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Carol Stange: Quanto maior o Dividend Yield, melhor? Nem sempre. E às vezes é o contrário

O dividend yield mede quanto uma empresa distribuiu em dividendos em relação ao preço da ação


Carol Stange, colunista Bora Investir. Fonte: Arquivo pessoal.

Carol Stange

Planejadora financeira e consultora independente de investimentos, Carol Stange atua como multiplicadora do programa “Eu e meu dinheiro” do Banco Central e acumula as certificações CEA (Anbima) e CNPI-T (Apimec), além de ser Consultora CVM, criadora da marca “Como enriquecer seu Filho” e cofundadora do Instituto de Educadores Financeiros.


Carlos decidiu comprar sua primeira ação. Como muitos investidores, foi direto para uma lista na internet com as empresas que mais pagavam dividendos. Uma delas chamava atenção: um dividend yield muito acima da média. A conclusão parecia inevitável. Se paga mais dividendos que as outras, deve ser um negócio melhor. 

A lógica faz sentido à primeira vista. Afinal, em quase tudo na vida, receber mais costuma ser melhor do que receber menos. O problema é que o mercado financeiro adora transformar essa intuição em armadilhas. E poucas são tão comuns quanto acreditar que um dividend yield elevado, por si só, é um selo de qualidade. 

Não é coincidência que essa dúvida reapareça sempre que começa a temporada de divulgação de resultados. As listas das “maiores pagadoras de dividendos” voltam a circular, investidores procuram oportunidades de renda e o indicador ganha destaque. O que quase ninguém pergunta, porém, é justamente o mais importante: por que aquele dividend yield está tão alto? 

O mercado costuma olhar para o número, mas esquece de fazer a conta 

O dividend yield mede quanto uma empresa distribuiu em dividendos em relação ao preço da ação. A fórmula é simples: 

Dividend Yield = Dividendos pagos ÷ Preço da ação 

O problema é que muitos investidores enxergam apenas a primeira parte da equação: os dividendos. O preço da ação, que está no denominador, costuma passar despercebido. 

E é justamente aí que mora o problema. 

Um dividend yield maior nem sempre significa um dividendo maior 

Imagine uma empresa que distribui 8 reais por ação. Quando seus papéis eram negociados a 200 reais, o dividend yield era de 4%. 

Agora imagine que o mercado passe a acreditar que aquela empresa enfrentará dificuldades para crescer. Os investidores começam a vender suas ações e a cotação cai para 100 reais. 

Se a companhia continuar distribuindo os mesmos 8 reais por ação, o dividend yield dobrará para 8%. 

O investidor não passou a receber mais dividendos. O indicador ficou maior apenas porque o preço da ação caiu. 

É por isso que um dividend yield elevado pode refletir tanto uma empresa que remunera bem seus acionistas quanto um negócio cuja cotação desabou porque o mercado passou a enxergar mais riscos. 

O erro é confundir consequência com causa 

Empresas de qualidade costumam pagar bons dividendos. Isso é verdade. 

Mas concluir que empresas que pagam dividendos elevados são, necessariamente, empresas de qualidade é inverter a lógica. 

Uma companhia saudável normalmente distribui dividendos porque gera caixa de forma consistente, apresenta lucros recorrentes, mantém um nível de endividamento adequado e possui um modelo de negócios capaz de atravessar diferentes ciclos econômicos. 

O dividendo é consequência dessas características. Não é ele que torna a empresa um bom investimento. 

Nem todo dividendo é recorrente 

Um comportamento que encontro com frequência em carteiras de investidores é a expectativa de que o último dividendo pago se repetirá nos anos seguintes. Na prática, essa conclusão costuma ignorar um ponto importante: nem todo pagamento é recorrente. 

Em alguns casos, uma empresa distribui um valor extraordinário após vender um ativo, registrar um lucro não recorrente ou devolver aos acionistas parte do caixa acumulado. Esses eventos podem elevar o dividend yield momentaneamente, mas dificilmente se repetirão com a mesma intensidade. 

Por isso, olhar apenas para o percentual pode criar uma falsa impressão de previsibilidade. 

O que realmente merece a atenção do investidor 

Se o objetivo é construir patrimônio no longo prazo, o dividend yield deve ser apenas uma peça da análise. 

Mais importante do que descobrir qual empresa pagou mais dividendos no último ano é entender se ela continuará gerando caixa, investindo no próprio crescimento e remunerando seus acionistas de forma sustentável ao longo do tempo. 

Negócios resilientes, com vantagens competitivas, boa alocação de capital e resultados consistentes tendem a criar valor para seus acionistas por muitos anos. Os dividendos são uma consequência natural desse processo. 

Esqueça o “quanto ela paga?” 

Antes de se encantar por um dividend yield de dois dígitos, faça uma pausa. Às vezes, ele representa uma empresa excepcional. Em outras, é apenas o mercado colocando uma placa de “atenção” em um negócio que perdeu valor. 

Na Bolsa, nem todo prêmio é recompensa. Alguns são aviso. 

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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