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Recuperação da bolsa depende mais do cenário externo que interno, diz Sara Delfim, da Dahlia

Ao Bora Investir, sócia e gestora da Dahlia Capital aponta o tripé necessário para que o Ibovespa volte a se recuperar e o que deve nortear o investimento em ações agora

Sara Delfim, gestora da Dahlia Capital. Foto: Divulgação
Sara Delfim, gestora da Dahlia Capital. Foto: Divulgação

Por Marília Almeida

A Dahlia Capital é uma gestora que não pode ser dar ao luxo de navegar apenas pela renda fixa em um cenário desafiador para a renda variável, composto por juros e inflação alta aqui e no exterior. Seus fundos multimercado são obrigados a ter uma exposição relevante em ações, ainda que possa investir em outros ativos, como moedas e juros.

Mas apesar de atualmente estar sua exposição à bolsa brasileira estar baixa, a Dahlia ainda tem 40% de seu fundo investido em ações nacionais. Afinal, não é porque o momento é desafiador que o papel de uma empresa necessariamente irá passar por momentos ruins, diz Sara Delfim, sócia e gestora da Dahlia Capital. “Com juros alto e incertezas sobre os próximos passos da política monetária, a economia desacelera. Mas existem empresas e segmentos que não necessariamente vão desacelerar também”.

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Isso porque alguns papéis são mais defensivos, enquanto outros até mesmo se beneficiam desse momento de crise, pois tomam o espaço de empresa que passam por dificuldades. Um exemplo são os concorrentes da Americanas. “Ainda que os juros altos preocupam e afetam o desempenho dos varejistas, acreditamos que o risco e retorno de ações do segmento compense em alguns casos”.

E o que falta para o mercado de ações se recuperar? Para a gestora, o crescimento do país depende muito mais do cenário externo do que o interno. “Os investidores tendem a atribuir muito peso ao cenário interno para a recuperação da bolsa. É claro que ele influencia, mas grande parte dos movimentos são determinados pelo cenário global”.

Sócia da Dahlia desde 2018, Sara Delfim tem mais de 20 anos de experiência na análise de empresas. Atuou em bancos de investimentos como Bear Stearns e Bank of America Merryl Lynch. Ao Bora Investir, ela explica como a gestora está navegando pela bolsa agora. Acompanhe abaixo a entrevista:

Bora Investir – Como você analisa o mercado acionário em um cenário tão desafiador, de inflação e juros altos aqui e lá fora?

Sara Delfim – Atualmente a nossa exposição ao mercado é baixa, pois existem desafios a serem vencidos e acreditamos que haja um período de volatilidade à frente.

O tema da nossa carta de abril, intitulada tudo ao mesmo tempo em todo lugar, em referência ao filme que ganhou o Oscar neste ano, é que precisam acontecer três coisas ao mesmo tempo ou pelo menos próximas para que o cenário melhore: o Brasil parar de subir os juros, o Fed (BC americano) parar de subir os juros; e a China atingir sua meta de crescer 5% no ano, após estímulos feitos.

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Em outubro de 2002 a carta ao povo brasileiro escrita pelo presidente Lula foi divulgada quando a bolsa estava na mínima. Coincidentemente, o Fed parou de subir os juros. Resultado: a bolsa teve 135% de alta e foi a reboque de uma expectativa melhor sobre a economia americana. No começo de 2016 novamente o Ibovespa bateu sua mínima até que a bolsa subiu em dólar 70% não por ações de Dilma, mas por conta do boom global de commodities.

É importante analisar a performance da bolsa nacional e lá fora em dólar para verificar que os movimentos coincidem. muito determinados por China e pelos Estados Unidos.

O juro americano é o grande guia para preços dos ativos no mundo e acreditamos que está perto de parar o seu ciclo de alta. Dados mais recentes da economia americana mostram que, de fato, ela está desacelerando, o que sinaliza que o remédio está surtindo efeito.

Bora Investir – Os sinais que o novo governo vem emitindo está dissipando incertezas? 

Sara Delfim – A nova regra fiscal não é perfeita, assim como o teto de gastos criado em 2017 não era. Esperamos que o Congresso vá realizar alguns ajustes, mas a direção foi dada e o governo aceitou ter controle sobre os gastos: isso era o mais importante. Portanto, a interpretação geral é positiva: temos uma proteção.

Sobre a discussão da independência do Banco Central, o Congresso já respondeu que é algo intocável. O governo mencionou em retirar sua responsabilidade sobre gastos, o Lira (presidente da Câmara) disse que não era bem assim e que o governo precisava, sim, ter responsabilidade.

No final, na economia o Brasil segue sendo um aluno nota 6: passa raspando, mas passa. Se continuar assim, e o mundo ajudar, será uma boa combinação para a recuperação da bolsa.

