Cripto em tempos de incerteza: o que avaliar antes de investir
Volatilidade, perfil de risco e horizonte de investimento são fatores importantes para aqueles que avaliam incluir criptoativos na carteira de investimentos
Vitor Guedes, especial para o Bora Investir
Incerteza global, guerra no Oriente Médio, taxas de juros ainda muito elevadas no Brasil. Não é novidade que a conjuntura macroeconômica dos últimos meses tem sido marcada por uma volatilidade persistente, o que tende a afastar o investidor das classes de ativos de maior risco, como os criptoativos.
Afinal, em um momento marcado pela instabilidade, investir nessa modalidade é realmente uma exposição desproporcional à possibilidade de ganhos?
Para os especialistas consultados pelo Bora Investir, o uso da modalidade cripto dependerá sobretudo de fatores como perfil do investidor, disposição ao risco e objetivos no longo prazo. Isso porque, tal como os demais produtos de renda variável, os criptoativos são mais impactados no curto prazo pelo contexto macroeconômico.
Ricardo Dantas, CEO da Foxbit, afirma que, apesar da aversão ao risco no curto prazo, dado o panorama instável, o setor cripto segue avançando em aspectos importantes, como a participação de grandes investidores, evolução da tecnologia blockchain e criação de novos produtos.
“Para quem possui perfil e horizonte adequados, uma exposição controlada pode contribuir para a diversificação e potencial de valorização no longo prazo. O ponto central é que o retorno potencial maior vem acompanhado de risco e volatilidade maiores”, declara Dantas.
“Portanto, não enxergamos uma perda da tese num período prolongado, mas um ambiente em que o investidor precisa ter ainda mais disciplina e entender que movimentos bruscos continuarão fazendo parte dessa classe de ativos”, acrescenta.
Já Guilherme Sacamone, CEO da OKX no Brasil, ressalta a função de hedge associada aos criptoativos, que tende a ganhar novos contornos em face de um contexto macro turbulento.
“Uma parte relevante do volume cripto no país não vem de especulação, mas de pessoas e empresas usando dólar digital como proteção cambial e como infraestrutura de pagamento mais eficiente. Isso muda a leitura do setor e mostra que ambientes de incerteza fiscal e juros altos não necessariamente afastam a cripto. Pelo contrário, podem acelerar casos de uso específicos que fazem sentido exatamente nesses contextos”, diz.
“Os ativos digitais são globais, acessíveis e não estão vinculados ao sistema financeiro de um único país. Isso não os torna imunes à volatilidade, mas pode torná-los uma parte importante da conversa mais ampla sobre diversificação de portfólio, acesso financeiro e resiliência”, acrescenta.
Derrota no Senado aumenta incerteza regulatória nos EUA
Nesta semana, os principais criptoativos sofreram uma baixa após o travamento de um projeto de lei, o Clarity Act, que visava criar um marco regulatório para a classe nos Estados Unidos. O projeto foi rejeitado no Senado americano após uma votação apertada de 50 votos contrários ante 49 favoráveis. A legislação precisava de um total de 60 votos favoráveis para avançar na tramitação.
Logo após o revés nesta terça-feira (15), alguns dos principais criptoativos sofreram quedas em suas cotações. O Bitcoin, o Ethereum e a Binance Coin recuaram em mais de 4% na comparação com a última semana, por exemplo.
Isso porque, na prática, a decisão do Senado significa que o setor seguirá sendo regulado primariamente por iniciativas da Securities and Exchange Commission (SEC), uma equivalente americana da Comissão de Valores Mobiliários; e da Commodity Futures Trading Commission (CFTC). Essa regulação, contudo, é menos sólida em comparação a um marco geral, e também mais suscetível a mudanças em gestões futuras.
O resultado foi lamentado por grandes players do setor, que apontaram a necessidade de regulação especialmente para um mercado altamente volátil e ainda muito associado a fraudes e esquemas de pirâmide.
“Essa derrota dói. Nossa equipe deu tudo de si para que o Clarity Act fosse aprovado. Assim como a maior parte do setor”, afirmou Brad Garlinghouse, CEO da Ripple Labs. “No fim, os consumidores e a competitividade dos EUA ficaram para trás”, acrescentou.
