Objetivos financeiros

Carol Stange: Quem tem vergonha de falar de dinheiro paga duas vezes

Dinheiro mexe com identidade: com a sensação de competência, com o medo do julgamento de quem está ao lado


Carol Stange, colunista Bora Investir. Fonte: Arquivo pessoal.

Carol Stange

Planejadora financeira e consultora independente de investimentos, Carol Stange atua como multiplicadora do programa “Eu e meu dinheiro” do Banco Central e acumula as certificações CEA (Anbima) e CNPI-T (Apimec), além de ser Consultora CVM, criadora da marca “Como enriquecer seu Filho” e cofundadora do Instituto de Educadores Financeiros.


Há alguns meses, uma cliente chegou para a primeira reunião de consultoria e, antes de eu abrir qualquer planilha, disse uma frase que nunca tinha dito nem para o marido: “Eu não sei quanto a gente deve. Tenho medo de descobrir.” O extrato estava ali, acessível a um toque. O que travava era outra coisa: o medo de ouvir, em voz alta, um número que ela já suspeitava. 

Por que ninguém fala sobre isso? 

Esse tipo de silêncio não é exceção – é regra. No Brasil, dinheiro carrega um peso que ultrapassa a aritmética. Quem tem evita falar para não parecer arrogante. Quem não tem evita falar para não expor a própria vulnerabilidade. Os dois lados da mesa escolhem o mesmo caminho por motivos opostos, e chegam ao mesmo lugar: ninguém aprende, porque ninguém conta. 

Esse silêncio tem lógica própria. Dinheiro mexe com identidade: com a sensação de competência, com o medo do julgamento de quem está ao lado. Para quem sente que está “devendo” não só ao banco, mas à própria expectativa de adulto que já devia ter resolvido isso, tocar no assunto equivale a admitir um fracasso pessoal, não apenas financeiro. Evitar a conversa funciona, por um tempo, como proteção emocional. O problema é que essa proteção não resolve dívida nem forma patrimônio. Ela só compra tempo, e com juros. 

Atendo um casal que só fala de dinheiro num momento do ano: na declaração do Imposto de Renda. No resto do tempo, cada um cuida da própria conta e finge que está tudo bem. Funciona, até não funcionar – geralmente quando aparece uma dívida que um não sabia que o outro tinha, ou uma reserva que era menor do que os dois imaginavam. 

O ciclo entre dinheiro e bem-estar 

A relação entre dinheiro e bem-estar emocional não segue uma única direção. O aperto financeiro desgasta o sono, a paciência, a convivência em casa – e esse desgaste, por sua vez, sabota a própria decisão financeira. A ansiedade gasta dinheiro num impulso que não tem relação nenhuma com a compra em si – é alívio disfarçado de consumo. O cansaço faz o oposto: trava a pessoa antes mesmo de abrir o aplicativo, porque qualquer tarefa, até a mais simples, vira fardo grande demais para quem já não tem energia sobrando. O ciclo se alimenta dos dois lados, e só se rompe quando alguém nomeia o problema em voz alta – para um profissional, para a família, ou, no mínimo, para si mesmo. 

O teste das três perguntas 

Na consultoria independente, costumo testar essa abertura com três perguntas que parecem óbvias, mas raramente são respondidas sem desconforto. Quando foi a última vez que você disse o número real da sua dívida ou da sua reserva para uma pessoa – não para o aplicativo do banco? Você evita o assunto porque tem vergonha do que tem, ou do que não tem? Se alguém da sua casa perguntasse hoje qual é, de fato, sua situação financeira, você teria uma resposta – ou desviaria de assunto, como sempre desviou? 

O que muda quando alguém fala primeiro 

Aquela cliente voltou para a segunda reunião com o extrato impresso, sublinhado, e uma frase diferente: “Falei com meu marido. Não resolveu a dívida, mas resolveu o silêncio.” A dívida ainda levaria meses para diminuir. O medo de abrir o aplicativo, esse sumiu na mesma semana. O número ainda está lá. Ela só não está mais sozinha com ele. 

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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