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Investe em ações? Conheça os fundos ativistas e como podem te ajudar

Conheça como atuam a Trígono, Tarpon Capital, IP, Dynamo, Tempo Capital e também grandes investidores pessoas físicas, como Luiz Barsi e Nelson Tanure.

Werner Roger, sócio da Trígono Capital
Werner Roger, sócio da Trígono Capital

Por Marília Almeida

Imagine que você tem uma ação de uma empresa e, de repente, aparece a equipe de uma gestora de um fundo pedindo sua procuração para votar por você na assembleia dos acionistas. O motivo? Eles desejam obter o quórum mínimo para conseguir eleger um conselheiro fiscal, que possa acompanhar de perto a gestão, fiscalizando e ajudando a mudar seus rumos.

Esse é o modo como agem os gestores da Trígono, um dos fundos ativistas em operação no país. Eles se somam a outras gestores, como a Tarpon, IP Capital, Dynamo, Tempo Capital e também a grandes investidores pessoas físicas, via fundos próprios, como Luiz Barsi e Nelson Tanure.

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Mas será que o investidor pessoa física deve confiar sua participação e voto a esses gestores profissionais? O que é necessário avaliar? Conheça abaixo como surgiu os fundos ativistas e o que ponderar ao ser abordado por um deles:

Majoritários x minoritários

Quando existe uma sociedade por ações, é comum que o dono das ações não esteja diretamente ligado ao dia a dia da empresa. Esse cenário gera o chamado conflito de agência, uma teoria criada na década de 70 que aponta que quem está gerenciando negócios, os agentes, não necessariamente têm os mesmos objetivos do acionistas. Isso, naturalmente, gera embates.

Contudo, no Brasil, esse conflito é diferente, pois boa parte das empresas abertas na bolsa são geridas por acionistas majoritários, aponta Ricardo Ratner Rochman, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGVcef). “Portanto, no Brasil esse conflito não é entre acionistas e gestores, mas sim entre acionistas minoritários e majoritários”.

Mudanças no mercado incentivam atuação

Pedro Teixeira, sócio da área societária do Rolim Goulart Cardoso Advogados, aponta que o ativismo em fundos ainda é uma prática incipiente no Brasil, diferente de países onde o mercado de capitais é mais desenvolvido, como os Estados Unidos.

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Contudo, mudanças estruturais que vêm acontecendo no mercado, como mais empresas com capital pulverizado sendo listadas na bolsa, tornam o terreno mais fértil para a atuação desses fundos, pois nelas é mais fácil obter poder de voto para modificar a atuação da empresa.

Rochman, contudo, acredita que essa atuação ainda é limitada. “O capital ainda é muito concentrado, mas está saindo das mãos de famílias que operam o negócio e passando para fundos de investimento, e é por aí também que os fundos ativistas também encontram espaço para atuar”.

Diferentes perfis

Cada fundo ativista tem uma tese de investimentos própria, que deve ser conhecida pelos investidores que optem por se juntar a eles em assembleias. Em comum, elas tendem a ser de longo prazo, e exigem paciência para se provarem, exatamente porque aprimorar a governança da empresa e mudar seu rumo leva tempo.

Veja abaixo como agem cada um deles:

Tarpon Capital

A Tarpon decidiu separar seu negócio de private equity, cuja estratégia é investir em empresas fechadas e, posteriormente, desinvestir e obter ganhos com a valorização das ações, de seus fundos de ações que aplicam em empresas abertas. Mas a cultura do ativismo nas empresas investidas, bastante presente no private equity, perdurou na gestora.

Fama

A Fama busca defender princípios ESG em seus fundos de ações. Por isso, costuma colocar esses critérios para inserir empresas em sua carteira e fiscalizá-los no dia a dia da companhia para que sejam cumpridos e expandidos ao longo do investimento.

