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Investimento por familiaridade: segurança ou armadilha?

Estudos da literatura financeira e especialistas apontam linha tênue entre investir na zona de conforto e deixar passar boas oportunidades de investimento

Investir em empresas conhecidas, cujos produtos ou serviços são consumidos pelo investidor, ou naquele setor em que existe uma familiaridade, seja por área de atuação, estudo ou outros fatores. Esse tipo de comportamento é conhecido como “viés de familiaridade”, em que as decisões são primordialmente tomadas visando uma zona de conforto: aquilo que é próximo ou conhecido. O desconhecido, por sua vez, aparece como algo estranho e arriscado. 

Dentro da literatura financeira, existem estudos que apontam o impacto desse investimento por familiaridade dentro da carteira de investimentos, geralmente associados à limitação do portfólio e perda de boas oportunidades, em especial por conta da sensação de segurança associada a esse raciocínio. 

O conceito de viés de familiaridade dialoga com a Teoria do Prospecto, tese formulada pelos psicólogos Daniel Kahneman (que ganhou o Nobel de Economia em 2002) e Amos Tversky, que visa explicar a assimetria entre ganhos e perdas financeiras. 

Sob essa ótica, o medo de perder adquire uma carga muito maior, em que a projeção de perdas financeiras soa mais alarmante do que um ganho na mesma proporção. No campo dos investimentos, esse modus operandi desencadeia uma aversão a riscos, um receio de perdas financeiras e um apego irracional àquilo que é conhecido. 

A vantagem inicial dessa familiaridade é ter o benefício de avaliar melhor o ativo. Por outro lado, o problema principal vinculado a isso é a concentração do portfólio e as perdas de benefícios associados à diversificação, explica o economista e professor do Insper Eduardo Marinho. 

A economia comportamental aponta ainda uma associação entre o viés de familiaridade e fatores como o excesso de autoconfiança por parte do investidor e o viés de confirmação, que consiste em um tipo de comportamento vinculado à negação de erros e outras características negativas. 

Isso pode resultar em casos como um apego irracional a investimentos que não vão bem, ou cujas projeções não são favoráveis, mas que se mantêm dentro do portfólio por representarem uma zona de conforto do investidor. 

Flávia Ávila, economista comportamental e CEO do InBehavior Lab, destaca que essa combinação de fatores faz com que esse investidor tenha certa resistência em enxergar momentos de disrupção no mercado ou mesmo mudanças estruturais. 

Gatilho mental em situações turbulentas 

Uma outra teoria desenvolvida por Daniel Kahneman diz respeito ao chamado processamento dual da mente humana. Segundo ele, existem dois sistemas que atuam diretamente sobre o padrão de comportamento. 

O Sistema 1 seria o piloto automático, ativado de forma instantânea e involuntária para ações rápidas do dia a dia, mas também para reflexos rápidos em momentos de perigo ou ameaça. Já o Sistema 2 é um mecanismo mais lento e analítico, que opera de forma voluntária para resolver questões mais complexas. 

Enquanto o segundo possui a desvantagem de consumir muita energia, devido ao esforço mental associado, o primeiro é frequentemente associado aos vieses cognitivos e atalhos mentais. 

No universo dos investimentos, isso ocorre, por exemplo, diante de um cenário macroeconômico marcado por instabilidade ou quando existe pânico ou euforia generalizada associada à queda ou subida de determinado ativo. 

Familiaridade como estratégia racional 

Afinal, ter familiaridade com um setor e decidir investir nele é algo categoricamente negativo? Esse atributo, quando usado com parcimônia, pode apresentar determinadas vantagens associadas ao conhecimento prévio do investidor sobre um ativo. 

Um dos principais exemplos de investidor que usava o viés de familiaridade a seu favor foi Warren Buffett. Ao longo de sua trajetória, Buffett usou desse conceito para criar aquilo que chamou de círculo de competência. 

No longo prazo, essa estratégia proporcionou uma vantagem competitiva ao portfólio de Buffett, permitindo a construção de um patrimônio sólido e mais protegido contra riscos. 

Para o investidor comum, é importante considerar o perfil de investimento, metas de curto, médio e longo prazo, bem como uma composição focada em asset allocation, que possibilite colher os benefícios de um portfólio diversificado. 
 

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