Real x dólar e euro? Os fatores internos e externos que impulsionam a moeda brasileira
Com investimento estrangeiro em alta e reservas internacionais robustas, moeda se blinda da volatilidade global
O mercado financeiro tem acompanhado um movimento de fortalecimento do real frente a moedas fortes. Apesar do cenário internacional complexo, a moeda brasileira tem se destacado com uma das melhores performances recentes. Para entender a dinâmica que sustenta o câmbio no atual patamar, é preciso observar uma combinação de fluxo de capital estrangeiro, política monetária, balança comercial e o cenário geopolítico.
De acordo com Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, o enfraquecimento da moeda americana tem raízes externas recentes. “Desde que Donald Trump assumiu a presidência, nós estamos observando um enfraquecimento do dólar, muito por conta de uma perda do excepcionalismo norte-americano, uma leve deterioração das instituições”, explica o economista. Com isso, investidores passaram a buscar mercados emergentes, beneficiando países como Brasil, Coreia do Sul e Chile com a entrada de fluxo de capital.
Balança comercial e atratividade interna
No cenário doméstico, a força do real é sustentada por pilares sólidos na economia e no mercado financeiro. O diferencial de juros brasileiro tornou o país atrativo para o capital estrangeiro, enquanto os ativos locais em dólar continuam sendo considerados baratos.
Além disso, o Brasil se beneficia diretamente da alta das commodities. Sung destaca que os preços do petróleo acima de 100 dólares são extremamente favoráveis à balança comercial do país, que é um grande exportador do produto. Esse fator, somado ao crescimento do volume exportado de minério de ferro e produtos agrícolas, fortalece a balança comercial, trazendo um alívio para o dólar com a forte entrada da moeda americana no país.
Outro ponto que joga a favor da balança é a dinâmica interna: a expectativa é que a atividade econômica brasileira cresça menos em 2026 na comparação com 2025, o que deve contribuir para uma desaceleração das importações.
O papel dos Bancos Centrais e o fluxo de investimentos
Em relação à política monetária global, o mercado vive uma expectativa sobre como as instituições reagirão às pressões inflacionárias de curto prazo. A perspectiva é que o Banco Central Europeu e o Banco Central dos Estados Unidos mantenham os juros nos atuais patamares até compreenderem o comportamento da inflação após os recentes conflitos.
No Brasil, a expectativa é de que o Banco Central reduza os juros de forma cautelosa.
Embora esse movimento diminua o diferencial de juros em relação ao exterior, Sung avalia que isso não fará uma pressão extra sobre o dólar, pois esses pontos já estão bem precificados pelo mercado. O Brasil deve continuar sendo um campo bastante atrativo para investimentos.
A entrada de recursos externos também mostra sinais de resiliência. O investimento estrangeiro direto (IED) apresentou melhora nos últimos meses, situando-se em torno de 3,24% do PIB. O país conta ainda com um importante amortecedor contra a volatilidade global: as reservas internacionais, que atingiram o nível robusto de 371 bilhões de dólares em fevereiro.
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Riscos no radar: Eleições e agenda fiscal de 2027
No curto prazo, a perspectiva é de estabilidade, com o dólar se mantendo entre R$ 5,15 e R$ 5,25 até o terceiro trimestre, impulsionado pela expectativa de que os conflitos geopolíticos se encerrem em breve. Caso o conflito se dissipe sem novos agravantes, a tendência é que o mercado retorne ao comportamento pré-conflito, com um dólar um pouco mais fraco.
Contudo, o horizonte de médio prazo exige cautela. O economista alerta que a partir do final do terceiro trimestre e começo do quarto trimestre, com o início do período eleitoral, o mercado entrará em uma fase de dúvidas. “Isso pode gerar uma certa volatilidade no aspecto ali no quarto trimestre, por isso que a gente tem até um câmbio mais alto no final do ano para encerrar em R$ 5,65”, projeta Sung.
O principal foco de ansiedade do mercado será a definição da agenda econômica do próximo mandato e a magnitude do ajuste fiscal que precisará ser realizado em 2027, independentemente de quem vencer as eleições. Embora não haja crença em insolvência fiscal ou calote do país, as incertezas sobre quais reformas e problemas serão atacados pela nova equipe econômica podem gerar volatilidade extra. Dependendo dos próximos passos da agenda fiscal, benefícios atuais, como o próprio diferencial de juros, correm o risco de serem neutralizados no futuro.