Investir melhor

Carol Stange: Vale a pena mudar a carteira por causa das eleições?

Quem sai da bolsa hoje para escapar da eleição está fazendo duas apostas, não uma


Carol Stange, colunista Bora Investir. Fonte: Arquivo pessoal.

Carol Stange

Planejadora financeira e consultora independente de investimentos, Carol Stange atua como multiplicadora do programa “Eu e meu dinheiro” do Banco Central e acumula as certificações CEA (Anbima) e CNPI-T (Apimec), além de ser Consultora CVM, criadora da marca “Como enriquecer seu Filho” e cofundadora do Instituto de Educadores Financeiros.


Um cliente me mandou mensagem outro dia perguntando se não seria mais prudente reduzir a posição em ações agora – “só até a poeira da eleição baixar”, escreveu ele, do jeito de quem já tinha decidido e só queria ouvir de mim que estava certo. 

Reduzir por causa da eleição é apostar duas vezes 

A pergunta parece técnica, mas é comportamental. Quem sai da bolsa hoje para escapar da eleição está fazendo duas apostas, não uma.  

A primeira é sobre quem vai ganhar. A segunda, é sobre como o mercado vai reagir a esse resultado – e reagir “bem” exige acertar também o timing da saída e o da volta. Errar qualquer uma das duas transforma prudência em prejuízo. Ninguém pensa nessa conta antes de cogitar movimentar a carteira. 

O padrão existe, mas não é garantia 

A bolsa brasileira andou de lado nos últimos meses, com desempenho abaixo de outros mercados emergentes – movimento que eu associo à cautela historicamente observada nos semestres que antecedem eleição presidencial.  

Olhando eleições passadas, o padrão é regular: queda média em torno de 6,7% no semestre anterior à votação, recuperação média de 5,9% nos seis meses seguintes. Para este ano, projeções apontam um possível rally de cerca de 10% no Ibovespa depois do primeiro turno, repetindo o script conhecido. 

Só que padrão não é sentença. Na eleição mais recente, o índice não seguiu tendência nenhuma – só teve mais solavanco que o normal. Quem contava com o roteiro de sempre saiu no meio do filme sem saber se teria volta. 

O que realmente move o preço não é o nome na urna 

Aqui está o que costuma escapar de quem monta estratégia com base em pesquisa eleitoral: o mercado se importa menos com quem vai ganhar do que com o que o eleito vai fazer com o arcabouço fiscal e o gasto público depois de empossado.  

É esse debate – não a corrida em si – que define o prêmio de risco embutido no preço das ações e no câmbio. E isso só fica claro meses depois da posse. Não na noite da apuração. 

Quando um cliente me traz a eleição como argumento para mexer na carteira, devolvo três perguntas antes de qualquer ajuste. Qual das duas apostas você está fazendo agora – a de quem vai ganhar, ou a de como o mercado vai reagir? Se sair e a bolsa subir depois do primeiro turno, qual será o seu critério para voltar? E essa posição em ações foi pensada para o seu prazo e objetivo, ou para o resultado de outubro? 

Sua carteira já sabia que outubro ia chegar 

Ninguém marca reunião com o próprio plano financeiro para avisar que tem eleição este ano. O plano já contava com isso. É para isso que existem prazo, alocação e diversificação – não para serem reescritos a cada pesquisa de intenção de voto. 

Meu cliente queria que eu confirmasse a decisão. Devolvi a pergunta que ele já sabia responder – só ainda não tinha reparado que a resposta não estava marcada para outubro. 

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

Quer analisar todos os seus investimentos em um só lugar, em uma plataforma intuitiva? Baixe o APP B3