“Apenas com questão de janela”, vice-presidente da B3, Luiz Masagão, espera IPOs ainda neste ano
Para além da volta dos IPOs, executivos do mercado destacaram avanços em meio ao cenário de incertezas
Mesmo com juros elevados e incertezas no cenário global, o mercado financeiro começa a enxergar uma abertura para novos investimentos em renda variável no Brasil. Para o vice-presidente da B3, Luiz Masagão, a retomada dos IPOs depende “apenas de uma questão de janela”, enquanto executivos de bancos e gestoras avaliam que o avanço do crédito privado, a entrada de novos investidores e valuations atrativos podem reacender o apetite por risco ainda neste ano.
Em painel no MKBR 26, Masagão apontou que o mercado brasileiro tem mostrado capacidade de adaptação mesmo diante da falta de previsibilidade. Segundo ele, os agentes já aprenderam a operar em um ambiente mais instável. “Apesar das incertezas, que já conhecemos bem no Brasil, vimos o mercado evoluir para que todos consigam navegar nesse cenário de falta de certezas”, afirmou.
Ele destacou ainda a robustez do mercado secundário de crédito privado, impulsionado pelo ciclo de juros elevados. De acordo com o executivo, houve aumento tanto no volume de novas emissões quanto na participação de pessoas físicas nesse segmento. “Vemos um mercado secundário robusto no crédito privado, com novas emissões e mais investidores pessoas físicas, mesmo com um cenário de juros altos”, disse.
Quando o tema é mercado acionário, o executivo da B3 mantém uma visão otimista. Para ele, a retomada dos IPOs depende menos de fundamentos e mais do momento certo. “Temos um potencial claro, é apenas uma questão de janela. Setores como saneamento e infraestrutura receberam muitos investimentos, por isso seguimos otimistas com a volta dos IPOs ainda neste ano”.
Para Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset Management, avaliou que o principal ponto de atenção segue sendo o cenário internacional, especialmente os desdobramentos da guerra. Para ele, a maior incerteza está relacionada ao impacto sobre os combustíveis e à duração do conflito, fatores que pressionam a inflação e afetam a atividade econômica.
Funchal também chamou atenção para desequilíbrios internos, como o problema estrutural de gastos do governo, embora tenha reconhecido avanços no nível microeconômico. “Temos um problema estrutural de gastos públicos”, avaliou.
Em relação aos juros, o executivo da Bradesco Asset Management afirmou que vê um cenário-base de acomodação mais lenta. Ele projeta o fim do conflito até o fim de abril, assim, a inflação do Brasil em 2026 ficaria próxima de 5% e taxa de juros ao redor de 13% a.a., o que tende a postergar um ciclo mais agressivo de baixa da Selic.
O executivo do Itaú BBA alertou ainda que, sem a redução de juros esperada, o fluxo para ações e produtos híbridos tende a ser menor, podendo impactar também o crédito privado. Para ele, o principal risco está em falhas regulatórias que impeçam a execução do que já está previsto. Por outro lado, a grande oportunidade é tornar o Brasil mais atrativo para novos investidores e ampliar a base de capital disponível.
Na mesma linha de cautela, Guilherme Maranhão, sócio-diretor de renda fixa do Itaú BBA, reforçou que a confiança dos investidores depende diretamente de estabilidade. Em um cenário global turbulento, marcado por conflitos geopolíticos, os impactos são generalizados. “Para haver confiança, é preciso estabilidade. A guerra trouxe incertezas que afetaram preços de ações, curvas de juros e aumentaram as pressões inflacionárias”, afirmou.
Investimentos além dos IPOs
Apesar da ausência de IPOs nos últimos anos, Maranhão destacou que o mercado de capitais continuou cumprindo seu papel de financiamento às empresas por meio de outras estruturas. Ele também chamou atenção para os desafios enfrentados pelas pequenas e médias empresas. Segundo ele, o custo da primeira emissão ainda é elevado para esse público, o que reforça a necessidade de mecanismos que facilitem o acesso. “É preciso dar esse empurrãozinho inicial. Hoje já temos essa rodovia pronta para que as empresas entrem no mercado e tragam investidores para colaborar”, disse.
Masagão ainda destacou iniciativas como as letras de crédito (LCs), o novo regime FÁCIL e o avanço da regularização de duplicatas escriturais como instrumentos capazes de democratizar o acesso ao mercado de capitais. Segundo ele, essas ferramentas devem impulsionar uma nova jornada de crescimento, com potencial de aumentar significativamente o número de participantes nos próximos anos.