Alex Blume, CEO da Two Prime, declarou que o travamento do Clarity Act coloca uma pedra sobre qualquer possibilidade de legislação definitiva para os criptoativos no curto prazo, e chamou atenção para a possibilidade de fuga de capital no mercado americano.
“Para aqueles que trabalham no setor com intenções honestas e em empresas regulamentadas, a persistência da falta de legislação demonstra a contínua incapacidade do governo de fornecer regras claras para aqueles que as desejam. Como consequência, estamos cedendo terreno para outras economias avançadas e regimes regulatórios frouxos, permitindo o desenvolvimento de práticas que podem não estar alinhadas aos interesses das empresas americanas.”
Apesar disso, Garlinghouse, Blume e outros players do setor destacaram a importância da SEC e da CFTC enquanto ainda não há um marco regulatório definitivo. De modo geral, o mercado também vislumbra a possibilidade do projeto ser retomado no futuro.
A posição do Bitcoin como ‘ouro digital’
A narrativa de que o Bitcoin seria o “ouro digital”, por sua capacidade de funcionar como um hedge, é um aspecto que também pode chamar atenção do investidor. Entretanto, é preciso levar em conta alguns aspectos inerentes ao ativo que não desaparecem por conta de uma maior robustez.
“O Bitcoin possui algumas características que sustentam a tese de ‘ouro digital’, principalmente sua oferta limitada, natureza global e independência de uma autoridade monetária central. Mas seu comportamento de mercado ainda é diferente do ouro”, explica Dantas, da Foxbit.
“Em diversos episódios recentes de aversão ao risco, o Bitcoin apresentou correlação maior com ativos de risco e tecnologia do que com aqueles considerados defensivos. Ou seja, não se pode afirmar que ele é 100% blindado contra crises. O que vemos, na verdade, é um processo de longo prazo de amadurecimento, ganho de liquidez, participação institucional e uma base mais ampla de investidores, que pode fortalecer sua função como reserva digital de valor”, acrescenta.
Sacamone pontua que, num primeiro momento, os criptoativos tendem a se comportar como outras classes de alto risco, sendo suscetíveis a choques externos derivados do cenário macroeconômico. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento tecnológico do setor, o que inclui a descentralização e a criação de novos produtos, pode jogar a favor desses ativos.
“O Bitcoin e outros ativos digitais têm características que os tornam atraentes: acessibilidade global, infraestrutura descentralizada, modelos de oferta limitados ou transparentes em alguns casos e independência em relação a qualquer mercado nacional específico. É por isso que alguns investidores comparam cada vez mais o Bitcoin ao ouro como uma possível reserva de valor de longo prazo.”
A hora de investir em cripto é agora?
Para os especialistas, o consenso é que não existe um momento certo para começar a investir em cripto. Antes de pensar num momento, é preciso ponderar o perfil de cada investidor e a compatibilidade dessa modalidade com a carteira de investimentos.
“Os investidores não precisam mais pensar em cripto apenas pela ótica da compra de tokens individuais. Hoje existem diferentes formas de obter exposição, incluindo stablecoins, ativos do mundo real tokenizados e outros produtos que podem se adequar a diferentes perfis de risco. Para novos investidores, educação, exposição gradual e diversificação podem ser mais importantes do que tentar acertar o momento perfeito de entrada no mercado”, afirma Sacamone.
“Para quem está começando, considero mais importante discutir a forma de entrada do que tentar descobrir o momento perfeito. Aportes menores, recorrentes e distribuídos ao longo do tempo reduzem a dependência de acertar um único preço de entrada”, diz Dantas.
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“O investidor também não precisa começar buscando os ativos de maior risco do mercado. Bitcoin e outros ativos mais consolidados podem ser uma porta de entrada para entender a dinâmica dessa classe antes de aumentar a exposição. O fundamental é começar com um valor compatível com o próprio perfil e que não comprometa a reserva financeira ou os objetivos de curto prazo”, acrescenta.