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De figurinha em figurinha até a Arábia Saudita: o investimento escondido no álbum da Copa
B3 Educação
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Por Fernando Rodrigues e Marina Naime
O álbum de figurinhas da Copa do Mundo foi lançado há poucos dias e já tomou conta das conversas, das mesas de jantar e dos grupos de WhatsApp — como acontece a cada quatro anos. Adultos e crianças mergulham juntos na caça aos pacotinhos, na organização de figurinhas repetidas e faltantes, nas trocas com amigos e em pontos de encontro com desconhecidos. E, inevitavelmente, os matemáticos entram em campo também.
O verdadeiro custo de completar o álbum
O álbum da Copa de 2026 tem 980 figurinhas, e cada uma custa R$ 1,00. Somando o valor do próprio álbum, a coleção completa custaria, em teoria, cerca de R$ 1.000,00. Parece simples, certo? Mas aqui a teoria e a prática jogam em times diferentes.
O problema é que você não escolhe quais figurinhas vem em cada pacotinho — elas são aleatórias. E quanto mais figurinhas você já tem, maior a chance de vir uma repetida. Resultado: quem decidir completar o álbum só comprando pacotinhos, sem recorrer a trocas, pode gastar até R$ 7.000,00. Economistas e matemáticos já fizeram essa conta — e ela dói no bolso.
Se os R$ 1.000,00 do valor teórico já assustam — e assustam, porque a inflação das figurinhas está ganhando fácil do IPCA — , os R$ 7.000 são simplesmente inviáveis para a maioria dos colecionadores.
Mas e se esse dinheiro, ao invés de ir para os pacotinhos, virasse um investimento? Até onde ele nos levaria? Será que dá para chegar à Copa do Mundo de 2034, na Arábia Saudita?
Vamos fazer essa conta juntos.
Transformando figurinhas em viagem
Para a nossa simulação, vamos usar um valor intermediário: R$ 3.000,00. É o custo estimado para quem completa o álbum com uma combinação razoável de compras e trocas — nem o cenário mais barato, nem o mais caro.
A pergunta que queremos responder é: se alguém investir esse dinheiro ao longo dos próximos 8 anos, em um produto seguro e previsível, consegue cobrir os gastos de uma viagem para ver a Copa ao vivo?
O produto escolhido para a simulação é o Tesouro Prefixado, um título público do Tesouro Direto. Mas o que isso significa na prática?
Traduzindo: quando você compra um Tesouro Direto Prefixado, está emprestando dinheiro ao governo brasileiro. Em troca, o governo se compromete a devolver esse valor com juros — e você já sabe, no momento da compra, exatamente quanto vai receber lá na frente. Hoje, essa taxa está em torno de 14% ao ano.
Cenário 1: só o investimento inicial
Imagine que você gasta R$ 1.000,00 por mês entre maio e julho deste ano para ter sua coleção completa no fim da Copa. São exatamente os R$ 3.000,00 do nosso cenário.
Agora imagine que, ao invés de comprar figurinhas, você aplica esse mesmo valor no Tesouro Prefixado que rende 14% ao ano e não mexe nele por 8 anos.
O que acontece? Os juros compostos entram em campo. Diferente de um rendimento linear — onde você ganharia o mesmo valor todo ano —, nos juros compostos o rendimento de cada ano é calculado sobre o valor já acumulado. É como uma bola de neve: quanto mais ela rola, mais cresce.
Veja a evolução, ano a ano:
| Ano | Valor acumulado (aprox.) |
| 2026 | R$ 3.000 |
| 2028 | R$ 3.900 |
| 2030 | R$ 5.070 |
| 2032 | R$ 6.590 |
| 2034 | R$ 8.557 |
Descontando o imposto de renda de 15% que incide apenas sobre a rentabilidade do seu investimento (a menor alíquota possível, justamente por ser um investimento de longo prazo), o valor que cairia na sua conta em 2034 seria de aproximadamente R$ 7.724,00. Uma valorização de mais de 2,5 vezes em 8 anos.
Tudo isso sem mover um dedo após o aporte inicial. Sem risco relevante. Sem acompanhamento diário.
Cenário 2: aporte inicial + contribuições mensais
Aqui é onde a coisa fica realmente interessante.
E se, após o fim da Copa de 2026, você transformasse o hábito de gastar com figurinhas em um hábito de poupar? Em vez de R$ 1.000 por mês em pacotinhos, suponha que a partir de agosto de 2026 você passe a investir R$ 250,00 por mês no mesmo Tesouro Prefixado, somando esses valores aos R$ 3.000,00 iniciais.
Pense assim: R$ 250 por mês é mais ou menos o preço de dois jantares fora ou de um serviço de streaming + delivery no fim de semana. É um valor que muita gente gasta sem perceber.
E o resultado?
- Valor bruto acumulado em 2034: mais de R$ 49.000,00
- Valor líquido (descontado o IR de 15%): aproximadamente R$ 46.000,00
Suficiente para te levar à Copa na Arábia Saudita! Tudo isso a partir de um gasto que, se fosse em figurinhas, poderia virar uma pilha de repetidas no fundo da gaveta.
Quer fazer a simulação com os seus próprios valores? No site do Tesouro Direto você encontra uma calculadora para simular a rentabilidade dos investimentos de acordo com os valores que você deseja investir. Os números podem variar um pouco de acordo com o seu perfil de aportes, mas não vão se afastar muito do que calculamos aqui.
O que o álbum de figurinhas nos ensina sobre investimentos
Se a gente olhar com atenção, o álbum de figurinhas é uma aula de educação financeira disfarçada de brincadeira:
- O tempo é o maior aliado dos juros compostos. O dinheiro não cresce de forma linear — ele acelera. É como completar o álbum: as primeiras figurinhas saem fácil, mas com o tempo o esforço cresce exponencialmente. Nos investimentos, esse efeito joga a seu favor: quanto mais cedo você começa, mais poderosa é a bola de neve.
- Objetivos concretos tornam o investimento real. Quando você conecta uma meta tangível (ir à Copa) a uma estratégia racional (Tesouro Direto com aportes mensais) investir deixa de ser algo abstrato e distante. Vira um projeto com começo, meio e fim, como preencher o álbum figurinha por figurinha.
- A consistência supera o valor do aporte. O investimento inicial de R$ 3.000 ajuda muito, mas o verdadeiro diferencial vem dos R$ 250 mensais mantidos com disciplina ao longo dos 8 anos. No álbum, quem troca todo dia completa antes de quem compra tudo de uma vez. Nos investimentos, a lógica é a mesma: a regularidade vale mais do que o tamanho do aporte.
No fim, a pergunta que fica é:
“Quantos projetos grandes da minha vida cabem dentro dos pequenos gastos que eu faço sem pensar?”
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