Criptoativos

Quais os riscos das memecoins? Entenda o mercado das criptomoedas inspiradas em memes

Essa classe de criptoativos é marcada por picos de valorização e alta volatilidade de mercado

Vitor Guedes, especial para o Bora Investir
Uma criptomoeda concebida com base em memes e outras trends da internet, de caráter especulativo e com volatilidade galopante: o conceito das memecoins ganhou notoriedade nos últimos anos, após o boom da Dogecoin durante o período da pandemia. A moeda, criada em 2013, simbolizada pela imagem viral do cão “desconfiado” da raça Shiba Inu, registrou um pico de valorização após o bilionário Elon Musk promovê-la em suas redes sociais em 2021.

Em seu auge, a Dogecoin gerou um retorno acima dos 8.000% para investidores. Nos últimos anos, porém, ela tem apresentado extrema volatilidade e, atualmente, é negociada por valores muito abaixo do pico de 2021, ainda que seja considerada uma memecoin relativamente estável. Isso acontece porque os picos de valorização dessa classe de ativos ocorrem por meio de gatilhos externos, como um meme, umatrend” nas redes sociais ou mesmo a divulgação por parte de alguém famoso, como Elon Musk. 

“É comum que uma memecoin passe por um movimento conhecido como pump and dump: o ativo é promovido intensamente, atrai compradores e, depois, seus criadores ou grandes detentores vendem suas posições, fazendo o preço despencar”, explica Rocelo Lopes, chefe global de moedas digitais da Rezolve AI e CEO da Truther.

Passado o pico, essas moedas tendem a perder praticamente todo o seu valor de mercado após a euforia inicial, o que as torna um item de alta volatilidade e baixa liquidez, com possibilidades remotas de revalorização no longo prazo.

Vale investir em memecoins em circunstâncias específicas?

Em geral, o investimento nessas criptomoedas é desaconselhado, por seu perfil especulativo e, principalmente, pela falta de uma utilização prática associada a esses tokens: é precisamente esse segundo fator que diferencia as memecoins em relação às criptomoedas consolidadas, como o Bitcoin e o Ethereum, que possuem uma função bem definida dentro do sistema blockchain.

“O Bitcoin, por exemplo, é amplamente utilizado como reserva de valor e ativo de investimento. Já o Ethereum possui uma função operacional: sua moeda nativa é utilizada para pagar as taxas da rede e executar contratos inteligentes (smart contracts). O mesmo acontece em outras blockchains, nas quais a moeda nativa é necessária para movimentar tokens e utilizar a infraestrutura da rede”, afirma Lopes.

Embora exista possibilidade de retorno, os ganhos nesse tipo de investimento se dão de forma meramente circunstancial, proporcionado pelos picos de popularidade fomentados por agentes externos. Por isso, elas não são consideradas um investimento recomendável devido a uma série de fatores, que incluem a falta de utilidade prática, a natureza especulativa e volátil e a origem desses ativos, já que qualquer pessoa pode criar sua própria memecoin e inseri-la no mercado.

“Uma memecoin pode ganhar valor caso esteja associada a uma comunidade muito forte, a um jogo, a um projeto específico ou até mesmo a algum benefício exclusivo para seus detentores. Historicamente, porém, poucos casos tiveram sucesso duradouro”, afirma Lopes, ao citar a Dogecoin como um exemplo de token que conseguiu, de certa forma, estabelecer uma comunidade sólida na internet.

“Na maioria das vezes, quem compra uma memecoin busca aproveitar um movimento rápido de valorização, sabendo que o ativo pode perder valor tão rapidamente quanto subiu. Por isso, é uma estratégia que exige muita cautela”, acrescenta.

Interesse político nas memecoins

Assim como no caso de Elon Musk, algumas celebridades e mesmo políticos tentaram surfar no “hype” das memecoins. 

No ano passado, às vésperas de retornar à Casa Branca, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou o token $TRUMP, que teve um salto meteórico em valor de mercado logo após seu lançamento. Cerca de um ano e meio depois, o ativo acumula queda de mais de 90%, além de perda para muitos investidores. 

Uma história similar ocorreu na Argentina: em fevereiro de 2025, o presidente Javier Milei divulgou, em uma publicação no X, uma criptomoeda de nome $LIBRA, que seria parte de um projeto mais amplo de financiamento no país. A moeda atingiu um pico de valorização, seguida de uma queda abrupta, e causou prejuízo a investidores, bem como a deflagração de uma investigação judicial contra o líder argentino. 

Um terceiro caso emblemático ocorreu na República Centro-Africana: o governo decidiu lançar uma memecoin, a $CAR, como meio para impulsionar a economia local. A intenção, porém, gerou críticas por parte da comunidade cripto internacional e suspeitas em relação ao projeto.

“Quando uma personalidade lança uma memecoin, normalmente ela busca criar uma comunidade em torno daquele ativo, oferecendo benefícios exclusivos aos detentores, como no caso de Trump”, pontua Rocelo Lopes, ao ressaltar que esse modelo não se restringe a políticos, podendo ser replicado por artistas, atletas e influenciadores.

Essa integração com o universo cripto permite a essas pessoas a formação de comunidades, a fim de gerar capital social e lucro, o que é considerado conflito de interesses no caso dos governantes. 

Como investir em cripto com segurança

Para os que almejam adentrar no mundo das criptomoedas, as principais recomendações envolvem uma avaliação do histórico do ativo, a fim de identificar fatores como a intenção do projeto por trás da moeda, se ela está listada nas principais corretoras ou se há possíveis ressalvas quanto à regularidade ou sinais de especulação.

“O primeiro passo é entender que o mercado de criptomoedas é altamente volátil. Por isso, quem está começando deve investir apenas valores que esteja disposto a deixar investidos no longo prazo e buscar conhecimento antes de diversificar. Uma boa estratégia é começar pelas mais consolidadas, como o Bitcoin, realizando aportes pequenos e recorrentes enquanto aprende sobre o mercado”, aconselha Lopes.

Observar a utilidade do projeto, a liquidez e a origem do token são igualmente importantes para evitar possíveis armadilhas especulativas.

“O mais importante é estudar antes de investir e evitar decisões baseadas apenas em modismos ou em promessas de ganhos rápidos.”

O investidor pode adquirir criptoativos mesmo dentro da B3, por meio de ETFs (Exchange Traded Funds) ligados a criptoativos, além de Opções e contratos futuros atrelados às principais moedas, como Bitcoin, Solana e Ethereum, recentemente adotados pela bolsa de valores brasileira.

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