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Fim da recuperação judicial da Americanas: o que acontece com as ações da empresa?

Ações chegaram a saltar 25% após decisão da Justiça, mas especialistas recomendam cautela e evitar especulação

As ações da Americanas (AMER3) subiram mais de 15% na terça-feira (20) após a Justiça do Rio de Janeiro decretar, na segunda-feira (19), o fim da recuperação judicial da varejista. Contudo, a euforia do mercado levanta dúvidas para o investidor. Afinal, a saída da recuperação judicial é definitiva? Ainda há espaço para alta dos papéis? A varejista pode voltar a integrar os índices da bolsa brasileira? O Bora Investir consultou especialistas e esclarece as dúvidas a seguir.  

A sentença assinada pelo juiz Arthur Eduardo Magalhães Ferreira, da 4ª Vara Empresarial do Rio, considera que o grupo cumpriu as obrigações do plano de recuperação. A Americanas havia pedido o encerramento em março, dois anos após a homologação do plano, mecanismo previsto na Lei de Recuperação e Falências.  

A administração judicial e o Ministério Público do Rio deram pareceres favoráveis. Ainda cabe recurso. Com a decisão, a expressão “em recuperação judicial” deve ser retirada dos nomes das empresas do grupo nos registros oficiais. Em fato relevante, a Americanas afirmou que o encerramento representa um marco importante e inaugura uma nova etapa de seus negócios. 

A varejista entrou em recuperação em janeiro de 2023, com dívidas de cerca de R$ 43 bilhões, após a revelação de inconsistências contábeis de aproximadamente R$ 20 bilhões. O plano foi aprovado pelos credores em dezembro de 2023 e homologado em fevereiro de 2024.  

Segundo levantamento da Elos Ayta Consultoria, a Americanas perdeu R$ 9.6 bilhões em valor de mercado desde o início da crise em 2023, quando a companhia tinha um valor de R$ 10.83 bilhões, que recuou para R$ 1,19 no dia 19 de outubro.  

Olhando o desempenho das varejistas de comércio, a Elos Ayta aponta que as ações AMER3 possuem no acumulado de 2026 o terceiro melhor desempenho do setor, ficando atrás apenas de Assaí (ASAI3) e Magazine Luiza (MGLU3).  

A saída da RJ é definitiva? 

Na reta final do processo, detentores de títulos de dívida emitidos no exterior, os bondholders, contestaram o encerramento, mas tiveram as objeções rejeitadas. Na sentença, o juiz lembrou que credores prejudicados por descumprimento do plano podem pedir a execução específica ou a falência. “Essa delimitação não deixa credor algum desprotegido”, afirmou. 

Para Jayme Simão, sócio fundador do Hub do Investidor, uma reversão do fim da RJ é difícil de acontecer.  “Reverter um encerramento que teve parecer favorável do administrador judicial e do Ministério Público é pouco provável”, apontou. Segundo ele, o risco jurídico existe, mas é secundário frente ao risco operacional e competitivo da companhia.  

Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, lembra que bondholders e alguns fornecedores já questionaram pagamentos e conversão de créditos. “O risco residual de novos incidentes judiciais existe e pode gerar ruído”, destaca. 

Segundo Uarian, qualquer movimento judicial relevante tende a ampliar a volatilidade das ações, sobretudo no curto prazo.  

Já Artur Horta, head de análise da GTF Capital, avalia que a saída da recuperação judicial provavelmente será definitiva, mas não descarta novos acordos ou até uma nova recuperação, como ocorreu com a Oi. “Os credores ainda vão exercer bastante influência sobre a companhia”, pontua.  

O que acontece com as ações das Americanas? 

Para os investidores que estão em dúvida se devem olhar a Americanas como uma alternativa de alocação, os especialistas alertam que não se trata de um investimento tradicional.

Uarian enxerga a companhia como uma tese de reestruturação em fase avançada, por conta que a varejista conseguiu reequilibrar o seu balanço e apresentou ganhos nas lojas físicas. Contudo, alerta que lucro recorrente e estabilidade de caixa ainda estão em construção.  

Já Horta é mais cético e acredita que uma empresa que estava em recuperação judicial não sai maior do que entrou. Ele comenta que é uma página virada judicialmente, porém, operacionalmente não significa uma mudança de rota. 

Para Simão, o cenário também é de incertezas. Ele lembra que o varejo digital exige muito capital e atualmente é dominado pelo Mercado Livre, Amazon e plataformas chinesas. “Até empresas sem a fragilidade da Americanas, como o Magazine Luiza, enfrentam dificuldades nesse ambiente”, diz.   

A volta de Americanas aos índices 

Com o fim da recuperação judicial, a Americanas deixa de ter a restrição que a mantinha fora dos índices da bolsa brasileira. Contudo, o retorno a estes índices não é automático, segundo os especialistas consultados pelo Bora Investir.  

Para Uarian, uma reintegração a índices como o Ibovespa B3 ou o IBrX dependeria do cumprimento dos critérios de liquidez, valor de mercado e free float (ações em livre circulação de mercado), verificados nas revisões periódicas. “Caso ocorra, a inclusão de AMER3 nos índices proporcionaria maior visibilidade aos papéis, além de aumento do volume negociado e demanda adicionar dos ETFs (fundos de índice) e fundos institucionais”, destaca.  

Simão aponta o índice de small caps como caminho mais natural de retomada, mas ressalta que seria um efeito técnico pontual que não muda a dinâmica do negócio.  

Hora é cético e considera que dificilmente Americanas voltará a integrar um índice da bolsa brasileira nos próximos dois ou três anos.  

Cuidados para o investidor 

Com bastante incerteza sobre o futuro das ações, os especialistas divergem sobre a alternativa de alocação.

Uarian recomenda observar o papel com perspectiva de médio e longo prazo, de forma conservadora e com muita atenção para a geração de caixa, vendas nas lojas comparáveis, margem bruta e dependência do capital do giro sazonal. Além de acesso ao crédito bancário e novos movimentos dos credores.  

Para Horta, o investidor deve pensar em Americanas como um ativo de longuíssimo prazo, porque sair da RJ não garante crescimento do faturamento e nem lucro imediato. “É claro que deixar essa situação é positivo, mas isso não significa que a companhia esteja bem operacionalmente”, pontua.  

Simão acredita que há espaço para uma posição especulativa de curto prazo, de peso pequeno na carteira e disciplina para realizar ganhos. Mas recomenda que o investidor acompanhe o endividamento e processos judiciais e criminais da companhia ligados à fraude.  

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