Organizar as contas

Carol Stange: O churrasco subiu, a inflação caiu. Em quem o seu bolso acredita?

Ao olhar a inflação, o alívio retratado nos gráficos do IBGE recusa-se a entrar na sua sacola de compras


Carol Stange, colunista Bora Investir. Fonte: Arquivo pessoal.

Carol Stange

Planejadora financeira e consultora independente de investimentos, Carol Stange atua como multiplicadora do programa “Eu e meu dinheiro” do Banco Central e acumula as certificações CEA (Anbima) e CNPI-T (Apimec), além de ser Consultora CVM, criadora da marca “Como enriquecer seu Filho” e cofundadora do Instituto de Educadores Financeiros.


Você está na fila do açougue no sábado de manhã, de olho na bandeja de picanha, quando chega a notificação no celular: a inflação oficial recuou e a meta do ano parece sob controle. Segundos depois, o atendente embala a carne e anuncia um valor que desafia qualquer lógica econômica.  

O alívio retratado nos gráficos do IBGE recusa-se a entrar na sua sacola de compras. A cena se repete no boleto do condomínio, na mensalidade escolar e na garrafa de azeite: enquanto o mercado financeiro celebra a queda dos índices, a vida real cobra um pedágio cada vez mais alto. 

A ficção da média estatística 

Existe um descompasso estrutural entre o índice oficial de preços e a percepção individual de custo de vida. O IPCA mede uma cesta média teórica de consumo para famílias espalhadas por diversas regiões metropolitanas. O ponto é que ninguém consome a média. Enquanto o preço da energia elétrica ou de aparelhos eletrônicos puxa o indicador geral para baixo, itens de consumo frequente e serviços essenciais continuam subindo sem trégua.  

O sentimento de que o dinheiro rende menos não é fruto de pessimismo injustificado; é apenas o resultado direto de ver a sua cesta pessoal de consumo rodando em um ritmo muito mais veloz do que a média nacional.  

O risco de calibrar investimentos por percepção visual 

Ao longo da minha trajetória como consultora financeira independente, vejo com frequência pessoas cometerem erros de alocação por confundirem esse ruído de percepção diária com a dinâmica real dos mercados.  

Mobilizados pela sensação de alta generalizada no caixa do supermercado, muitos investidores abandonam a estratégia de longo prazo para resgatar aplicações conservadoras em busca de retornos curtos e milagrosos, ou travam o patrimônio em títulos de renda fixa prefixados sem entender o risco do ciclo da taxa Selic.  

Proteger o patrimônio exige entender que a carteira de investimentos não foi desenhada para tentar adivinhar a etiqueta do açougue na semana que vem, mas para garantir que o seu dinheiro sobreviva ao passar dos anos. 

Como blindar o patrimônio sem brigar com os números 

Atravessar essa contradição exige ancorar os recursos em ativos capazes de absorver o impacto dos preços ao longo do tempo. O pilar fundamental dessa proteção continua sendo a alocação em títulos públicos atrelados à inflação, como o Tesouro IPCA+, que asseguram uma taxa real de juros contratada acima da variação oficial, pouco importando o patamar em que ela esteja.  

Complementar essa estrutura com empresas pagadoras de dividendos e papéis atrelados ao CDI traz resiliência adicional, já que grandes companhias possuem poder de remarcação de preços e repassam a alta dos custos diretamente para as suas margens de lucro. 

A paz de quem não tenta vencer o mercado no supermercado 

O IPCA pode até fechar o mês sorrindo para o noticiário, mas a sua geladeira não é abastecida com médias estatísticas. Tentar fazer a carteira de investimentos compensar as remarcações diárias de preços é transformar o planejamento financeiro em um jogo cansativo de reação.  

A tranquilidade de longo prazo não vem de tentar ganhar do preço da picanha na terça-feira, mas de manter uma alocação disciplinada em ativos que superem a inflação real ao longo dos anos. No final das contas, o indicador oficial cumpre o papel de orientar a política monetária; a sua alocação cumpre o papel de defender o seu estilo de vida.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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