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PIB brasileiro pode surpreender novamente em 2024, diz Marcelo Fonseca

Resultado de 2023, que será divulgado amanhã, deve ser de crescimento de 3%, acima do que mercado esperava um ano atrás

Marcelo Fonseca, economista-chefe da Reag Investimentos. Foto: Divulgação
Marcelo Fonseca, economista-chefe da Reag Investimentos. Foto: Divulgação

Nos últimos anos, o PIB brasileiro vem surpreendendo os economistas e o mercado para cima. Para o ano de 2023, resultado que será conhecido nesta sexta-feira (1º/03), a expectativa é de crescimento de 3%, muito superior ao 0,8% esperado pelos economistas no início do ano passado, segundo o relatório Focus.

O bom desempenho do agronegócio foi o principal fator a explicar a surpresa, mas não o único. O desemprego caiu a níveis vistos pela última vez em 2014. O consumo das famílias acelerou mais do que o esperado, o que deu sustento ao setor de serviços. Na esteira do bom desempenho do ano passado, as perspectivas para 2024 também são positivas.

Segundo Marcelo Fonseca, economista-chefe da Reag Investimentos, o mercado já começa a revisar suas expectativas para algo em torno de 2%. Para ele, esse número pode se tornar um consenso.

Em entrevista ao Bora Investir, Fonseca comentou o desempenho da economia no ano passado e as perspectivas para 2024. Falou também dos riscos externos vindos da China e dos Estados Unidos, e sobre o que poderia impulsionar o crescimento brasileiro no longo prazo. Confira!

Bora Investir: O resultado do PIB de 2023 será conhecido na sexta-feira (1º/03) e a expectativa do mercado é de um crescimento perto de 3%, bem acima do que a gente esperava no começo do ano passado. Tivemos um resultado forte do agro, mas foi a única surpresa?

Marcelo Fonseca: A surpresa principal, sem dúvida nenhuma, foi a do agro. Mas não foi só. Acho que o outro principal diferencial foi o efeito da expansão fiscal produzida pela aprovação da PEC da transição, que permitiu um aumento de gastos e transferências da ordem de R$ 200 bilhões. Isso promoveu um estímulo enorme para a demanda agregada, principalmente o consumo das famílias, o que beneficiou em particular o setor de serviços.

O desempenho do mercado de trabalho também refletiu esse ambiente econômico, esse aquecimento da economia. Quando analisamos, a taxa de desemprego caiu muito além do que se pensava. Na verdade, a gente vinha de um ambiente de política monetária apertada, se esperava até uma elevação da taxa de desemprego, com um desaquecimento dos rendimentos. De forma geral, a gente viu justamente o contrário e eu acho que a principal determinante para isso foi a expansão dos gastos.

Bora Investir: Eu ia perguntar exatamente da dinâmica do mercado de trabalho. Tivemos essa queda do desemprego, a taxa média de 2023 foi a menor desde 2014, e como você falou, isso não seria esperado com uma taxa de juros tão alta. De que forma esse mercado de trabalho mais forte tem se comunicado com outras variáveis macroeconômicas?

Fonseca: De uns meses para cá a gente vê uma maior resiliência da inflação de serviços. A inflação como um todo vem se comportando muito bem, o efeito climático, juntamente com a super safra ajudou bastante na queda do preço dos alimentos. Você tem um processo de queda de preços industriais no mundo, com um ambiente surpreendentemente benigno para o preço do petróleo, e também a normalização das cadeias produtivas que ajudaram muito a recuperação da produção e da oferta de bens manufaturados. Isso ajudou muito a inflação.

O lado dos serviços tem uma dinâmica um pouco destoante disso. A gente vê na verdade, há algumas leituras, a inflação de serviços surpreendendo para cima. Isso tem sim a ver com esse contexto que eu mencionei aqui, que é o de uma economia mais aquecida do que se esperava, em grande medida com o mercado de trabalho apertado e recuperação dos rendimentos. Isso tem uma comunicação direta com a dinâmica da inflação de serviços e a raiz de tudo isso é essa expansão fiscal. Então, sim, a inflação é um termômetro que está consistente com esse quadro, principalmente a inflação de serviços.

Bora Investir: Estamos em um momento de queda de taxas de juros e existe um atraso para que isso chegue na economia. Essa queda de juros já começa a ser sentida de forma mais acentuada?

Fonseca: Já, eu acho que o principal termômetro é que o crédito já começa a responder ao movimento todo de corte de juros do BCB. Isso tem se transmitido já nos últimos meses para o crédito na ponta, na queda da taxa de empréstimo, das operações bancárias, a gente também, concomitante com esse desempenho legal da economia, enxerga uma redução da inadimplência.

Isso permite que os banco aliviem, de uma certa forma, os critérios para as concessões e, com isso, já se nota uma retomada das novas operações, das novas concessões. Então, já há, sim, uma transmissão visível para a ponta, para, digamos, o lado real da economia, desse processo de queda.

Bora Investir: E isso pode trazer novas surpresas para cima da atividade econômica?

