O que é produtividade e por que ela ganhou importância no debate econômico
Debate sobre produtividade ganhou força especialmente em meio à discussão sobre o fim da escala 6x1
Vitor Guedes, especial para o Bora Investir
Não é raro escutar, ao falar sobre macroeconomia, que um dos principais gargalos econômicos do Brasil é decorrente da “baixa produtividade” do país, especialmente em comparação às nações mais ricas do planeta. Mas, na prática, o que significa ser um país pouco produtivo?
De forma bem simplificada, a produtividade diz respeito a quanto um trabalhador de determinado país consegue produzir por cada hora trabalhada. Segundo dados compilados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), o trabalhador brasileiro produziu, em média, o equivalente a US$ 21 por hora trabalhada em 2025.
A título de comparação, isso coloca o país em um patamar significativamente abaixo das economias desenvolvidas, como Estados Unidos (US$ 81,8), Europa Ocidental (US$ 83), o grupo do G7 (US$ 74,6); e em desvantagem mesmo na comparação com outras nações em desenvolvimento como Argentina (US$ 33,8), Irã (US$ 23,6) e África do Sul (US$ 22,8).
Com efeito, isso indica que o Brasil possui menor capacidade de impulsionar o crescimento econômico, especialmente no longo prazo, e de aumentar o padrão de vida dentro do país, já que a capacidade de produção tende a refletir, por exemplo, uma otimização na alocação de recursos e também melhores salários.
Um problema mais estrutural e menos individual
Conforme o ganhador do Nobel de Economia Paul Krugman, a produtividade “não é tudo, mas a longo prazo, é quase tudo”, ao mencionar a capacidade que esse atributo tem de aumentar o padrão de vida da população.
Porém, em que exatamente o Brasil tem errado no que tange à produtividade? Essa é uma questão que não suscita resposta simples, pois perpassa por um contexto mais amplo, marcado por desindustrialização, burocracia e alta carga tributária que minam as perspectivas de crescimento.
“O baixo capital humano, a má alocação de recursos, quando o governo interfere para ajudar setores que não são os mais produtivos, tirando recursos daqueles mais produtivos. Esse dado é o resultado de uma série de fatores”, explica o economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do FGV-Ibre.
Nesse sentido, o economista menciona que não dá para responsabilizar simplesmente o trabalhador ou o empresário brasileiro, que também sofrem as consequências de um ambiente de negócios pouco favorável e do processo de desindustrialização do país.
Um reflexo direto desses entraves é a alta da informalidade no Brasil, que também é acentuada por indivíduos com ensino superior que têm dificuldade para conseguir empregos em suas respectivas áreas, apesar de ainda ser liderada por aqueles com menor nível de escolaridade.
“É um sinal claro de má alocação de recursos e, muitas vezes, fruto do baixo acúmulo de capital físico, no sentido de que, para trabalhar como engenheiro, por exemplo, você precisa de uma economia que esteja disposta a construir mais prédios”, afirma Filho.
A produtividade e o dilema da escala 6×1
O debate em torno da produtividade do brasileiro ganhou força principalmente com as discussões em torno do fim da escala 6×1, cuja Proposta de Emenda à Constituição (PEC 221/2019) segue em tramitação no Senado Federal.
Os setores que defendem o fim dessa jornada argumentam que um melhor equilíbrio entre trabalho e vida pessoal pode aumentar a produtividade no longo prazo, em paralelo à melhora da qualidade de vida do trabalhador. Enquanto isso, os que argumentam contra apontam que a redução da jornada deverá pressionar uma economia que já é muito burocrática e pouco produtiva.
O economista e professor Luiz Gonzaga Belluzzo ressalta que, nesse aspecto, não dá para isolar a produtividade como variável sem levar em consideração as condições de trabalho.
“Ao contrário do que o senso comum pode pensar, separar o indivíduo do resto da sociedade não funciona. Em uma economia capitalista, industrial e financeira, isso simplesmente não é possível, porque se cai no erro de medir produtividade sem considerar as conexões que fazem parte da atividade do trabalhador”, destaca Belluzzo.
“Isso leva ao raciocínio de que a produtividade é culpa do próprio trabalhador, que é mal formado, o que é prejudicial, de fato, mas, ao final, o que se precisa entender é de que modo essa economia industrial e de serviços pode se organizar para reverter esse quadro”, acrescenta.
Filho, por sua vez, ressalta que seria preciso, numa eventual redução de jornadas, um aumento da produtividade por hora capaz de compensar a diminuição das horas trabalhadas.
“Na literatura sobre o assunto, ainda não foi visto um diagnóstico de que a baixa produtividade do trabalho no Brasil é por sobreutilização. Pode ser uma questão para aqueles com carga horária acima de determinado limite, e nesses casos pode ocorrer ganho em produtividade. Mas se a produtividade permanecer X em tantas horas trabalhadas, em menos horas haverá um resultado menor.”
Desafios no longo prazo
Para os especialistas, os desafios relacionados à baixa produtividade acompanham a própria desindustrialização e um crescimento econômico que não reflete a capacidade total do país.
“Há anos a economia brasileira cresce abaixo do seu potencial. É preciso definir metas, e considerar o conjunto da obra. Por exemplo, a agricultura: ela tem se modernizado bastante, com o uso de tratores e de novas tecnologias. Desse modo, é ingênuo pensar nela como um setor isolado, ela é interligada à indústria, ao setor de serviços, ao desenvolvimento da ciência”, analisa Belluzzo.
O desenvolvimento de setores que geram mão de obra especializada possibilitaria, ademais, um incremento em setores especializados, com emprego formal, que possui uma maior capacidade produtiva agregada em comparação ao trabalho informal.
“Diferentes atividades vão gerar graus de produtividade distintos, e há uma diferença entre a produtividade formal e informal. Em geral, o setor formal é mais produtivo do que o setor informal, pois no setor formal existe mais capital por trabalhador, uma estrutura melhor, na qual o trabalhador consegue ser mais produtivo”, destaca Filho.
O debate em torno da produtividade se torna ainda mais crucial em face do envelhecimento da população. As projeções apontam para uma redução, ao longo dos próximos anos e décadas, da população economicamente ativa do Brasil.
“O Brasil passou do bônus demográfico e agora vai entrar no ônus demográfico. A população em idade produtiva vai diminuir. O que isso significa? Que para aumentar o produto per capita, a gente vai ter que conseguir fazer com que o trabalhador seja mais produtivo, basicamente produzir mais com os mesmos recursos, o que vai depender de um conjunto de fatores, não é simplesmente estalar o dedo ou fazer uma modificação que vai gerar os ganhos necessários”, acrescenta o economista do FGV-Ibre.