IP Capital

A IP Capital é uma gestora de fundos de ações com objetivos de longuíssimo prazo. Por isso, tem todo o interesse que as empresas nas quais investem melhorem seus negócios a cada dia, exercendo influência para aprimorar processos de decisão. O histórico de seus fundos vem sendo consistente, e bem acima de índices de referência.

Dynamo

A Dynamo costuma deter ao menos 10% de participação nas empresas em que investe, de forma a conseguir votar em conselhos fiscais e de administração, e ter voz ativa nas companhias. Assim como a IP, seus resultados vêm sendo consistentes: o fundo registrou perdas em apenas três dos últimos 20 anos.

Trígono

O fundo de ações da Trígono investe em empresas sólidas e líquidas e busca indicar conselheiros administrativos e fiscais com bom currículo no mercado nestas companhias. Dessa forma, acredita que consiga diminuir casos de conflito de interesse entre minoritários e majoritários, e colocar na mesa discussões que poderiam não chegar às assembleias. Também busca aprimorar processos ESG em cada uma das empresas investidas.

Luiz Barsi

O megainvestidor Luiz Barsi é conhecido por sua estratégia focada em dividendos e renda passiva. Portanto, costuma ter influência em conselhos de forma a zelar por essa distribuição de proventos.

Nelson Tanure

Tanure é conhecido por seu perfil arrojado: o investidor busca empresas em crise, os chamados ativos “estressados”, de forma a exercer influência sobre a sua gestão e gerar valor para, depois, desinvestir. Comumente se torna sócio majoritário de suas investidas. A WNT é a gestora ligada ao investidor.

Tempo Capital

A Tempo Capital questiona frequentemente na CVM a gestão das empresas nas quais seus fundos de ações investem. Como IP e Dynamo, investe com objetivos de longuíssimo prazo, e zela para que o valor das empresas se mantenha ao longo do investimento.

O que ponderar ao ser abordado por um deles

O fundo ativista atua prioritariamente pelo interesse dos seus investidores, que não será necessariamente o mesmo interesse de todos os outros investidores minoritários e majoritários, ressalta Rochman.

“Fundos de investimento precisam atender a um mandato, que pode não estar alinhado a estratégia de todos os acionistas”.

Por isso, o coordenador do FGV-Cef indica conhecer a estratégia de cada fundo antes de se juntar a eles, seja dando uma procuração para votar em seu nome ou seguindo suas recomendações nas assembleias.

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Ele mesmo um investidor ativista, Werner Roger, da Trígono, aponta que essa atuação deve sempre ser questionada.

“Indico apenas conselheiros com um bom currículo e reputação ilibada no mercado. Ele não é ligado à asset, e me preocupa que CVM e Anbima deixem que nomes indicados por assets estejam nos conselhos. Há um grande risco de estarem ali sem formação, não contribuírem para a discussão sobre a gestão e ainda conseguirem informações privilegiadas”.

Roger afirma que indica conselheiros para o bem da empresa. “Dessa forma, todos os acionistas ganham”.

Ativismo gera rentabilidade

Contudo, pode ser rentável estar atento à atuação dos fundos ativistas, ainda que de forma ponderada, diz Rochman. “Alguns estudos mostram que o desempenho operacional e financeiro das empresas que são alvos de fundos ativistas tende a melhorar no curto prazo, mas não necessariamente no longo prazo”.

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Há algumas razões para isso. O fundo pode não provar a sua tese de investimento ou encontrar dificuldades para exercer influência e, como consequência, resolver sair de sua posição na empresa, deixando o acionista que comprou a ação para o longo prazo “na mão”. Quando deixa de exercer sua influência, a cultura da empresa tende a se sobrepor, e os resultados se normalizam.

Por isso, Rochman indica que, caso o investidor confie no fundo ativista e em seu histórico de rentabilidade, preferira investir em seus fundos do que tentar replicar a sua estratégia com suas próprias ações. “Dessa forma, estará totalmente alinhado à sua atuação”.

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