Organizar as contas
Carol Stange: O presente do Dia dos Pais leva a culpa mas ele não é o problema
O que pesa de verdade orçamento não vem uma vez por ano. É o estilo de vida que foi sendo contratado sem que ninguém percebesse
Carol Stange
Planejadora financeira e consultora independente de investimentos, Carol Stange atua como multiplicadora do programa “Eu e meu dinheiro” do Banco Central e acumula as certificações CEA (Anbima) e CNPI-T (Apimec), além de ser Consultora CVM, criadora da marca “Como enriquecer seu Filho” e cofundadora do Instituto de Educadores Financeiros.
Na semana passada, durante uma reunião com um cliente, ele comentou que ainda precisava resolver uma pendência antes do Dia dos Pais: escolher o presente. Enquanto conversávamos, abriu um sorriso meio constrangido e disse: “Essas datas acabam pesando no orçamento.”
Poucos minutos depois, quando analisamos juntos os últimos doze meses de movimentação financeira, ficou claro que o presente sequer aparecia entre as despesas mais relevantes.
O Dia dos Pais leva uma culpa que não é dele
Não foi falta de atenção dele. É assim que a cabeça de qualquer pessoa organiza gasto: o que tem data marcada, embrulho e nome do destinatário fica fácil de lembrar – mesmo pesando pouco no total.
Ele tinha razão de sentir certa culpa: o levantamento mais recente da CNDL/SPC Brasil aponta gasto médio de R$ 286 no Dia dos Pais. Só que esse dado aponta para o culpado errado.
O verdadeiro padrão de consumo é silencioso
O que pesa de verdade não vem uma vez por ano. É o estilo de vida que foi sendo contratado sem que ninguém percebesse – um serviço aqui, um plano ali, um upgrade que parecia pequeno demais para discutir na hora da assinatura.
Um dado curioso do setor mostra que quase metade de quem assina streaming hoje mantém dois serviços ativos ao mesmo tempo, e a soma passa fácil de R$ 170 a R$ 300 por mês.
Ninguém faz essa conta antes de clicar em “assinar”. Sozinha, cada assinatura parece um capricho pequeno. Juntas, viram sócias do seu orçamento – com direito a cobrança todo mês, sem nunca aparecer numa reunião para prestar contas.
O que pesa no patrimônio não acontece uma vez por ano
Aqui a conta é simples de fazer e incômoda de olhar. O presente do Dia dos Pais custa, em média, R$ 286 – uma vez ao ano. As sócias do parágrafo anterior, só em streaming, cobram entre R$ 2.052 e R$ 3.684 no mesmo período – todo mês, sem pedir licença. Data pesa uma vez. Repetição pesa sempre.
Quando reviso planejamento com clientes, a pergunta que rende mais do que qualquer corte de presente é essa: desses compromissos, qual você assinaria de novo hoje, com o extrato dos últimos doze meses na mão?
O bode expiatório do orçamento
Contei ao meu cliente que o presente nem aparecia no extrato – e que talvez fosse hora de parar de condenar os presentes em datas especiais e começar a prestar atenção no que começa a fazer parte do orçamento discretamente, todo mês, sem pedir licença. Os presentes levam a fama, mas pequenos gastos que vão se acumulando são os verdadeiros culpados.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3