Fonseca: Eu acho que sim. Eu acho que a gente está num processo de revisão das estimativas do PIB para 2024. Por exemplo, eu já tenho uma projeção que o PIB deve superar, em 2024, o patamar de 2%. Talvez a gente veja esse número se tornar, se já não é, um consenso aí entre a maioria dos economistas.

Bora Investir: Olhando também para a perspectiva de risco em 2024, tivemos no começo do ano problemas no mercado acionário da China. Como isso pode afetar o Brasil?

Fonseca: A China está numa situação bastante delicada. A economia tem demonstrado um esgotamento do modelo de crescimento que foi utilizado nesses últimos anos, muito concentrado na infraestrutura, principalmente construção residencial. E a gente viu já os sinais de que esse modelo se esgotou, com os problemas de crédito que começaram a surgir nos últimos dois anos entre diversos gigantes da área de incorporação imobiliária.

A dificuldade agora é fazer a transição para o modelo de maior participação do consumo doméstico, dos serviços, maior valor adicionado na indústria. Então, essa transição coloca desafios, principalmente quando você tem um governo que adotou uma postura muito intervencionista, que tem afugentado boa parte do capital estrangeiro.

Além disso, há um meio geopolítico de sanções econômicas bastante duras, ou pelo menos restrições de acesso a algumas tecnologias de ponta, por parte dos Estados Unidos. A China certamente vai ter dificuldade de fazer essa transição. O risco é você ter novas decepções nos números de crescimento, desapontando, inclusive, as projeções mais conservadoras.

Bora Investir: Do lado dos Estados Unidos, também temos outro fator importante, que é o Fed precisar retardar o início da taxa de juros. Como isso afeta o Brasil? Isso acaba reduzindo o espaço para o BC brasileiro cortar juros?

Fonseca: No contexto em que a economia está muito aquecida, é um cenário parecido com esse que eu descrevi aqui no Brasil, só que mais intenso, com um crescimento muito robusto, mercado de trabalho muito apertado. O risco é a inflação voltar a subir, o que obrigaria o Fed a repensar toda essa ideia de começar a cortar os juros em breve. Esse é o outro risco principal.

Eu ainda acho que o Fed vai acabar cortando os juros, mais tarde do que se pensava, talvez em algum momento no segundo semestre.

Acho que o BC tem um ambiente favorável para cortar os juros. A inflação está caindo, e o BC vai acabar entregando uma Selic talvez um pouco abaixo de 9%. Se o Fed vier a cortar os juros, o que provavelmente fará, acho que não tem muita discussão em relação a essa trajetória para a Selic, a menos que aconteça aí uma coisa muito surpreendente. O BC está, de certa forma, bem posicionado, não tem motivo para mudar tão cedo a estratégia.

Bora Investir: E no cenário doméstico, quais os riscos?

Fonseca: Aqui dentro é a mesma história de sempre. A questão fiscal continua muito delicada. Para 2024 a gente tem ainda a contribuição de algumas receitas que não são recorrentes, que vão ajudar no resultado primário deste ano. Mas a dinâmica de médio prazo é muito preocupante e a estratégia de você recuperar os saldos primários exclusivamente por meio de aumento das receitas não para de pé. Em algum momento a discussão sobre controle dos gastos públicos terá de voltar para valer. Infelizmente a gente não tem perspectiva disso no curto prazo.

Hoje esse risco está de certa forma adormecido. Os mercados decidiram deixar isso de stand-by, em grande medida porque o cenário internacional ainda está muito bem-vindo. A perspectiva de corte de juros do FED ajuda a colocar esses problemas para debaixo do tapete.

O risco é que sempre o cenário muda, e às vezes muda para pior. Alguma mudança no cenário global que faça os investidores voltarem a olhar para as fragilidades [do país], e aí essa questão fiscal deve voltar à tona e com tudo. Esse é o principal risco.

Bora Investir: O PIB do Brasil tem surpreendido para cima nos últimos anos. O que ainda falta para o País crescer mais?

Fonseca: O crescimento potencial do Brasil é baixo. Acho que o lado positivo é que, em função de todas as reformas que foram feitas desde 2015, parece que o crescimento potencial melhorou. Tivemos mudança no crédito subsidiado do BNDES, que permitiu uma maior alocação privada do capital com mais eficiência. Tivemos ainda a reforma trabalhista, o marco de concessões, que viabilizou investimentos bastante significativos em infraestrutura e, agora, com o novo marco do saneamento, acho que você tem uma perspectiva muito favorável.

Mas as coisas são incrementais, não dão salto. Se a gente achava que o crescimento potencial era mais perto de 1%, hoje talvez seja um pouco acima de 1,5%. Ainda é muito baixo, como você falou. O que a gente precisa fazer é continuar insistindo na agenda de reformas.

A reforma tributária foi uma grande surpresa. Os efeitos dela vão ser bastante defasados no tempo, mas isso não deixa de ser positivo.

Acho que precisamos voltar a pensar em reformas que melhorem o ambiente de negócios e reduzam as incertezas jurídicas para dar mais fôlego ao setor privado de investir, ter mais poupança para financiar os investimentos de longo prazo. São coisas em várias áreas, desde o microeconômico até o regulatório. E, sem dúvida nenhuma, será preciso mexer nesse abacaxi que é a dinâmica dos gastos públicos.

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