Cintia Frankfurt: O que acontece quando o dinheiro acaba antes da vida
Guardar e investir dinheiro não deveria ser visto como opcional, e sim como parte essencial de qualquer projeto de vida
Cintia Frankfurt
@falando_em_investirFundadora do Falando em Investir, analista CNPI e consultora CVM. Possui ampla expertise em planejamento financeiro e investimentos. Por meio de sua consultoria, orienta as pessoas a investir com segurança, ajudando-as a alcançar seus sonhos e objetivos de vida.
Quem conhece alguém que viveu uma vida que você sempre considerou incrível — viagens, casa grande, carros novos — e que, depois de aposentado, passou a enfrentar dificuldades? Deixou de viajar, teve que reduzir o padrão de vida e, em casos mais extremos, nem consegue mais cobrir os custos básicos do dia a dia?
Quando eu era adolescente, tive uma amiga assim. Ela morava em uma casa grande, tinha motorista, viajava toda temporada de férias. Fazia balé, aula de piano, e eu, sinceramente, não entendia muito bem as questões financeiras por trás daquele estilo de vida. Ela nunca foi metida ou esnobe — éramos próximas, eu gostava muito dela —, mas eu percebia que a rotina dela era bem diferente da minha. Na minha cabeça de adolescente, ela era rica. Lembro que o pai tinha uma empresa e a mãe não trabalhava fora.
Com o tempo, cada uma seguiu para uma faculdade diferente, ela foi morar fora do país, e nosso contato foi diminuindo, embora eu continuasse tendo notícias por meio de amigos em comum. Hoje, na casa dos 40 anos, cada uma construiu sua própria vida financeira. E, ao contrário do padrão que os pais dela proporcionavam, hoje ela vive uma rotina de classe média. Os pais ainda estão vivos, mas precisaram vender a casa e não têm mais recursos para pagar as próprias contas. Quem sustenta os dois, hoje, é a filha. Imagino o quanto isso deve pesar para ela.
Um cenário mais comum do que parece
O que aconteceu com os pais da minha amiga é, infelizmente, mais frequente do que se imagina. Enquanto tiveram uma fonte de renda sólida, eles aproveitaram o melhor estilo de vida possível — só que esqueceram de considerar que essa renda não duraria para sempre. Não guardaram para o futuro, não planejaram a aposentadoria e, quando o cenário mudou, simplesmente não tinham reserva para se sustentar.
Esse caso é bastante extremo, mas a versão mais comum é parecida: a pessoa não se planeja, acredita que o que guardou será suficiente e, de repente, precisa reduzir o padrão de vida. Ou então chega a uma idade mais avançada e só aí o dinheiro se esgota. No caso dos pais da minha amiga, ele simplesmente acabou cedo demais.
Vivemos hoje mais anos, e com mais qualidade de vida. Isso significa que vamos passar bastante tempo aproveitando a aposentadoria — viajando, consumindo, vivendo experiências. Só que, sem dinheiro, nada disso se sustenta.
Como não repetir essa história
Então, o que fazer para não passar pelo mesmo que os pais da minha amiga passaram? A resposta começa com uma palavra simples: planejamento. Guardar e investir dinheiro não deveria ser visto como opcional, e sim como parte essencial de qualquer projeto de vida.
E aqui vai um ponto importante: quanto mais caro for o seu estilo de vida hoje, maior precisa ser a sua reserva para o futuro. Não adianta manter um padrão elevado e guardar só uma quantia simbólica todo mês — suas economias precisam ser proporcionais ao jeito que você vive, para que seja possível manter esse ritmo por toda a sua vida. Só assim você chega, de fato, naquela aposentadoria que você imagina: você numa praia, tranquilo, sem preocupação, simplesmente aproveitando.
Comece cedo — mas, se ainda não começou, comece agora
O ideal é começar a poupar e investir ainda jovem. Quanto mais tempo seu dinheiro tem para render, menor precisa ser o valor investido todo mês, porque os juros e a rentabilidade trabalham a seu favor por mais tempo. No fim das contas, tudo o que fazemos com antecedência, fazemos com mais leveza — e com investimentos não é diferente.
Mas se você ainda não começou, a boa notícia é que nunca é tarde para se planejar. Basta energia e vontade de agir, porque as chances são de que você vai viver muitos e bons anos pela frente — e pode, sim, ter uma vida ativa e independente, inclusive financeiramente, sustentando uma velhice com qualidade e sem depender de ninguém.
A história dos pais da minha amiga não precisa ser a sua. O primeiro passo é reconhecer que o futuro se constrói com decisões de hoje. E esse passo, você pode dar agora mesmo.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3