Bora Investir – O que vem guiando o investimento da Dahlia em ações?

Sara Delfim – Acompanhamos papéis do varejo de alta renda, que são menos sensíveis aos juros. As empresas que atuam no segmento vendem produtos com marca, mais caros. Esses produtos conseguem repassar custos mais altos porque o poder de compra de seu consumidor está preservado: ele tem poupança no CDI. Como resultado, essas empresas vêm reportando resultado sólidos, mesmo no cenário atual.

Outros segmentos que tendem a ir bem são os bancos, que ganham mais dinheiro com os juros altos, e empresas do setor elétrico, que têm demanda inelástica com alta ou queda do PIB, pois têm tarifas reguladas.

A crise mais recente pela qual o país havia passado, a recessão de 2015, afetou muito o setor privado e, como agora, os preços das empresas foram dizimados na época. Houve uma contração de quase 10% do PIB, compatível com uma guerra. Os juros também estavam altíssimos no final do governo de Dilma Rousseff.

Naquela época as empresas sofreram muito e viram a morte de perto. Mas a partir daí investiram em tecnologia, cortaram custos, melhoraram processos e renegociaram boa parte de suas dividas. Até que veio o bull market, em 2018, quando o Ibovespa subiu 15%.

Ou seja, tem de ter estômago para acompanhar as oscilações do mercado. Para tornar essa tarefa mais fácil, a recomendação é ter uma carteira defensiva e diversificada de empresas que resistem aos altos e baixos da economia. Quando for a hora de o mercado de ações se recuperar novamente, sabemos que há um potencial enorme de que essa alta seja puxada por ações de empresas boas, que conhecemos bem.

Bora Investir – A recuperação da China chama atenção. Pode ser interessante olhar para empresas que se beneficiam desse cenário?

Sara Delfim – Na China os indicadores de crédito e liquidez estão crescendo de forma consistente. O país é muito importante para países emergentes por conta das commodities. Portanto, a recuperação do país pode beneficiar empresas exportadoras de matérias-primas.

Bora Investir – O mercado de ações americano perdeu atratividade, com a desvalorização de ações de tecnologia? Ou ainda há bons cases de empresas que devem ser monitorados pelo investidor?

Sara Delfim – Nesta crise o índice S&P continua negociando aos 4 mil pontos, perto de sua média histórica. Isso acontece mesmo com reabertura da economia após a pandemia, guerra na Ucrânia, choque do petróleo e juros subindo no país e do mundo, além de ações de tecnologia cortando seu guidance.

Contudo, não temos exposição à bolsa americana desde o início do ciclo de aumento dos juros pelo Fed. Mas estamos acompanhando o mercado para aumentar a nossa exposição em bolsa aqui e lá fora.

Lá fora temos atualmente uma posição em empresas do México. Acreditamos que uma eventual recessão nos Estados Unidos afete pouco o país. Isso porque muitas empresas estão saindo da China e escolhem o México para sediá-las, por estar próximo aos Estados Unidos.

Bora Investir – Como a crise de crédito afeta a bolsa? Muitas empresas com problemas em debêntures também têm ações

Sara Delfim – Quando começa um ciclo de alta dos juros é necessário analisar os balanços e verificar se as empresas da carteira estão muito alavancadas ou precisam se refinanciar no curto prazo. Essas duas características podem acender uma luz amarela.

Se uma empresa está muito alavancada será necessário precificar um risco maior do papel e estas ações devem cair mais do que a média de outros setores. Já se precisa apenas se refinanciar no curto prazo vai precisar de crédito, mas ele estará mais caro. Então, será necessário precificar um custo de captação maior no papel, que também irá se desvalorizar.

Mas se está difícil para empresas que estão na bolsa, que são maiores, quem dirá para as empresas que estão fora dela, médias e pequenas. É mais difícil competir com as grandes empresas nesses momentos. Portanto, a tendência é que, mesmo com alguns problemas, as líderes de cada segmento sobrevivam e saiam fortalecidas. Ou seja, não irá ter quebradeira de empresas na bolsa. A crise é limitada.

Bora Investir – A Dahlia lançou recentemente fundos de previdência com foco em ações. É um bom momento para entrar no produto?

Sara Delfim – Se o objetivo é investir no longo prazo, para a aposentadoria, acreditamos que faz sentido aproveitar para começar a investir em um período de baixa das ações.

Ainda há um estigma sobre o produto, mas a regulação mudou, e os produtos lançados caminharam juntos com ela. Hoje temos um fundo de previdência multimercado com foco em ações. Dessa forma o investidor consegue adicionar mais risco à sua carteira e ter possibilidade de obter ganhos maiores, além de benefício fiscais.

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