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Com Copom e Fed na contramão, especialistas avaliam que pesa mais nos mercados o tom dos comunicados do que a decisão de juros

Confira o que esperar da Super Quarta e os efeitos na economia, câmbio e investimentos

Nesta quarta-feira (16), Brasil e Estados Unidos tomam decisões sobra a taxa de juros, mas que podem apresentar direções opostas. No Brasil, o mercado já precifica novo corte da Selic, de 14% para 13,75% ao ano. Nos Estados Unidos, cresceu a expectativa de que o Fed (Federal Reserve, banco central americano) eleve a taxa básica, hoje entre 3,5% e 3,75%, em 0,25 ponto percentual, o que levaria a taxa à faixa de 3,75% a 4% ao ano.  

Com os ciclos monetários indo em sentidos contrários, os investidores ficam atentos aos desfechos e impactos na economia e nas aplicações. O Bora Investir consultou especialistas e traz detalhes do que esperar.  

O que esperar da Selic 

A aposta majoritária é de nova redução da Selic, taxa básica de juros da economia brasileira, pela quinta vez consecutiva. “Começamos o ano com a Selic em 15% e, se a expectativa se confirmar, encerraremos a semana em 13,75% ao ano”, afirma André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica. 

O corte já está amplamente digerido no mercado. Segundo Arthur Muller, sócio da Cordier Investimentos, o Boletim Focus da última segunda-feira (14) já projetou a Selic encerrando 2026 em 13,75%. “Isso sugere que o mercado já trabalha com a possibilidade de este ser o último corte de juros do ciclo, ao menos até termos maior clareza sobre o cenário eleitoral”, avalia.  

Restam ainda duas reuniões do Copom neste ano, em novembro e dezembro. A curva de juros de longo prazo já reflete boa parte disso, segundo Muller. Os juros DI para janeiro de 2027 rodavam no fim de agosto em 13,62%, abaixo da Selic atual. Segundo o especialista, isso sinaliza que a decisão desta quarta-feira deve ter impacto próximo de zero nos mercados.  

Para Muller, o comunicado e ata do Copom, previstos para 22 de setembro, devem pesar mais sobre os ativos do mercado do que a decisão em si.  

Apesar do corte, Galhardo destaca que o movimento não deve produzir mudanças relevantes na economia real no curto prazo. “A taxa de juros na ponta, aquela que chega ao consumidor e às empresas, permanece elevada em função do aumento da inadimplência, do maior endividamento das famílias e dos riscos aos quais os bancos estão expostos”, explica.  

Para Galhardo, isso obriga os bancos a constituir reservas maiores e restringir o crédito. “A queda da Selic não se traduz, por ora, em crédito mais barato”, observa. 

E os juros americanos? 

Em relação aos juros dos EUA, o cenário é de maior incerteza. A probabilidade de alta cresceu na última semana e o mercado trabalha majoritariamente com ajuste de 0,25 ponto percentual, com os juros entre 3,75% a 4% ao ano. A inflação ao consumidor de agosto de 3,4% reforçou essa expectativa.  

Muller estima em 92% a probabilidade precificada pelo mercado. Ainda assim, Kevin Warsh, que assumiu a presidência do Fed em maio, não deu sinalização clara sobre o próximo passo. “Não se pode descartar a manutenção dos juros no patamar atual. Há bastante incerteza embutida, e o tom do comunicado tende a importar mais do que o movimento em si”, avalia. 

Treasury perto de 5% muda a régua para o investidor global 

Por trás das direções opostas que os bancos centrais do Brasil e dos EUA podem assumir, um movimento específico tem chamado a atenção dos especialistas. É o fato de o rendimento do Treasury de 10 anos ter superado 5% nesta semana, chegando ao maior nível desde 2007. 

Para Marcel Cahen, diretor regional para a América Latina da GTN, essa é a peça mais importante do cenário atual. “O Treasury de 10 anos próximo de 5% muda a referência de retorno para praticamente todas as outras classes de ativos. Não é simplesmente o investidor preferir renda fixa americana a bolsa brasileira ou mercados emergentes. O ponto é que o custo de oportunidade mudou”, defende.  

Segundo Cahen, quando um ativo em dólar com essa liquidez passa a pagar um retorno dessa magnitude, o prêmio exigido para assumir risco de crédito, equity, câmbio ou menor liquidez tende a subir. 

Para o especialista, isso se transmite para o custo de capital, valuations (avaliação) e decisões de alocação ao redor do mundo. Contudo, na visão de Cahen, isso não se traduz em uma fuga simples do investidor para os EUA. “Fundos de ações americanas registram saídas relevantes, enquanto fundos de renda fixa seguem recebendo recursos. É um capital que permanece em dólar, mas muda de posição dentro do mercado americano”, afirma.  

Para o investidor brasileiro, Cahen avalia que o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos segue relevante, mas já não é o protagonista da história. “À medida que esse diferencial diminui, a consistência dos fundamentos domésticos ganha peso maior na decisão de alocação internacional”, aponta.  

No câmbio, o efeito deve ser limitado 

Observando fatores macroeconômicos, Galhardo, da Análise Econômica, acredita que mesmo com a possível alta de juros nos EUA, não teremos impactos fortes sobre o real. O motivo, na visão dele, é que o mercado já precificou boa parte deste momento, e mesmo com calibração da Selic, a taxa real de juros brasileira segue entre as mais altas do mundo, o que continua atraindo capital.  

Galhardo cita também o reordenamento geopolítico global, que tem tornado o Brasil porto seguro também para o capital produtivo. No entanto, faz a ressalva que o cenário pode mudar rapidamente. “Por ora, é relativamente benigno para a moeda brasileira”, avalia o economista.  

Já o economista do Banco Braza, Gustavo Bevilacqua, chama atenção para o ambiente externo mais apertado. A persistência das pressões inflacionárias nos Estados Unidos, especialmente diante da alta do petróleo, aumenta a chance de postura mais restritiva do Fed, o que tende a pressionar os Treasuries e o dólar globalmente, reduzindo a atratividade dos ativos emergentes e comprimindo o diferencial de juros favorável ao Brasil. 

“Nesse cenário, mesmo com cortes da Selic, a curva de juros brasileira pode encontrar dificuldade para fechar de forma mais consistente”, avalia. Para ele, um Fed mais brando (dovish) e um Copom que preserva espaço para novos cortes pode favorecer a queda mais consistente dos juros futuros.  

O economista defende que mais importante do que a decisão isolada será a sinalização dos bancos centrais sobre os próximos passos.  

O que muda para os investimentos 

Para Volnei Eyng, CEO da Multiplike, a renda fixa brasileira segue atrativa porque os juros no país ainda estão em patamar elevado. Já na bolsa de valores, o ambiente pede mais cautela, porque os preços dos ativos acompanham a trajetória dos juros no Brasil e as condições no mercado internacional.  

Segundo Eyng, a queda da Selic favorece consumo, investimentos e crédito, mas o efeito não é imediato, nem uniforme entre as linhas de crédito. 

O especialista aconselha o investidor observar se o ciclo de cortes pode ter continuidade no Brasil e se nos EUA a alta será pontual ou o início de uma postura mais restritiva. “É essa combinação que poderá definir o comportamento do câmbio, dos investimentos e das condições de crédito nos próximos meses”, avalia.

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