariam deixando a posição de categoria nichada para assumir um papel maior dentro da estrutura econômica geral.

Ao mesmo tempo, não é exatamente como se o mercado brasileiro já tivesse chegado a um grau de maturidade. Ele tem avançado a passos largos, mas ainda carece de um ambiente regulatório que consiga capturar esse momento de ascensão.

“O país reúne algumas características difíceis de encontrar simultaneamente em outros mercados: um sistema financeiro muito digitalizado, uma população habituada a novos meios de pagamento, instituições financeiras tecnicamente sofisticadas, um mercado de capitais relevante e um ambiente regulatório que vem incorporando os ativos digitais ao sistema financeiro tradicional”, explica o CEO da BBChain, André Carneiro

“Isso cria condições para o Brasil deixar de ser apenas um grande consumidor de cripto e se tornar um produtor de infraestrutura financeira baseada em ativos digitais. A própria B3 vem destacando que a próxima etapa da tokenização depende menos de simplesmente criar tokens e muito mais de construir infraestrutura capaz de dar escala, interoperabilidade, segurança jurídica e eficiência de liquidação a esses ativos”, acrescenta.

O avanço do setor cripto é marcado por um fortalecimento das stablecoins ao longo dos últimos anos. Segundo dados compilados pela Receita Federal brasileira por meio da plataforma DeCripto, as stablecoins, no período entre agosto de 2019 e dezembro de 2025, teriam movimentado um total de R$ 1,13 trilhão (71%) em operações de compra e venda dentro do setor cripto, cujo montante total foi de R$ 1,58 trilhão no período.

O órgão, porém, destaca um crescimento vertiginoso do setor a partir de 2020 e sublinha que, nos anos mais recentes, o percentual de participação das stablecoins se aproximou da casa dos 80% em volume mensal, tendo apresentado um pico de 94,3% em julho de 2023.

As stablecoins são uma vertente diferenciada dentro do universo das criptomoedas. Ao contrário de outras moedas, incluindo as principais do mercado, como o Bitcoin e o Ethereum, as stablecoins, em grande parte, possuem lastro em ativos reais, seja em moedas como dólar e euro ou em commodities como ouro e petróleo, por exemplo.

O projeto Drex

Concebido justamente com a prerrogativa de modernizar a infraestrutura financeira e os meios de pagamento no Brasil, o Drex é um projeto criado pelo Banco Central (BC) para ser a moeda digital oficial do país, atrelada ao real e com funcionamento análogo às criptomoedas (apesar de não ser uma). Ainda assim, essa proposta esbarra em dificuldades para sair do papel.

No ano passado, o BC chegou a desligar a plataforma de testes do Drex, ao alegar problemas relacionados à privacidade e também aos custos. O projeto não foi oficialmente cancelado, mas passou por reformulações após uma série de impasses técnicos nessa fase inicial de testes.

“O Drex perdeu centralidade no desenvolvimento do mercado, mas não necessariamente relevância. O que mudou, é que provavelmente não devemos mais imaginar, e que toda a economia tokenizada brasileira precisará nascer dentro de uma única infraestrutura pública”, afirma Carneiro, ao mencionar o avanço do mercado privado no cenário nacional.

“Nesse cenário, talvez o papel mais importante de uma infraestrutura pública seja garantir confiança, liquidação e interoperabilidade entre esses ambientes”, acrescenta.

Avanço dos criptoativos na B3

A expansão do mercado de criptoativos também chegou à B3. Na bolsa brasileira, o investidor encontra produtos que permitem uma maior exposição ao universo cripto por meio da infraestrutura do mercado de capitais nacional.

Dentre as alternativas possíveis, uma que tem apresentado rápida expansão é o segmento de Exchange Traded Funds (ETFs). Essa classe inclui produtos como o BITH11, que busca replicar o desempenho do Bitcoin; o ETHE11, ligado ao Ethereum, ou mesmo o HASH11, que acompanha o índice Nasdaq CME Crypto Index e oferece exposição a uma cesta diversificada de criptoativos.

Outra opção é o contrato futuro de Bitcoin, que também usa como base um índice do Nasdaq, o Bitcoin Reference Price (NQBTC), e que oferece a possibilidade de negociar o preço da criptomoeda sem a necessidade de uma aquisição direta do ativo. Na B3, o valor de cada contrato é equivalente a 0,1 bitcoin, ou 10% do valor da criptomoeda em reais.

Para o investidor, a expansão dessa oferta amplia as formas de acessar o mercado de criptoativos por meio da infraestrutura tradicional do mercado de capitais brasileiro.

“Nos próximos cinco anos, acredito que vamos falar cada vez menos de ‘cripto’ como uma indústria isolada. Stablecoins começarão a aparecer dentro de pagamentos e operações internacionais. Ativos tokenizados passarão a conviver com os mercados tradicionais. Custódia de ativos digitais será incorporada aos serviços financeiros. E blockchain tenderá a se tornar uma camada de infraestrutura que muitas vezes estará invisível para o usuário”, diz Carneiro. 

“Para chegar lá, o Brasil precisa combinar três coisas: regulação previsível, infraestrutura interoperável e casos de uso que resolvam problemas econômicos reais.  O país já mostrou que consegue criar infraestruturas financeiras de escala. O Pix é provavelmente o melhor exemplo disso”, conclui.

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